O crepúsculo das personificações - Fredy Perlman

O crepúsculo das personificações - Fredy Perlman

Uma detalhada análise de como, no cotidiano, os poderes autônomos dos indivíduos e comunidades são alienados ao capital e ao Estado mediante suas personificações.

[Nota dos tradutores: Este texto é uma tradução livre do primeiro capítulo da sátira “Manual for Revolutionary Leaders“ (“Manual para Líderes Revolucionários”), escrito por Fredy Perlman e publicada com o pseudônimo Micheal Velli em 1972. Este capítulo, intitulado “Geração de Revolucionários”, é uma detalhada análise de como, no cotidiano, os poderes autônomos dos indivíduos e comunidades são alienados ao capital e ao Estado mediante suas personificações. Também é apresentado um contraste entre lutas que são “respostas continuamente mutantes às forças produtivas em contínua transformação” e aquelas ligadas ao que é chamado “modelo moderno de revolução do século XX”, modelo que satiriza o leninismo e o terceiro-mundismo e é “assumido” satiricamente nos outros capítulos. O título e a organização em capítulos não estão no texto original. (Tradução: Flautista de Hamelin. Revisão e edição: Humanaesfera .)]

A pilhagem e a guerra continuam a se espalhar pelo mundo. Elas são algo da história passada e presente. Quanto maior o produto material da sociedade, maior a pilhagem; quanto maior o estoque de forças produtivas mais extensiva a destruição.

Não é o propósito deste texto examinar a pilhagem ou a destruição, mas descobrir formas contemporâneas de resistir a elas. Das formas de resistência, apenas duas serão examinadas: uma é a forma que se estabeleceu como o modelo predominante de revolução no século XX, o leninismo e o terceiro-mundismo1, a outra é a resistência que toma a forma de respostas continuamente mutantes para forças produtivas em contínua transformação.

Analisaremos o modelo leninista de revolução diante das condições criadas pelo desenvolvimento das forças produtivas. Seus processos foram até agora ligados a condições caracterizadas pelo baixo desenvolvimento das forças produtivas. Em um nível alto de desenvolvimento de forças produtivas, as respostas à forma social dominante tomam a forma de busca dos indivíduos por realizarem seus poderes autônomos [self-powers], suas capacidades, no nível possibilitado pelo desenvolvimento social. As relações sociais que desempenharam um papel histórico entram em conflito com as possibilidades abertas pelas forças produtivas. Subitamente, aparecem em cena pessoas que se tornam desencantadas com o sistema inteiro, e que estão agora prontas e desejosas de fazer algo a respeito. As possibilidades das forças produtivas deixam de ser tema de orações, e se tornam condições práticas disponíveis desde já em nosso momento histórico.

A busca dos indivíduos por realizarem seus poderes autônomos [self-powers] no nível possibilitado pelas forças produtivas contemporâneas é uma ameaça à estabilidade da ordem social dominante, que tenta extirpar de si própria os elementos rebeldes. Entretanto, as tentativas dos indivíduos de viverem o nível contemporâneo de desenvolvimento das forças produtivas não dá surgimento a atividades consistentes com o leninismo, isto é, com a ideologia da vanguarda revolucionária e a batalha pelo poder do Estado. Ao contrário, diversos movimentos na direção oposta podem ser observados.

As respostas à ordem social foram condicionadas pelos meios disponíveis para o desenvolvimento humano e pela forma das relações sociais dominantes. Nos tempos modernos, os instrumentos materiais, assim como as relações sociais, serviram a uma função social específica: a acumulação do Capital. O período de acumulação do Capital consiste na reprodução expandida das forças produtivas acompanhada de uma constante reprodução de relações sociais. Em um baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas, os meios de sobrevivências são escassos, há pouco excedente e a sociedade é constrangida pela escassez material a dispender sua energia produtiva para assegurar a sobrevivência. A atividade produtiva é trabalho forçado. Ele é garantido por um aparato de segurança cujo nível de desenvolvimento corresponde às possibilidades das forças produtivas. Os produtores criam uma tecnologia industrial que elimina a necessidade material do trabalho forçado enquanto reproduzem as condições sociais do trabalho forçado. As forças produtivas que eliminam as condições materiais de escassez tornam-se instrumentos sociais para a manutenção de escassez. A pobreza deixa de ser uma função da natureza e torna-se uma função das relações sociais.

A acumulação do capital

Diz-se que a força do Império Otomano residia em uma relação social peculiar. As crianças das comunidades atacadas eram seqüestradas por um exército ocupante. As crianças eram levadas, recebiam treinamento militar, e, uma geração depois, retornavam às suas próprias comunidades como o exército ocupante. Um modo similar mas mais refinado caracteriza o processo de acumulação do Capital. Ele toma duas formas distintas, dependendo das duas fontes históricas de acumulação de Capital: comunidades pré-capitalistas e os próprios trabalhadores assalariados do capitalismo.

O Império do Capital ataca as formas pré-capitalistas de atividade produtiva, as economias camponesas, e as transforma em fontes de acumulação primitiva, em colônias externas e internas do capitalismo. Os métodos brutos de coerção dos otomanos são abandonados, não por razões morais, mas porque os métodos refinados do capitalismo se mostram historicamente mais eficientes. A força bruta dá lugar à forma, mais civilizada, de coerção econômica. O seqüestro assume a forma mais humana de alienação, ou venda, do produto excedente das comunidades pré-capitalistas. O retorno das crianças como exército estrangeiro ocupante toma a forma sutil do retorno do excedente alienado na forma de Capital estrangeiro, de administração estrangeira, de exército estrangeiro, e mais uma provisão de educadores e missionários. As comunidades invadidas, perplexas, não conseguem reconhecer seu produto excedente alienado na forma modificada que retorna, incorporada no Capital, na administração e no exército, e até em armas, professores e padres.

A outra forma predominante e propriamente capitalista de acumulação supera a instituição peculiar do Império Otomano como método de voltar a vida da comunidade contra si mesma. Nesse tipo de acumulação do Capital, o seqüestro toma a forma banal e corriqueira de jornada de trabalho capitalista. Durante o curso regular de um dia normal, o que é alienado pelo produtor não é uma criança; é o próprio eu do produtor [producer´s own self], o poder produtivo, a atividade do produtor. Esse poder produtivo, essa atividade vital materializada nos produtos do trabalho, não retorna à comunidade dos produtores na forma de um poder ocupante estrangeiro. Pelo contrário, ela cerca o produtor do nascimento até a morte. É o seu ambiente. É a sua casa, trabalho, diversão e os espaços entre eles. A atividade alienada se volta contra o produtor na forma das instituições dominantes da vida social moderna: o Estado, a produção de mercadorias e a divisão de trabalho. As comunidades ocupadas pelo exército Otomano reproduziam a próxima geração de opressores no ato de reproduzirem a si mesmas. Os trabalhadores assalariados do capitalismo reproduzem o Estado, a produção de mercadorias e a divisão do trabalho no ato de reproduzirem a si mesmos.

As duas diferentes formas de acumulação de capital – a alienação do produto excedente dos produtores pré-capitalistas, e a alienação da atividade dos trabalhadores industriais – levaram a duas situações históricas diferentes para os seres humanos que são as fontes dessa acumulação. Em um caso o produtor foi excluído do nível contemporâneo de humanidade, no outro o produtor é privado dos poderes autônomos [self-powers] humanos.

No caso de uma comunidade pré-capitalista transformada numa fonte de acumulação de Capital, uma colônia, a harmonia reconfortante e estável dos modos tradicionais é destruída, mas não substituída. O colonizado é destituído da humanidade que tinha previamente correspondido a um nível pré-industrial de forças produtivas – uma forma de humanidade que era coerente e significativa pela instituição de ciclos de atividade social em correspondência a ciclos naturais: estações, nascimentos, envelhecimento e mortes. A acumulação do Capital destrói a harmonia estática da comunidade sem tornar a comunidade dinâmica. Ela destrói a necessidade de ciclos de atividade social sem remover a dependência da natureza. Ela destrói uma luta pela sobrevivência harmoniosa, cerimonializada e mitologicamente justificada, mitigada por comemorações tradicionais e festivais familiares, e deixa por sua vez uma luta pela sobrevivência não mitigada, anacrônica, difícil e injustificada. A opressão do colonizado não reside na destruição da forma anterior das relações sociais: essa forma torna-se um anacronismo local no momento em que as forças produtivas humanas fazem a transcendência dela possível. A opressão reside na exclusão do colonizado da humanidade tornada possível pelo desenvolvimento das forças produtivas; a opressão é experimentada na diferença entre o colonizado e a “humanidade” do colonizador. A magnitude da diferença entre o colonizado e o colonizador é determinada pela extensão na qual o colonizado é privado das forças produtivas disponíveis ao colonizador. Em outras palavras, quanto menor o Capital da comunidade colonizada e maior a exclusão das forças produtivas contemporâneas, maior a distância entre a situação do colonizado e a “humanidade” do colonizador.

Por outro lado, no caso dos trabalhadores industriais integralmente ligados as forças produtivas contemporâneas, quanto maior o fundo social de Capital acumulado, a atividade incorporada e estocada em meios de produção, maior o poder da classe social que controla o Capital acumulado, e mais as forças produtivas que confrontam o produtor são propriedade dessa classe. A parte da atividade vital gasta não necessária à sobrevivência do trabalhador, a mais valia, toma a forma de Capital, a forma de uma força material que se volta contra o produtor como o poder de outra classe, como uma força alheia. Assim quanto maior o poder das forças produtivas, o produto da atividade, maior o poder do Capital, o poder da classe que domina, e menor o poder dos produtores sobre os produtos de sua atividade, seus poderes autônomos [self-powers] no ambiente que seu trabalho cria.

A força de trabalho é alienada sob pressão; ela é vendida em troca de um salário que permita sobreviver; sua alienação é uma condição para a sobrevivência. Na forma de Capital, o poder alienado é apropriado por uma classe que, por “possuí-lo”, o personifica. O poder conferido a essa classe pela simples formalidade da “propriedade” é o poder de decidir, e o poder de ordenar ou decretar, tudo que é feito com as forças produtivas que ela personifica. Visto que o que é feito com essas forças produtivas determina a forma do ambiente no qual os seres humanos contemporâneos vivem e a atividade que executam, o poder da classe que personifica o Capital é virtualmente absoluto.

As personificações do poder alienado da sociedade

Os poderes alienados pelos produtores e personificados pelos que mandam são divididos e subdivididos. Poderes específicos são delegados a funções [offices] ou departamentos específicos. Os ocupantes desses cargos/ofícios/funções [offices] são representantes de uma democracia representativa; líderes, mentores ou chefes onde quer que estejam. Tenham eles obtido sua função por eleição, nomeação ou conquista, eles detêm o poder específico delegado a essa função específica; eles personificam um fragmento específico do poder alienado pela sociedade.

Das personificações, incorporações e representantes dos poderes alienados da sociedade, de longe a mais importante é a hierarquia de funções [offices] coletivamente chamada de Estado. O Estado é a personificação do poder da comunidade, o poder alienado dos indivíduos de decidir coletivamente os métodos, meios e propósitos de sua atividade social. A função específica do Estado é usar todos os meios possíveis para garantir que o poder da comunidade permaneça alienado dela.

Uma vez que as forças produtivas da sociedade são alienadas dos produtores, apropriadas por outra classe, e representadas por “pessoas” que ocupam as funções [offices] para as quais o poder é delegado, parece aos produtores que são, não os produtores, mas as personificações que produzem. Isso é uma aparência, uma alucinação, mas é difícil para alguém ver além das alucinações de sua própria época quando se nasce nela. Em uma época anterior, quando foi dito que a França conquistou a Borgonha em um campo, o evento real foi o encontro militar entre dois exércitos recrutados entre as populações da França e da Borgonha, mas essa afirmação descrevia o encontro entre dois indivíduos, a personificação da França e a personificação da Borgonha. Em outras palavras, parece que as capacidades, os poderes, não estão nos indivíduos que o possuem, mas nas personificações.

Essa alucinação não poderia surgir se o poder atribuído à personificação se apoiasse na força bruta ou coerção. Se o poder da personificação consistisse na força bruta, no caso da conquista pela França da Borgonha, a história desse período antigo seria estupenda, pois de forma a conquistar o Duque, o Rei deveria primeiro ter conquistado a França – um único indivíduo contra uma multidão de camponeses. Se este fosse o caso, a conquista dos camponeses pelo Rei seria tão mais espetacular que a conquista do Duque que este último evento não seria sequer registrado na história.

Mas nesse caso o Rei deveria ter sido descrito em termos de seus próprios poderes autônomos [self-powers], não importa quão grande estes fossem, e não como uma personificação, como um Rei, como França.

O poder da personificação reside precisamente nessa alucinação, e não no indivíduo que ocupa a função [office]. Certas palavras pronunciadas por um indivíduo específico não são uma declaração política ou declaração de guerra a menos que o indivíduo seja visto como a autoridade que tenha o direito de ditar uma política ou declarar guerra; as palavras do indivíduo não podem ter conseqüências a menos que outros seres humanos se submetam a essa autoridade e considerem seu dever obedecer. A personificação é apta a deter o poder delegado a uma função específica apenas quando a legitimidade da função é aceita. A legitimidade não é uma propriedade possuída pela função ou por um ocupante específico da função. A legitimidade é uma propriedade conferida à função e à sua pessoa por todos os outros indivíduos.

Embora muitos comandos de uma personificação sejam forçados por meios violentos, a garantia de legitimidade não é resultado de coerção. Se o poder da personificação residisse apenas na violência, a personificação não precisaria ser legitimada para executar suas ordens. Conseqüentemente, se o poder físico de um indivíduo fosse grande o bastante para capacitar o indivíduo para ditar comandos, o indivíduo não precisaria personificar poderes sociais alienados. A violência acompanha o poder exercido por uma personificação, mas não torna essa personificação legítima. A função e sua pessoa tornam-se legítimas apenas quando a autoridade da função e de seus ocupantes são internalizadas por todos os outros indivíduos. Ao aceitar a legitimidade de uma função para exercer um poder social específico, os indivíduos abdicam de seu próprio poder sobre essa parte da vida social. Assim que os indivíduos abdicam desse poder, a função para a qual o poder é abdicado se torna uma “autoridade” que tem o “direito” de deter tal poder; um indivíduo que não abdica do poder torna-se um “criminoso” que não tem o “direito” de exercê-lo; todos os outros são obedientes, “bons” e “cidadãos dentro da lei” na extensão em que não exercem nenhum poder sobre essa parte da atividade social. A abdicação não é um evento histórico que ocorreu num tempo específico do passado; ela é um evento cotidiano que toma forma toda vez que as pessoas se submetem à autoridade.

Ao transformar o poder produtivo da sociedade em uma mercadoria alienável, em atividade vendida por um salário, o capitalismo estendeu a personificação do poder alienado a todos os campos da vida social. Tão logo um indivíduo consente em vender energia produtiva por uma dada soma de dinheiro, essa soma de dinheiro se torna “equivalente” à energia produtiva, o dinheiro possui a potência da energia produtiva. O dinheiro se torna o representante do poder produtivo, dos instrumentos de produção e dos produtos. Assim que todos os indivíduos consentem em vender sua própria energia produtiva, o dinheiro se torna o representante universal do poder produtivo da sociedade. É nesse ponto que as forças produtivas da sociedade se tornam Capital, que é apenas outro nome para o poder das forças produtivas representadas por uma soma de dinheiro. Tão logo essas forças produtivas assumem a forma de Capital, os possuidores de grandes somas de dinheiro são Capitalistas, personificações do poder produtivo representado por sua soma de dinheiro, personificações das forças produtivas da sociedade. É a venda do poder produtivo que torna o dinheiro o agente histórico universal. Nesse ponto, cidades são criadas e destruídas, ambientes são transformados, a história é feita, pelo gasto de somas de dinheiro. Nesse ponto, os indivíduos, ou mesmo comunidades, abdicaram de seu poder de construir ambientes que os satisfaçam. Apenas os investidores, personificações de toda construção social, cujo poder reside na potência criativa de seu dinheiro, são capazes a construir ambientes.

Ao conceder o poder da comunidade ao Estado e seu poder produtivo ao Capital, os seres humanos alienam virtualmente todos os seus poderes autônomos [self-powers]. Conseqüentemente, ao internalizar o poder das personificações conferindo a elas a legitimidade da Autoridade, os seres humanos simultaneamente internalizam sua própria impotência. Cada ato que ocorre na esfera de influência de uma personificação está fora de alcance para um indivíduo. Os indivíduos não apenas veem a ação de seus próprios poderes sobre o ambiente como ilegítima, moralmente errada; eles se sentem inaptos para exercer tais poderes: as personificações são capazes de fazer tudo; o indivíduo é incapaz de fazer qualquer coisa.

Isso em grande parte é de conhecimento comum. Entretanto, uma peculiaridade da vida social moderna é que o exato oposto também é de conhecimento comum. Em outras palavras, é óbvio para qualquer um que esses indivíduos totalmente impotentes são os mesmos indivíduos que fazem a construção, transporte, operação, manutenção, pensamento. Sob o domínio dos poderes personificados, os indivíduos simultaneamente se engajam e não se engajam na atividade produtiva, ou do mesmo modo, são os indivíduos produtivos que fazem a produção e ao mesmo tempo não são os indivíduos produtivos que fazem a produção. Esse paradoxo é a grande maravilha do mundo Ocidental; é a contribuição singular da Europa à cultura mundial. O paradoxo consiste no fato de que, tão logo os indivíduos abdicam de seus poderes autônomos [self-powers] para personificações destes poderes, os indivíduos se tornam vítimas das personificações; eles se tornam instrumentos, ou meios, pelos quais os poderes da personificação são executados. Assim é possível para os mesmos indivíduos envenenar o ar durante o dia e respirar o ar envenenado ao descansar a noite, uma vez que não são estes indivíduos que envenenam o ar - é a General Motors. Assim é possível para os mesmos indivíduos produzir armas em tempos de paz e massacrar uns aos outros com as armas em tempos de guerra, uma vez que não são esses indivíduos que produzem as armas ou combatem nas guerras; as armas são produzidas pela General Dynamics e a guerra é combatida pelo General Eisenhower, o Marechal de Campo Rommel e o Marechal Stalin.

Entretanto, a criação da impotência universal não é a única conquista histórica do capitalismo. O outro lado da figura é uma democracia verdadeiramente representativa na qual cada indivíduo é apto para participar em ao menos um fragmento do poder personificado da sociedade. Essa democracia é tornada possível por duas características dos representantes universais das forças produtivas da sociedade: ela é líquida, e assim pode correr de mão em mão independentemente da posição ou função social, e ela é infinitamente divisível, permitindo a todos tê-la. Assim enquanto todos são privados de poderes autônomos [self-powers] sobre o ambiente social, ninguém é excluído de uma partilha dos poderes personificados.

Esse não é o caso dos poderes de uma função. Por exemplo, um “bom eletricista” é aquele que faz nem mais nem menos do que é prescrito à função, ou técnica, dos “eletricistas”. O propósito de um “bom eletricista” não é sob qualquer circunstância o resultado singular de um encontro particular de um indivíduo específico com certos instrumentos. O “serviço” é o resultado padrão esperado dessa função. Qualquer outro “bom eletricista” deverá efetuar exatamente o mesmo resultado. Em outras palavras, os poderes residem na função, e o indivíduo é meramente um instrumento mais ou menos eficiente da função. Consequentemente, a medida que o ser humano se torna uno com uma função, identifica seus próprios poderes com os poderes da função, ao ponto de os seres humanos se tornarem uma personificação de certos poderes sociais e negarem a si mesmos ou si mesmas como seres humanos. Um indivíduo que se torna o que “nós os eletricistas”, “nós os doutores” ou “nós os professores” são, se torna uma coisa que responde de um modo padrão específico, que executa sua rotina especial esperada, sempre que ela é ativada pelo dinheiro. Essa internalização dos poderes personificados é o cimento que mantém coesas as relações sociais.

A ambiguidade da atividade produtiva moderna

No curso da acumulação do Capital, houve um interesse recorrente pela produção de robôs, e de forma notável foram projetados e produzidos protótipos bem sucedidos. Um robô é uma máquina cujo comportamento é similar ao de um ser humano que internaliza a divisão de trabalho. Tal como seres humanos elevados a uma função profissional ou especializada, o robô possui uma virtude específica ou potência, um campo especial no qual seus poderes são desenvolvidos ao nível requerido para a tarefa à qual é projetado. Como o especialista, o robô é apto para executar perfeitamente os poderes de sua função específica. O robô é capaz de avaliar se está em uma ou outra situação de um dado conjunto de situações, é apto para escolher uma abordagem adequada a uma dada situação, e a se corrigir conforme os erros. Se o robô tem a habilidade de julgar, escolher, e se corrigir, essas habilidades são partes de instruções programas nele quando ele é produzido. Em outras palavras, esses poderes não são do próprio robô, mas do programador. O robô não tem poderes autônomos [self-powers], ele não tem um “eu” [“self”]. Em qualquer situação dada o comportamento do robô toma a forma de um dentre diversos comportamentos pré-determinados, e portanto esperados. Consequentemente, o robô é um componente ideal para uma divisão eficiente do trabalho. Ele é o modelo de um cidadão ideal em uma democracia representativa. Se ele não possuísse certas limitações problemáticas, o robô teria indubitavelmente substituído o ser humano como o Novo Homem da sociedade industrial.

Infelizmente para a sociedade dos poderes personificados, as limitações dos robôs não são meramente problemas técnicos temporários; elas são partes da própria natureza do robô, por assim dizer. Já foi mostrado que a atividade industrial produtiva estritamente moderna é caracterizada pelo fato de que os seres humanos são simultaneamente engajados e não enganados nela. Com robôs, essa ambigüidade desapareceria: seres humanos não seriam engajados na atividade produtiva. Entretanto, o desaparecimento da ambigüidade poderia levar ao desaparecimento da própria sociedade industrial, dado que o sistema de poderes representados consiste precisamente nessa ambigüidade. A vida social em uma época industrial não consiste em uma sequência prevista de situações esperadas, mas uma sequência inesperada de situações não imaginadas. É precisamente na habilidade humana de inventar abordagens originais para problemas imprevistos que se confia para fazer o sistema funcionar eficiente e previsivelmente. Isso pode ser ilustrado com o exemplo de um engarrafamento no distrito de armazéns comerciais de Manhattan. Nas tardes durante a semana, há horas quando uma grande área de ruas estreitas se torna completamente bloqueada com caminhões, ônibus, taxis e carros separados entre si uma ou duas polegadas de distância em uma rede onde todas as saídas estão interrompidas. O fluxo normal de trabalhadores e mercadorias é paralisado por completo. Os motoristas são incapazes de seguir para seus destinos ou voltar a seus locais de origem: eles estão trancados em um local. Nas circunstâncias presentes, a engenhosidade combinada dos motoristas humanos é necessária para inventar uma solução para esse beco sem saída inesperado, visto que cada congestionamento de tráfego é historicamente único. Entretanto, no caso de motoristas automatizados, os carros, ônibus, taxis e carros teriam que ser carregados por helicópteros sobre Manhattan, um evento que seria apenas seguido por um engarrafamento ainda mais espetacular nas pontes quando os autômatos tentassem outra vez seguir suas rotas pré-determinadas. Se os carros automáticos forem programados para ativar outro conjunto de automações no caso de engarrafamentos, por exemplo um guarda de trânsito automatizado, o ponto de estrangulamento poderia atingir proporções inimagináveis sob as circunstâncias presentes; isso poderia levar a um completo colapso de toda a atividade industrial.

Assim, espera-se que os indivíduos que estão em contato diário com os elementos dinâmicos da sociedade, as forças produtivas em contínua mudança, sejam automáticos e imaginativos ao mesmo tempo. Por exemplo, espera-se que os motoristas citados anteriormente exerçam nem mais nem menos do que os poderes de sua função específica: o transporte de certos bens para um destino pré-determinado. Entretanto, precisamente enquanto exercem os poderes de sua função, precisamente enquanto fazem o que “nós os motoristas” sempre fizeram, espera-se que esses indivíduos também exerçam seus próprios poderes autônomos [self-powers] para fazer o que “nós os motoristas” nunca fizeram antes. Nas circunstâncias presentes, ou seja, quando os motoristas de caminhões são também seres humanos, não seria normal, mesmo para programadores de transporte, esperar que um motorista e um caminhão carregado desaparecessem apenas para serem descobertos meses depois presos em um novo túnel construído com um pé-direito baixo. Não se espera de um “bom motorista” que ele tenha imaginação enquanto exerce os poderes de sua função, uma imaginação que poderia explorar os destinos potenciais e os usos dos produtos no caminhão. Entretanto é esperado que o mesmo motorista tenha imaginação enquanto exerce esses poderes de modo a lidar com problemas não programados e, portanto, imprevistos, com pontos de estrangulamento e travamentos. Essa dualidade, essa negação apenas parcial dos poderes autônomos [self-powers] do trabalhador, é claro, é a fonte da turbulência contínua em um sistema que de outro modo seria estável, fato que explica o interesse recorrente por robôs. O fato de que os poderes humanos – desejo, engenhosidade, impulso, capricho – permaneçam necessários em um sistema que de outro modo seria eficiente, reintroduz a cada dia e a cada instante a possibilidade de que as mercadorias não cheguem aos destinos pré-determinados.

Devido à proximidade dos meios de produção, seu contato cotidiano com as forças produtivas dinâmicas da sociedade, os produtores de Capital, do poder personificado da sociedade, não são de fato os protótipos ideais da sociedade moderna. Esses indivíduos não podem internalizar perfeitamente os poderes de suas funções dado que, no exercício diário desses poderes, eles são forçados a transcendê-las.

As perfeitas incorporações do comportamento dominante

A internalização dos poderes personificados é melhor exibida em Indivíduos cuja atividade cotidiana os separa fisicamente dos meios sociais de produção, aqueles que não possuem contato diário com as forças produtivas da sociedade. Esta generalização provavelmente se aplica a muitas sociedades. Por exemplo, em uma sociedade feudal, não são os artesãos que ilustram um tipo estável e completo de ser humano feudal. No contato cotidiano com as forças produtivas em mutação, os artesãos mudam suas abordagens, e consequentemente o seu comportamento, seu “tipo”. São os membros do establishment ideológico feudal, os clérigos, os intelectuais do período, que são completamente “tipos” feudais que incorporam perfeitamente o comportamento da época.

Na sociedade moderna, os tipos completos, perfeitas incorporações do comportamento dominante, podem ser encontrados nas atividades que são fisicamente separadas das forças produtivas da sociedade, que são mantidas em quarentenas geográficas: a atividade de artistas, de “profissionais” independentes, organizadores políticos full-time, e especialmente as atividades dos membros de hierarquias políticas e educacionais. É nesses indivíduos que a internalização dos poderes personificados toma a forma mais profunda. Quando um indivíduo “se torna” um encanador ou um torneiro mecânico, isto é, quando ele internaliza os poderes da função de encanadores e de torneiros mecânicos, esse indivíduo internaliza as formas de comportamento características da função, mas não os pensamentos e os sentimentos, não o inteiro “eu” [self], por assim dizer, da função. Presume-se que os pensamentos e sentimentos, o eu [self], permaneçam próprios do indivíduo, e são até mesmo necessários durante o exercício de sua função, como foi mostrado anteriormente. Consequentemente, o que “nós os encanadores sentimos” ou o que “nós os torneiros mecânicos sentimos” não pode ter autoridade, e é portanto irrelevante, porque pensamentos e sentimentos não estão entre os poderes dessas funções. Em outras palavras, “nós os encanadores” instalamos canos da maneira pré-determinada pela função de encanadores, mas “nós os encanadores” não podemos pensar ou sentir da maneira pré-determinada pela função de encanadores.

A limitação dos poderes de uma função a formas de comportamento externo não se aplica às funções do establishment ideológico. Quando um indivíduo internaliza os poderes de uma função ideológica, o eu [self] inteiro do indivíduo é absorvido pela função. Por exemplo, o que “nós os economistas pensamos” é considerado relevante, imbuído de autoridade, licenciado e certificado pela função dos economistas. Neste domínio da atividade social, os poderes da função se estendem aos pensamentos e sentimentos. Assim, “nós os sociólogos pensamos”, “nós os advogados pensamos”, “nós os situacionistas pensamos” os pensamentos da função. Assim, “nós os professores sentimos”, e “nós os artistas experimentamos” as emoções oficiais socialmente delegadas junto a essas funções. É isso que faz do intelectual um tipo completo. Os poderes autônomos [self-powers] de tais indivíduos são sinônimos dos poderes da função inteira, e assim um dado indivíduo é em todos os aspectos idêntico a todos os outros indivíduos que personificam os poderes da respectiva função.

Embora a imersão total de um indivíduo em uma função seja um transtorno mental sério, como iremos mostrar depois, ela é frequentemente experimentada como um privilégio social, como uma forma de bem-estar. Esse não é o caso de agir docilmente de modo a ser exaltado; não é o caso de um prazer adiado, de sofrimentos presentes para a busca de futura exaltação, de auto-alheiamento como meio de reapropriação posterior de poderes autônomos [self-powers]. Ao contrário, essa experiência subjetiva de bem-estar, essa “auto-satisfação”, é completamente gratuita; ela não tem motivação humana. A experiência de ser privilegiado é ela própria implantada, não no indivíduo, mas na função. A “auto-satisfação” é característica de dada função.

Esse fenômeno de uma total negação dos poderes autônomos [self-powers] acompanhada por uma auto-satisfação oficial é extremamente disseminado entre os membros do establishment acadêmico, anteriormente conhecidos como clérigos [clerics], depois como docentes [clerks], que na França são conhecidos como funcionários do Estado, e nos Estados Unidos conhecidos como professores universitários. Um professor universitário é um funcionário cuja função específica é professar os pensamentos de uma dada profissão. No passado, em um nível baixo de personificação de poderes sociais, dizia-se que um funcionário similar professava os pensamentos de uma dada escola, ou aprendia as concepções de um dado campo de conhecimento; isso deixava em aberto a possibilidade de que, em outro dia, o mesmo indivíduo pudesse professar os pensamentos de outra escola, ou aprender as concepções de outro campo de conhecimento. Entretanto, no nível presente de personificação, o indivíduo é, ou incorpora, uma dada escola de pensamento ou campo de conhecimento. Por exemplo, um dado funcionário é um sociólogo, economista, antropólogo, físico. Consequentemente, isso é tudo que o indivíduo é, exatamente do mesmo modo como uma cadeira é uma cadeira. Um economista não pode se tornar um antropólogo sem cessar de ser o que ele foi, assim como uma cadeira não pode se tornar uma mesa sem cessar de ser uma cadeira, sem primeiro ser decomposta em madeiras e pregos.

Os indivíduos que ocupam as funções do establishment acadêmico personificam coletivamente a vida espiritual inteira da sociedade industrial moderna. O tipo de comportamento que se pode esperar desses indivíduos foi ilustrado por um experimento executado numa importante universidade norte-americana. Os “sujeitos” do experimento eram intelectuais modernos. O experimento continha uma amostra aleatória de pessoas escolhidas entre aqueles que se consideram, e são, físicos militares, filósofos, matemáticos especializados em guerra nuclear, musicólogos, especialistas em psicologia social de campos de concentração, historiadores, teoristas dos preços, e também aspirantes a essas funções. Ao “sujeito” do experimento, o professor universitário, é mostrado um quarto equipado com uma cadeira elétrica. É dito a ele que o “aluno” vai ser amarrado nessa cadeira durante o experimento. Também é dito a ele que o experimento trata da “teoria do aprendizado”. Nenhuma dessas afirmações são de fato verdadeiras; o propósito delas é estimular o comportamento que o professor universitário exibiria em uma situação real. De fato, o experimento é meramente um jogo, por assim dizer, e não um negócio sério do governo, controle de manifestantes ou guerra. Portanto, nenhum aluno está realmente amarrado à cadeira. Além disso, o experimento não é sobre “teoria do aprendizado” mas sobre o comportamento dos “sujeitos” do experimento. O professor universitário é então levado para outro quarto, de onde ele dará um “teste” ao “aluno”. Ele lê a questão em um microfone e ouve a resposta do “aluno” no alto-falante. Em frente ao professor está um painel de botões; rótulos identificam o total de voltagem administrado ao “aluno” por cada botão. Esse painel mostra voltagens de até altíssimos 450 volts, e os botões correspondentes aos níveis mais elevados são marcados como “cautela, dor severa”. Toda vez que o professor ouve uma resposta errada, ele aperta um botão correspondente a um nível mais alto de voltagem que “passa através do aluno”. A medida que a voltagem aumenta, o “aluno” implora e protesta: “Deixe-me sair. Eu tenho problemas cardíacos...”. O professor ouve o alto-falante, mas espera pelas respostas erradas, e continua elevando a voltagem.

Seria admirável pensar o que ocorreria ao planeta se as pessoas que Platão chamava Reis-Filósofos, os membros mais conscientes da sociedade, tivessem o poder de fazer as decisões finais. Pode-se perguntar que futuro humanidade teria se ela dependesse de os modernos Reis-Filósofos, de dez-a-trinta-mil homens, intelectuais cultos, apertarem ou não o último botão talvez como parte de um “programa de pacificação” ou como parte de um experimento de “teoria do aprendizado”. No experimento descrito acima, 63% dos professores, dois terços dos intelectuais, apertaram o último botão.

É notório que os “sujeitos” do experimento são de fato objetos em todos os aspectos exceto, talvez, na aparência. A alienação dos poderes humanos toma a forma mais profunda entre aqueles representantes da vida espiritual moderna. A personificação de uma função intelectual, de um departamento do conhecimento, possui uma virtude específica ou potência, um campo especial no qual os poderes são desenvolvidos ao nível requerido para a tarefa à qual são designados. Eles são aptos para articular perfeitamente os pensamentos de sua função específica. Eles são aptos a avaliar se encontram uma ou outra seqüência de um dado conjunto de problemas, aptos para escolher a solução mais adequada para um problema dado, e a se corrigirem caso errem. Porém, quando eles avaliam, escolhem ou se corrigem, eles não estão exercendo os seus próprios poderes, mas os poderes de sua função: suas formas de avaliação, escolha e autocorreção são partes integrais de cada programa para o qual eles foram instruídos. Os poderes de um ser humano vivo são precisamente o que lhes falta. Em face das forças produtivas sociais, eles esperam por instruções. Os produtos do trabalho humano são um mundo alheio a eles, e consequentemente falta-lhes a imaginação humana e a vontade de se apropriar dessas forças como instrumentos de expressão de si. Em face de um ser humano que além do mais protesta e suplica com seu “eu humano mais profundo” [“innermost human self"], seu “núcleo moral”, eles se revelam um objeto inanimado que não possui nenhum senso de comunidade com os seres humanos, uma máquina que falta completamente os rudimentos de solidariedade com a espécie sem a qual o ser humano não poderia ter sobrevivido até os dias atuais.

Os degraus da hierarquia

As personificações do poder social parecem animar o mundo. Única prescrita, a atividade oficial é experimentada como atividade real. Os projetos não oficiais de um ser humano parecem ocorrer num vácuo social, desligados de toda a vida real da humanidade. Eles são passatempos, hobbies, perdas de tempo; são experimentados como intervalos de inatividade vazios. O poder alienado da comunidade – o Estado, o governo – é experimentado como a única comunidade real. As forças produtivas alienadas – o Capital, o dinheiro – são experimentadas como os únicos agentes produtivos. O poder personificado é internalizado como a única forma de poder humano. Em outras palavras, gerações de seres humanos em todas as partes do globo são convencidas de que os cargos estatais [State offices] travam guerras, de que o dinheiro trabalha, que objetos inanimados animam a atividade social. Sem ajuda de alucinógenos, incontáveis gerações de seres humanos experimentam uma alucinação. Além disso, não se sabe se esses indivíduos são mais inclinados à alucinações do que as gerações anteriores. A alucinação, a impressão de que o poder personificado é a única forma de poder humano, não pode ser facilmente explicada em termos de psicologia individual dessas gerações de seres humanos. Porém, a alucinação pode ser explicada em termos de relações sociais nas quais esses indivíduos nasceram. Embora o dinheiro, seja papel ou moeda, nunca tenha sido visto construindo, produzindo, reparando, falando ou se entretendo, é de fato através da mediação do dinheiro que os produtores se ligam uns aos outros e às forças produtivas. Embora os cargos estatais nunca tenham sido vistos de fato lutando em guerras ou construindo estradas, é apenas através da mediação de um cargo que as guerras são combatidas e as estradas são construídas. A impressão de que representantes, de que as personificações dos poderes humanos realmente exercem atividades sociais é uma alucinação. Entretanto, não é apenas uma alucinação, mas um fato na vida moderna que os indivíduos se relacionam uns com os outros e com o ambiente material somente através da mediação de poderes personificados. Embora o dinheiro e os cargos não possuam poderes sociais, eles são aceitos universalmente como equivalentes ou substitutos para poderes sociais. Dinheiro não é força de trabalho e não são forças produtivas, mas é aceito como seus equivalentes. O Estado não é a comunidade dos indivíduos que ele governa, mas é aceito como o equivalente da comunidade. Embora nem o dinheiro nem as funções sociais [social offices] exerçam atividades sociais, as atividades sociais só podem ocorrer através deles. Visto que os indivíduos são sociais, isto é, seres humanos, apenas na extensão em que tomam parte na atividade social, e uma vez que eles podem se engajar na atividade social apenas executando as formas de poder social representado pelo dinheiro e exercido por funções, os indivíduos se tornam seres sociais alienando seus poderes autônomos [self-powers] e exercendo os poderes humanos alienados representados pelo dinheiro e executado pelas funções. Como resultado, os indivíduos são seres sociais, humanos, somente de uma forma invertida, como detentores dos poderes personificados.

Não é apenas a existência social do indivíduo – ser no mundo alguém que não é um inútil nem um ninguém – mas também a importância social do indivíduo – quem ou o que ele é no mundo – que são determinadas pelo poder personificado que o indivíduo exerce. A importância social desigual dos indivíduos é um resultado direto da democracia representativa. Em termos de habilidade física e mental, um indivíduo pode ser duas vezes mais poderoso do que outro, talvez até três vezes mais poderoso, mas não pode ser um milhão de vezes mais poderoso. Essa possibilidade imaginária se torna realidade apenas quando o dinheiro se torna um representante dos poderes produtivos humanos e quando o Estado substitui a comunidade. Embora seja fisicamente impossível para um indivíduo exercer os poderes de milhões, é precisamente isso que é possibilitado pelo poder representado. Quando o dinheiro é aceito como equivalente das forças produtivas dos indivíduos, uns poucos possuidores de grandes somas de dinheiro são aptos a investir, ou exercer, o poder produtivo de milhões de pessoas. Quando o Estado é aceito como o equivalente da comunidade, um único indivíduo pode falar e decidir por uma comunidade inteira. Embora os poderes autônomos [self-powers] dos indivíduos não possam ser concentrados em um único indivíduo, os poderes alienados podem. Quando o poder alienado é concentrado no Capital e no Estado, como incorporações, representantes desses poderes, não apenas se torna possível para um indivíduo ser milhões de vezes mais poderosos do que outros, mas também torna possível que cada indivíduo seja mais ou menos importante do que outro. A assim chamada desigualdade física e mental dos seres humanos é pequena se comparada com a desigualdade social que resulta quando seus poderes alienados desiguais são redistribuídos entre eles em quantidades variadas de unidades socialmente equivalentes. A democracia de poderes representativos é arranjada hierarquicamente. O fragmento de poder personificado delegado a certo indivíduo é menor do que o fragmento delegado a indivíduos de uma hierarquia superior, e maior do que o fragmento de poder daqueles mais abaixo na hierarquia. Quanto mais alguém tem, mais representa.

Disso não se segue que quanto mais alguém representa mais esse alguém é. Entretanto, essa é outra ilusão criada pelo fato de que os indivíduos se relacionam através da mediação de diferentes poderes personificados. Tal como as funções do Capital e do Estado parecem exercer atividades que são de fato exercidas por seres humanos, assim também os indivíduos que possuem Capital ou que ocupam altos cargos estatais parecem ser dotados de capacidades e poderes especiais, em que eles são mais do que outros indivíduos. Essa alucinação não é mais representada universalmente, em grande parte porque os capitalistas, os beneficiários modernos dessa ilusão, a destroçaram irreparavelmente durante sua longa luta contra as formas feudais de poder personificado. Quando foi descoberto que a magnitude do poder do monarca dependia diretamente da atividade produtiva daqueles que ele governava, e não de dons pessoais inatos dados ao monarca por São Pedro, o monarca mediano, embora pudesse se representar grandioso, passou a ser percebido como sendo bem pequeno: talvez como um jogador de golfe amador... Entretanto, os capitalistas maliciosamente atiraram poeira nos olhos das pessoas: enquanto destroçavam as formas feudais de poder personificado, eles sub-repticiamente instalaram a sua própria. Enquanto a poeira lentamente baixava se tornou evidente que a nova forma ia mais fundo do que a antiga: para as profundezas mais íntimas do indivíduo, para as regiões mais distantes do mundo. O poder representado pelo Capital de um indivíduo reflete os poderes autônomos [self-powers] tão pouco quanto os títulos de um nobre refletem suas habilidades pessoais, mas o capitalista, por pequeno que seja, representa não apenas o poder da comunidade, mas também as forças produtivas, a energia viva criativa, de cada indivíduo dentro de seu feudo.

Os capitalistas foram grandes críticos do poder personificado quando esse poder era baseado em títulos familiares e no direito divino. Eles foram inimigos do Estado quando este era feudal. Eles foram os jornalistas investigativos da pilhagem e do dispêndio social que consolidava o poder personificado dos senhores feudais. Os primeiros Capitalistas estavam numa posição de cuja perspectiva eles podiam apontar sempre para a lacuna entre o desenvolvimento das forças produtivas e a forma das relações sociais. Ao contrário de alguém nascido aristocrata, cujo poder dependia da pilhagem social e do dispêndio cerimonial, o poder dos primeiros capitalistas dependia das forças produtivas, e o crescimento do seu poder dependia, não da pilhagem e do dispêndio, mas do avanço do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. O capitalismo lançou com desprezo o cadáver de seu predecessor em um túmulo histórico, que ele designou como uma idade das trevas, uma pré-história da humanidade. Atenas, deusa da razão, enfim triunfou; o iluminismo e a claridade foram revividos depois de um longo sono e uma amnésia inexplicável. Nunca mais a pilhagem e a guerra deveriam ser meios de poder social; nunca mais a magnanimidade deveria coincidir com o dispêndio das forças produtivas da sociedade. A nova relação social, o Capital, não poderia levar a um fosso entre as forças produtivas e as relações de produção, dado que o Capital são as próprias forças produtivas da sociedade. Porém, apesar disso tudo, o capitalismo não escapou da sorte de seus predecessores. O Capital, desde o início, também foi uma forma de poder personificado, o poder do dinheiro – um fato que possibilitou aos primeiros capitalistas apoiar os poderes feudais moribundos durante o breve período histórico anterior à sua derrocada final. Como uma das formas de poder personificado – como personificação das forças produtivas alienadas dos criadores das forças produtivas – o Capital gozou de anos de progresso, de fato vários séculos de desenvolvimento glorioso inabalável, enquanto voltava inflexivelmente ao próprio ponto em que seu predecessor tinha morrido sem luto. Apesar de sua inventividade juvenil, de suas descobertas e ambições, ele não podia evitar de parecer em sua decrepitude com o seu predecessor. O Capital não sepultou seu predecessor. O capitalismo descobriu a necessidade de reviver os fantasmas de seu arqui-inimigo, de reconstituir o poder personificado da comunidade, o Estado, e finalmente multiplicar esse poder para além de todos os sonhos feudais, enriquecendo-o com as forças produtivas personificadas pelo Capital.

As relações sociais do capitalismo se tornam tão desconectadas das forças produtivas quanto todas as formas anteriores de poder social personificado. É verdade que a magnitude do Capital social depende do nível de desenvolvimento das forças produtivas, mas esse fato sozinho não elimina a semelhança familiar do capitalismo com ordens sociais como a do faraó egípcio ou a do imperador chinês. A magnitude do poder social personificado pelo faraó egípcio também dependia do nível de desenvolvimento das forças produtivas. A principal diferença moderna é que o faraó não sabia que a magnitude dos tributos que eram pagos ao palácio, ao faraó e aos coletores de tributos dependiam do nível de desenvolvimento da agricultura egípcia, enquanto o capitalismo comemora sua conexão com as forças produtivas, com museus que preservam souvenires da revolução industrial. O que os museus comemoram é a Era de Ouro. A magnitude do Capital social, ou seja, sua dependência do desenvolvimento das forças produtivas, começou a perder sua importância central no momento em que o Capital alcança absoluta hegemonia sobre todas as atividades sociais. A medida que o capitalismo envelhece, sua história se torna cada vez menos a história de descobertas tecnológicas engendradas por investidores, e mais a história familiar de príncipes e reis, pretendentes e impostores. Numa época em que o Estado televisiona sua viagem à lua, as forças produtivas da sociedade mais uma vez se tornaram instrumentos para a construção de pirâmides.

Infelizmente para o capitalismo, as forças produtivas não se estagnaram quando chegaram na idade média. O desenvolvimento de forças produtivas que projetou o Capital na história mundial reteve sua dinâmica. Enquanto os que exercem o poder produtivo alienado se tornaram cada vez mais desconectados das forças produtivas, enquanto se submergem cada vez mais em “eventos” dentro da hierarquia do poder personificado, eles não percebem que estão sendo enganados. Sua própria atividade central, a acumulação do Capital, leva a um imprevisível e inesperado resultado: ela desvincula metade da população da atividade produtiva, e o número se mantém crescendo. As dispensas em massas da atividade produtiva são acompanhadas de uma proliferação de funções que exercem o poder social alienado. Os dispensados são absorvidos pelas funções [offices] tão rápido quanto possível. O resultado é um fenômeno histórico único. As personificações das forças produtivas alienadas superam em número os produtores que as alienam. Outro resultado histórico singular do desenvolvimento continuado das forças produtivas é que a importância social relativa dos produtores e daqueles dispensados da produção, antigamente chamados de classe ociosa, se inverte. Por trás de aparências que se tornam cada vez mais difíceis de manter, o poder real de um trabalhador produtivo é significativamente maior do que o poder personificado de uma função média. Consequentemente, cada aumento no poder das forças produtivas aumenta o poder dos produtores assim como o degrau mais baixo da hierarquia de funções, aprofundando a queda do poder relativo de cada função.

O infantilismo daqueles que exercem os poderes personificados

O fosso crescente entre as forças produtivas da sociedade e a forma das relações sociais é acompanhada por um crescimento de graves distúrbios mentais entre aqueles que exercem os poderes personificados, especialmente nas funções do establishment ideológico. Extremamente articulados, altamente educados e muito cultos, eles se envolvem cada vez mais em atividades que, se fossem realizadas por um trabalhador, levariam à internação num hospício pelo resto de suas vidas, com aprovação universal. É difícil encontrar camponeses ou trabalhadores que gastem anos inventando meios de descarrilhar trens, que desenvolvem plásticos que queimam em contato com a pele humana, que confeccionam venenos para o reservatório de água de uma cidade, que projetam campos de concentração para pessoas consideradas ameaças à segurança nacional, que devotam suas vidas a desenvolver germes que podem aniquilar colheitas de um ano inteiro. Os oficiais de Estado consideram um homem trabalhador demente se ele atira em seu capataz. Não é entre os trabalhadores, mas entre químicos e físicos, entre sociólogos e economistas, que os campos de concentração são projetados, que as geleias plásticas que queimam são inventadas, que os venenos e os germes são desenvolvidos, que os massacres em massa são pacientemente calculados. Essas pessoas não são consideradas dementes; cada uma delas é vista como um especialista em sua área. Elas não são detidas em asilos psiquiátricos; elas são abrigadas em cada companhia nas cidades que são construídas pelos poderes alienados dos produtores, mas que são removidas geograficamente dos centros de produção. Elas estão entre os membros mais bem abrigados, alimentados e entretidos da sociedade moderna. Porém, seu comportamento exibe uma completa dissociação entre seus poderes aparentemente humanos de percepção e as conseqüências desumanas de suas ações. Como uma criança de um ano que explode uma casa ao ligar o gás sem acender o fogão, esses aparentes adultos continuam a gargalhar e brincar, permanecendo completamente inocentes sobre seus próprios atos. A inocência infantil, a ingenuidade em face de instrumentos produtivos combinados com uma meticulosa racionalidade e uma maquinação calculada quando o mesmo indivíduo opera esses mesmos instrumentos por controle remoto – em resumo, o distúrbio mental desses indivíduos – é uma conseqüência direta do distanciamento da força produtiva personificada do processo em que ela se origina. Um antigo soldado de infantaria estava perfeitamente ciente da consequência humana de enfiar uma lança em outro ser humano; um técnico que aperta um botão que libera uma bomba pode imaginar a significância de seu ato apenas se a própria cidade em que vive for aniquilada pela bomba; um professor da universidade de Michigan de maneiras moderadas que calmamente define os inimigos da segurança internacional, que devota sua vida ao desenvolvimento campos de concentração modelo, que desinteressada e objetivamente explora as possibilidades de geleias queimarem a carne humana – esse professor, diferentemente do soldado de infantaria ou do técnico, está meramente teorizando, experimentando com frascos, calculando curvaturas nas linhas de um gráfico.

Os distúrbios mentais que tomam raízes entre os que exercem o poder social personificado são além disso agravados pela falta de solidariedade com a espécie humana que acompanha a internalização dos comportamentos, pensamentos e sentimentos da função. Os funcionários [officers] do establishment ideológico se tornam cada vez mais máquinas de pensar sem eu [self-less], os robôs que foram uma vez pensados como possíveis trabalhadores produtivos. Mas os funcionários ideológicos não são tão eficientes quanto os robôs imaginados por quem acreditava que são as máquinas, e não os seres humanos, que criam as forças produtivas. Como os monges que calmamente inscreviam esferas dentro de esferas enquanto a igreja desmoronava ao redor deles, a superestrutura ideológica perde contato com sua base social. O método científico e a objetividade fria das máquinas de pensar são sintomas avançados da falta de empatia com seres humanos que leva a uma profunda incapacidade de entendê-los. Essa incapacidade por sua vez leva a políticas fria e cientificamente projetadas e medidas que são completamente desligadas da situação social para a qual foram planejadas. As medidas perdem seu quadro de referências social, isto é, humano; elas são os planos calma e cuidadosamente premeditados de um maníaco, um robô demente, um monstro mecânico que escapou do controle humano e começa a destruir os seres humanos alucinadamente com uma indiferença mecânica que, dos seres animados, só caracterizaria uma divindade ou um macaco.

O poder personificado se aparta de sua fonte

Em geral, as respostas a uma ordem social são condicionadas pelo nível de desenvolvimento das forças produtivas e pela forma das relações sociais. No entanto, o peso das forças produtivas ou das relações sociais de condicionar uma resposta individual depende da atividade cotidiana individual dentro da divisão social do trabalho. Quanto mais a atividade social diária de um indivíduo é removida das forças produtivas da sociedade, menos a resposta do indivíduo é condicionada pelo nível de desenvolvimento das forças produtivas, e mais ela é condicionada pelas relações sociais. É por isso que os modernos Primeiro e Segundo Estados, os funcionários dos establishments ideológico e governamental, não podem ver as forças produtivas como meios potenciais do desenvolvimento dos seus poderes humanos, mas apenas como ameaças a seus poderes. Entre os que exercem os poderes sociais, as respostas à ordem social tomam a forma de busca por consolidar a hierarquia do poder personificado acompanhada de tentativas de obstruir o desenvolvimento das forças produtivas.

Quando o poder personificado se torna apartado de sua fonte no processo produtivo, ele perde sua função histórica, torna-se um fim em si mesmo, e adquire uma dinâmica a-histórica própria. Os poderes sociais cessam de se referir às forças produtivas da sociedade. O breve desvio do capitalismo da história normal das civilizações chega ao fim. O poder social é outra vez uma categoria que seria reconhecida por imperadores, faraós e sultões: ele mais uma vez se pauta em girar nos degraus da hierarquia do poder personificado. Entretanto, por causa dessa breve jornada no submundo das forças produtivas, a hierarquia do poder personificado se torna não apenas desequilibrada como irreparavelmente pesada e incômoda. O sultão não entenderia um aspecto do sultanato moderno: o melhor vinho no mundo foi misturado com água ao ponto de se tornar sem gosto; foi permitido que o número de funcionários [officials] excedesse o número de escravos; o poder personificado, a própria substância da existência humana, foi diluído. Em um momento histórico que já é tarde demais, os funcionários, para quem o poder do sultão é a forma e substância do poder humano, tentam reconquistar o terreno perdido. Em um tempo em que os poderes das funções médias se tornam tão infinitamente divisíveis quanto o dinheiro, apenas o poder consolidado de toda uma hierarquia parece reter sua antiga grandeza. Entretanto, cada tentativa de concentrar o vinho aguado o torna ainda mais diluído. Os economistas familiares com as histórias de reis que cunharam dinheiro quando o tesouro do Estado chegava à falência não percebem que o tesouro do poder personificado está falido. Um homem pobre que se torna milionário com dólares sem valor provavelmente não causaria a impressão de ter se tornado rico. Porém, um indivíduo que internaliza os poderes de uma função pobre, por exemplo um que exerce a autoridade que “nós os antropólogos” são competentes para exercer, dá a impressão de ganhar estatura quando a função é estendida para “nós os cientistas”. Além disso, quando o tamanho das funções aumenta para abranger “nós os Americanos” ou “nós os Alemães”, o poder exercido por um único funcionário se diluiu a um nível correspondente ao dinheiro sem valor por unidade. No entanto, nos centros respeitáveis e cultos, a função de “nós os americanos” é experimentada como um poder pessoal, particularmente se toda a grandeza do poder da hierarquia é personificada por “nosso Líder”.

O desenvolvimento contínuo das forças produtivas da sociedade se torna um grilhão para as relações sociais. Como esse desenvolvimento é acompanhado por ainda mais dispensas da atividade produtiva, ele obstrui a consolidação e concentração do poder social personificado. As personificações do Capital renunciam ao seu propósito histórico inicial. A atividade brutal materialista de transformar trabalho excedente em Capital é substituída por propósitos espirituais soberbos: Ordem, Grandeza, Honra. Estes propósitos não podem mais ser deixados ao funcionamento desregulado da lei do valor, para aquilo que os economistas chamam de oferta e procura, a competição desregulada entre empresas independentes em mercados descontrolados. Os propósitos históricos contemporâneos do Capital são o próprio propósito do governo. Eles só podem ser realizados pelo escritório central [central office] da sociedade do Capital, a personificação de todos os poderes humanos alienados, o Estado. Em busca de estabilidade e ordem, o desenvolvimento de forças produtivas deve ser controlado, obstruído, invertido. A cornucópia de progresso tecnológico cessa de dar origem a esperanças e cada vez mais dissemina vagos temores. Por detrás das forças produtivas esconde-se uma besta selvagem, sua hora está por vir, pronta para liberar o caos pelo mundo. Os poderes temporais e espirituais do mundo escondem sua careta de terror sob a máscara de gracejos complacentes feitos por suas funções. Removidos fisicamente das forças produtivas e dos produtores, raros turistas nos guetos das cidades centrais, visitantes ocasionais das fábricas produtivas, moradores de bairros de classe média alta, administradores e coordenadores são ameaçados pelo acesso dos produtores aos instrumentos de seu desenvolvimento potencial. A segregação geográfica dos produtores transforma um mal-estar inicial, uma vaga insegurança, em medo de violência física e finalmente em medo de contaminação. As “cabeças” do processo de produção são decapitadas dele; o pináculo do sistema de cérebros mais avançado da história se torna demente. Separados por muitas mistificações da percepção de que o que os funcionários personificam é o poder alienado dos produtores, os representantes do poder produtivo alienado da sociedade se tornam preocupados em se segregar ainda mais dos produtores. Sob a máscara oficial de calma complacente e inocência infantil, eles se lançam febrilmente no desenvolvimento e pesquisa de meios de repressão, eles presidem uma proliferação de funções cujo propósito único é policiar os produtores, arregimentando-se ainda mais no processo.

Imperialismo e anti-imperialismo

Nas regiões onde a acumulação do Capital começou, as relações sociais deixam de ser formas de desenvolvimento de forças produtivas para se tornarem seus grilões. Entretanto, é errôneo tirar conclusões gerais a partir de eventos localizados. Nenhuma ordem social desaparece antes que todas as forças produtivas para o qual há espaço nela tenham sido desenvolvidas. Na situação atual, mais da metade da humanidade foi excluída dos benefícios materiais criados pela acumulação de Capital, e do privilégio social obtido nas funções que personificam os poderes acumulados do Capital. Esse fato deve ter moderado o otimismo provinciano daqueles que percebem que o Capital retornou à beira da cova na qual seus predecessores foram sepultados. Ele voltou a ela, mas não através de uma queda súbita, inúmeros suspiros finais ainda restam, porque o Capital não foi provinciano. Ao disseminar seu mercado mundial pelo globo inteiro, ele não descobriu a fonte da juventude perpétua, mas obteve um meio de prolongar seu período de decrepitude.

Mesmo quando se tornam grilhões para o desenvolvimento das forças produtivas nas regiões onde a acumulação do Capital se voltou contra si mesma, as relações sociais dominantes são formas de desenvolvimento das mesmas forças produtivas nas regiões onde a acumulação de Capital está apenas começando. O último estágio do capitalismo é de fato o imperialismo, a conquista do mundo, a inclusão de toda a humanidade sob a hegemonia do Capital. O último estágio, tal como o primeiro, é uma expansão de uma forma social específica de desenvolvimento de forças produtivas: ele dedica-se à transformação da atividade produtiva em atividade alienada, ou trabalho, a materialização dessa atividade alienada nas forças produtivas, a identificação das forças produtivas com um equivalente estabelecido convencionalmente, o Capital, e a concentração de Capital em funções sociais para as quais a atividade produtiva é alienada. A expansão do Capital sempre esteve vinculada a uma reprodução expandida de uma forma histórica das relações sociais. Diferentemente do Imperialismo de Roma, o imperialismo do Capital não consiste numa colonização que pilha os tesouros dos potentados derrotados, cobra tributos dos camponeses e escraviza alguns dos colonizados; ele consiste na transformação da atividade cotidiana das sociedades pré-captalistas em reprodução da atividade alienada e de sua personificação, o Capital. O último estágio do desenvolvimento capitalista é a fase em que as relações sociais do trabalho alienado e do Capital são universalizadas. É o período de última expansão do Capital, o período quando todas as forças produtivas para as quais há espaço nessa ordem social são desenvolvidas.

O último estágio da expansão capitalista não coincide com a colonização. A identificação do imperialismo do Capital com a colonização tem uma importância histórica por si só, e será tratada depois. A expansão atual das relações sociais da atividade alienada e do Capital coincidiu com a colonização apenas durante os estágios iniciais do desenvolvimento capitalista. A colonização é como a religião, a família e o Estado, que são formas sociais pré-capitalistas, sobrevivências de épocas anteriores, que o capitalismo adaptou para seus próprios propósitos, não só no último estágio de expansão capitalista, mas também no seu primeiro. A pirataria, os cercamentos e as companhias comerciais não apareceram historicamente pela primeira vez no fim do século dezenove; essas formas de construção de impérios apareceram quatro séculos antes, durante um período que ninguém chamaria de o último estágio de desenvolvimento capitalista, quando elas de fato serviram como instrumentos de expansão geográfica das relações sociais do Capital. No fim do século dezenove a colonização já não coincidia mais com a expansão das relações sociais do trabalho alienado e do Capital. Como o Estado hoje, mas mais cedo, a colonização se tornou desconectada dos propósitos históricos para os quais o capitalismo inicialmente a usou, adquirindo uma dinâmica a-histórica própria, e se tornou um freio para o desenvolvimento do Capital.

Durante os estágios iniciais do desenvolvimento capitalista, os camponeses da Inglaterra e da Europa ocidental foram coercitivamente privados de sua atividade social anterior, sua forma de existência humana, e transformados em fontes de acumulação primitiva do Capital. Entretanto, os camponeses colonizados não foram deixados suspensos nesse Limbo, essa condição intermediária em que eles não eram mais o que foram mas ainda não haviam começado a ser o que se tornaram. Durante esse período inicial, a colonização serviu ao seu propósito capitalista. O processo estava completo. A acumulação primitiva abriu passagem para a acumulação de Capital. O limbo abriu passagem a uma nova ordem social. O colonizado tornou-se um trabalhador assalariado, que aliena sua própria atividade vital nas forças produtivas, e alguns deles se tornaram funcionários que personificavam o poder produtivo alienado. Os colonizados foram absorvidos pelas relações sociais do trabalho alienado e do Capital. O império do Capital se expandiu.

É precisamente esse o processo que não acompanha a colonização durante os últimos estágios de desenvolvimento capitalista. Os colonizados são privados de sua ordem social prévia, sua forma anterior de humanidade, e transformados em fontes da acumulação primitiva. Mas eles são deixados suspensos nesse limbo. O processo não é completado. A acumulação primitiva não abre passagem à acumulação do Capital propriamente dita. Não mais integrados na ordem social pré-capitalista, o colonizado não adquire as relações sociais do Capital. A Colonização deixa de servir ao propósito capitalista de expandir as relações sociais de trabalho alienado e Capital; ela cessa de ser uma forma de desenvolvimento de forças produtivas. Não é mais o império do Capital que se expande, mas um tipo de império muito mais velho que o Capital, um império como Roma, o império da Inglaterra, França, dos Estados Unidos.

Durante o período de decrepitude do capitalismo, quando o engajamento com assuntos dinásticos praticamente substitui seu caráter histórico como forma de desenvolvimento de forças produtivas, a colonização expande, não as relações sociais do Capital, mas o poder das dinastias. Não é pela colonização que as forças produtivas para as quais há espaço na ordem social dominante são desenvolvidas. O que se expande não é o Capital mas a “civilização ocidental”, uma salada na qual preconceitos pré-capitalistas e superstições são combinados com formas feudais de poder de Estado e temperada com mercadorias que incorporam trabalho alienado. Servir essa salada em todo lugar do mundo é visto pelos funcionários ingleses como uma missão civilizatória conferida pelo destino aos cristãos protestantes de pele rosada, olhos claros e altos. Coberta com indumentária francesa, essa mesma salada se torna “civilização francesa” e no tempo em que isso é feito pelos EUA, se torna um completo e exclusivo Way of Life. Se um gentleman inglês anunciasse essa missão civilizatória num momento histórico imediatamente anterior, ele seria desprezado como um charlatão ou um idiota; suas pretensões provocariam, no máximo, divertimento; talvez sua missão fosse compreendida com pena, como um delírio de grandeza necessário para um patético e mal sucedido mercador inglês que tentasse vender roupas indianas produzidas industrialmente para camponeses e artesãos da Inglaterra agrária. No entanto, após poucos séculos de acumulação de Capital, o delírio se torna uma abrangente Weltanschaung [visão de mundo], e o delirante mercador se torna colonizador civilizatótio. Contrariamente a uma visão muito arraigada, essa pretensão, em si mesma, não constitui racismo. Ela se torna racismo apenas quando é internalizada pelos colonizados, quando a salada chamada “civilização ocidental” é digerida. Forçar o colonizado a digerir essa salada passa a ser o grande desafio histórico durante os últimos dias do capitalismo.

Ignorante das fontes do poder do colonizador precisamente porque as relações sociais do Capital são, e permanecem, desconhecidas para ele, o colonizado adquire a ilusão de que foram atingidos por uma catástrofe natural. Isso também foi verdade para os camponeses colonizados da Europa e Inglaterra, mas a ilusão foi desfeita tão logo eles entraram nas minas e fábricas e se tornaram controlados pelo processo que cria o poder. Mas para os camponeses colonizados dos últimos dias, o exército estrangeiro ocupante, a administração, linguagem, cultura e a religião são atributos de um ser alheio cujas fontes de poder permanecem um mistério. E é precisamente essa origem misteriosa do poder do colonizador, isto é, a ausência de desenvolvimento capitalista entre os colonizados, que não deixa aos colonizados nenhuma escolha exceto internalizar os delírios do colonizador, a se tornar o que o colonizar desejaria que eles fossem. Comparando-se a esse ser alheio com poderes misteriosos, os colonizados não se veem apenas como seres humanos inferiores, mas como espécies diferentes. Pois a diferença entre colonizador e colonizado não é sutil, espiritual, intangível; mas bruta, flagrante e visível – é a diferença entre uma cabana de taipa e um arranha-céu de aço e concreto, entre uma mula e um jato. A diferença é demasiado visível para ser ignorada; a parte mais profunda do ser humano exclama por uma explicação. Uma explicação que fosse tão grosseira quanto a diferença misteriosa de poder acaba com o mistério. A diferença visível de poder entre colonizador e colonizado é explicada em termos de cada aspecto visível que não é coberto pelas roupas: cabelo, olhos, pele e nariz. Quando essas diferenças de aparência não são visíveis o bastante, linguagem, religião e higiene são adicionados. A explicação se torna o campo especial de uma nova ciência, a antropologia, a Ciência do Homem, para qual é atribuído o objetivo de descobrir e catalogar cada diferença visível entre seres humanos, e até diferenças invisíveis. No momento em que isso fosse concluído, ficaria provado que o desenvolvimento das forças produtivas entre colonizados deveria apenas minar as conquistas da colonização. Para o colonizador dos últimos dias do capitalismo, o “capitalismo nativo” é uma combinação sem significado de palavras com sentidos opostos; ele não é o objetivo e nem o resultado da colonização. Além disso, mesmo se tal absurdidade fosse possível, isso meramente levaria a outra absurdidade, ou seja, para a possibilidade absurda de que os colonizados colonizem uns aos outros e até mesmo colonizem o colonizador.

A Colonização não faz parte do último estágio do desenvolvimento capitalista porque ela não é mais sequer uma forma de desenvolvimento capitalista. No entanto, a identificação da colonização com a última expansão do capitalismo marca o começo da última fase de desenvolvimento capitalista. A identificação do capitalismo com uma forma social pré-capitalista que não serve para expandir as relações sociais capitalistas se torna uma pré-condição histórica para a conclusão do processo que foi iniciado e depois bloqueado pela colonização. A identificação do poder do Capital com o poder do colonizador reduz o capitalismo, de um sistema de relações sociais, a um consórcio de dinastias. O Capitalismo se torna sinônimo de “civilização ocidental”. Essa redução se torna o fundamento da construção do modelo terceiro-mundista de revolução anticapitalista e anti-imperialista.

Durante o declínio histórico do feudalismo, quando os capitalistas já haviam estabelecido seus poderes sobre as forças produtivas da sociedade mas continuaram a internalizar a autoridade das formas feudais de poder, os campeões do capitalismo apareciam entre os funcionários da hierarquia feudal e entre os aspirantes a formas feudais de poder personificado. Reis, príncipes, padres e papas, assim como os pretendentes a todas essas funções, se tornaram patronos e protetores de banqueiros, comerciantes e fornecedores, e de outros igualmente membros de baixa classe do Terceiro Estado. Pessoas humildes e empreendedoras ganharam um reconhecimento social que quase igualava seu poder social, e, em troca, elas se tornaram os principais apoiadores do monarca local, nobre ou prelado. O senhor feudal garantiu “seus próprios” direitos e privilégios burgueses que de fato não existiam na estrutura feudal de poder. Aos burgueses frugais e esforçados, preocupados mais com questões financeiras do que com questões de Estado, foi garantido o direito ao trabalho livre pelos senhores liberais que antes não o permitiam a seus servos; foi-lhes garantido o direito à inviolabilidade dos contratos pelos soberanos que respeitavam contratos apenas quando eram meios para fins mais importantes; foi-lhes garantida a santidade da propriedade dos heróis de era-uma-vez cujos códigos de honra repousavam sobre a força da pilhagem. Em troca dos serviços prestados por esses campeões do povo durante os últimos momentos da existência do feudalismo, os primeiros capitalistas se tornaram tão dependentes das funções ideológicas, militares e políticas da sociedade feudal que essa breve experiência histórica deixou marcas indeléveis em todo desenvolvimento subseqüente da classe capitalista. Mesmo muito depois de eles terem estabelecido hegemonia indisputável sobre as forças produtivas da sociedade, os representantes dessa classe exibiam inseguranças e ansiedades que beiravam a paranoia se não estivessem apoiados por fortes protetores feudais armados, exércitos feudais equipados tecnologicamente e modernas relíquias eclesiásticas.

Durante o período senil do capitalismo, quando as formas de acumulação do Capital anteriores perdem sua função histórica inicial, os campeões dos colonizados aparecem entre os funcionários do establishment ideológico e entre os aspirantes às formas modernas de poder personificado. Economistas, filósofos, policiais, administradores, bem como os aspirantes a essas funções, se tornam servidores e porta-vozes dos colonizados. Diferente dos campeões feudais da burguesia, os modernos campeões dos colonizados se veem como membros da classe oprimida. Em vistas disso, eles consideram necessário derrubar as formas capitalistas de status social e reintroduzir as distinções de classe baseadas em origem social. O Capitalismo aboliu tais distinções e as substituiu com divisões de classe baseadas na atividade social, na relação de cada um com as forças produtivas. Torna-se necessário derrotar o padrão capitalista se se espera que categorias sociais tais como “intelectuais da classe trabalhadora” ou “generais proletários” sejam significativas outra vez. Esses setores progressistas da sociedade moderna garantem ao colonizado o direito aos produtos do seu trabalho e o princípio segundo o qual os produtores devem controlar as forças de produção. Como bônus desses direitos políticos, os colonizados adquirem desenvolvimento econômico. Eles cessam de ser fontes perpétuas de acumulação primitiva e enfim se tornam fontes da acumulação do Capital propriamente ditas, trabalhadores industriais. O processo que foi iniciado pela colonização avança para sua conclusão. Seu agente moderno é o Estado.

O Imperialismo, o último estágio do desenvolvimento capitalista, a expansão das relações sociais do trabalho alienado e do Capital para toda parte do mundo, é iniciado pela conquista do poder do Estado nas regiões onde a colonização bloqueou o desenvolvimento das forças produtivas. A sequência histórica original da forma de desenvolvimento das forças produtivas é invertida. Originalmente, a forma capitalista não veio à existência plenamente pronta no momento histórico em que a vanguarda da classe capitalista tomou o poder do Estado. O controle direto do Estado, a personificação central do Capital social, não se tornou possível historicamente antes que a classe capitalista estabelecesse seu poder sobre o resto da sociedade. Porém, quanto mais desenvolvido o aparato de Estado se torna nas regiões onde o Capital originalmente se acumulou, menos a sequência histórica de desenvolvimento dessas regiões precisa ser recapitulada, e tanto mais a última fase nas regiões originais se torna a primeira nas novas regiões. Torna-se possível instituir as relações centrais de acumulação do Capital diretamente através do poder do Estado, sem recapitular o desenvolvimento histórico do capitalismo, do mesmo modo que após o desenvolvimento da agricultura mecanizada, torna-se possível arar terras virgens com tratores, sem recapitular o desenvolvimento histórico da agricultura. O Estado se torna o agente histórico pelo qual os colonizados são libertados do limbo da perpétua acumulação primitiva. Pela mediação do Estado, a atividade diária da população antes colonizada enfim adquire a forma social de trabalho alienado. O modelo moderno de revolução terceiro-mundista busca lançar uma ponte sobre o abismo entre o colonizado e a humanidade do colonizador.

O Estado, o poder alienado da comunidade, contra cuja forma feudal o capitalismo originalmente afirmou sua existência e que se tornou a personificação concentrada do Capital apenas depois da vitória do capitalismo sobre as formas feudais de Estado, agora se torna o iniciador do processo de alienação da força produtiva. Dado que sua forma social de poder foi desenvolvida originalmente em oposição às formas feudais de poder de Estado, as personificações iniciais do Capital se distinguiam dos funcionários do Estado. Essa distinção agora se torna arcaica. Nas regiões de novo desenvolvimento que passam por uma revolução anti-imperialista, não há capitalistas; as personificações individuais do Capital social são os funcionários do Estado que, em termos de origem social e filosofia política, são proletários. No momento histórico em que as forças produtivas da sociedade tornam possível o desenvolvimento universal de poderes humanos, a hierarquia de poderes representados se torna universalizada.

As lutas em um alto nível de desenvolvimento das forças produtivas

A tomada e consolidação do poder alienado da comunidade, o Estado, tornou-se a forma do desenvolvimento das forças produtivas em condições onde não faz mais sentido realizar as formas históricas anteriores de acumulação de Capital. Atividades militares, administrativas e ideológicas – defesa, organização, teoria –parecem formas modernas de atividade revolucionária, como expressa no leninismo, estalinismo, maoísmo e no terceiro-mundismo. Entretanto, as respostas à ordem social não se limitam a essas formas, elas não são condicionadas apenas pela forma dominante de relação social mas também pelo nível de desenvolvimento de forças produtivas. O peso das forças produtivas ou o das relações sociais em condicionar a resposta individual depende na atividade cotidiana individual dentro da divisão social do trabalho. Quanto menos a atividade diária individual é apartada das forças produtivas, mais a resposta do indivíduo é condicionada pelo nível de desenvolvimento das forças produtivas. É por isso que o modelo leninista de atividade revolucionária é adotado principalmente entre aqueles que não estão em contato cotidiano com as forças produtivas contemporâneas. Em um alto nível de desenvolvimento de forças produtivas, as respostas à ordem social não conduzem à adoção do modelo revolucionário leninista. Elas não dão surgimento à liderança e à luta pelo poder do Estado, nem mesmo a minimamente definir organizações revolucionárias. Ao contrário, diversos movimentos na direção oposta podem ser observados. O tempo histórico corre fora de sincronia com o arquétipo leninista de revolução. Quanto menos as pessoas são excluídas das forças produtivas contemporâneas, maior é o fundo social de Capital acumulado na qual suas atividades são materializadas, e menos tem necessidade das relações sociais que forçavam a acumulação das forças produtivas.

O desenvolvimento contínuo das forças produtivas cria condições materiais para relações sociais novas e desconhecidas – relações que já estão em processo de formação na velha sociedade, mas que não podem amadurecer antes de quebrar os grilhões da ordem social dominante. A consciência de uma época reflete as formas dominantes de relações sociais, embora estas não sejam as únicas formas. A hegemonia das formas dominantes é limitada e algumas vezes desafiada pelas formas anteriores sobreviventes ou mesmo ressuscitadas, e é minada por novas formas que se desenvolvem sob a guarda das formas dominantes. As novas formas ainda são apenas rebentos; são formas embrionárias, e não formas de relação social no sentido pleno. Elas são negligenciadas pela consciência, não porque são embrionárias, nem porque sua magnitude e importância sejam insignificantes, mas porque a consciência de uma época tende a refletir apenas as formas dominantes. No entanto, no coração do próprio processo de produção, onde as forças produtivas acumuladas são criadas, as formas dominantes de atividade social não esgotam as possibilidades da existência humana. A ambigüidade no coração da produção do capital, a ambigüidade da atividade que simultaneamente consiste de produtores ativando coisas e de coisas ativando produtores, estilhaça a hegemonia da forma dominante. Por causa do caráter dinâmico das forças produtivas, os produtores devem responder a circunstâncias em contínua mutação. Se não forem pisados, esmagados, ou derrubados, os produtores são constantemente forçados a continuar “alertas no jogo”; diferentemente dos colonizados, eles não podem imaginar que o poder personificado dos funcionários são a única forma de poder humano, e diferentemente dos funcionários, eles não podem renunciar a seus poderes autônomos [self-powers] para submergir a si mesmos nos poderes personificados pela função.

É precisamente no coração do processo produtivo que o indivíduo automático é menos desenvolvido. A ilusão de que a produção consiste de coisas animando coisas é criada pelos efeitos capitalistas de encenação, de luz e som, o que leva a audiência a conceber erroneamente a natureza da atividade produtiva. Não foi de fato viável substituir produtores humanos com máquinas cujo comportamento é pré-determinado. Os cientistas sociais, esperando por robôs que operam a tecnologia, máquinas que controlam máquinas, ficaram surpresos ao encontrar seres humanos incontroláveis e indisciplinados. Os cientistas ficaram em geral desapontados. No próprio centro do mecanismo sofisticado que se tornou sinônimo de eficiência em si, ergue-se um demônio imprevisível e intratável. Acontece que a velocidade da linha de montagem depende de se os indivíduos concordam em executar vários movimentos programados. A magnitude do produto depende, numa extensão crescente, da quantidade do produto que os trabalhadores levam para casa em suas marmitas, quando não em caminhões desviados. A qualidade dos produtos sofisticados depende da boa vontade de trabalhadores qualificados de desistir de fazerem mudanças não supervisionáveis nas medições e ajustes finos. A existência continuada de diretores, programadores, capatazes e guardas depende da boa vontade dos produtores de continuarem voltando a seus empregos. O poder do produtor de determinar a forma do ambiente material e social não é um sonho distante, mas um fato cotidiano.

Se os produtores parecem incontroláveis até para eles mesmos é porque eles continuam a internalizar as regras dominantes. Enquanto eles não podem evitar de expressar seus próprios poderes autônomos [self-powers] nas situações que os demandam, e enquanto nem sempre desistem de expressá-los em situações que não os demandam, os produtores continuam a internalizar o poder oficial como o único poder legítimo e a experimentar o seu próprio poder como ilegítimo. Se a consciência dos seres humanos determinasse sua existência social, a hegemonia das relações sociais dominantes permaneceria segura. Porém, se é a existência social que determina a consciência, então a ordem social moderna ergue-se em uma fundação tão segura como as pedras das eras de ordens sociais que há muito tempo se extinguiram. O próprio Capitalismo desenvolveu suas formas peculiares de poder social com uma consciência que era desfavorável a esse desenvolvimento. O precursor do capitalista, o mercador, não podia reconhecer a existência de sua própria atividade, nem para si mesmo, visto que ele aparecia a si próprio como um pio e útil membro de uma comunidade na qual seus talentos especiais, a usura e a extorsão, foram rotulados oficialmente como pecados. Entretanto, mesmo quando ele internalizava a negação de sua atividade pela autoridade, o comerciante continuou a exercer seu ofício cada vez mais lucrativo em uma situação onde os poderes das autoridades, do monarca, da nobreza e da Igreja dependiam cada vez mais dos frutos do pecado do mercador, do dinheiro. Quando a atividade do comerciante de comprar e vender foi combinada com a produção mercantil do artesão, o dinheiro se tornou Capital e o comerciante se tornou a personificação dos meios de produção, um capitalista – séculos antes do desenvolvimento da economia, da moralidade burguesa e do Estado moderno. Sem representação política na monarquia e nem no estado feudal, e com a consciência cimentada na moralidade da Igreja, que mantinha os poderes temporais e espirituais tanto materialmente quanto espiritualmente, e condenando os pecados da usura e da extorsão com uma zelosa devoção, os primeiros capitalistas, apesar disso, acumularam um poder social que limitou e finalmente desafiou os poderes espirituais e materiais dominantes. Somente então a usura se tornou comércio bancário e a extorsão, marketing. O que ele desenvolveu dentro do feudalismo não foi uma consciência, uma ideologia e nem um movimento revolucionário organizado, mas antes uma prática, uma forma de comportamento social que minou e finalmente derrotou a piedade, a garbosidade e a soberania das formas anteriores.

Os produtores contemporâneos desenvolvem o poder das forças produtivas, os meios do desenvolvimento universal das capacidades humanas, com uma consciência desfavorável a esse desenvolvimento. Assim como os mercadores feudais viam os lucros do comércio, não como meios de acumular forças produtivas sociais, mas como meios para comprar propriedades de terra e títulos de nobreza, como meio para adquirir as formas predominantes de poder social, os produtores contemporâneos veem as forças produtivas, não como meios para o desenvolvimento universal das capacidades humanas, mas como meios de ganhar dinheiro, como meios de adquirir o fetiche para o qual as capacidades humanas são sacrificadas. Tal como os antigos comerciantes banqueiros e fornecedores pediam formas capitalistas de poder social a seus senhores feudais, os produtores contemporâneos pedem seus próprios poderes aos seus próprios Estados. No entanto, assim como as autoridades feudais não podiam conferir poderes que de fato não existiam dentro do feudalismo, o Estado não pode conferir poderes cuja negação é a sua própria condição de existência. Os produtores não podem reconhecer seu poder sobre as forças produtivas sequer para si mesmos, uma vez que eles ainda aparentam para eles próprios serem cidadãos cumpridores da lei de uma democracia representativa no qual o controle público desse poder é ilegal e imoral. Eles experimentam a apropriação por eles de seus próprios produtos como roubo e a regulação direta da produção como sabotagem, como atos criminosos. Eles continuam a internalizar a autoridade da classe para a qual eles alienam suas forças produtivas, e assim reproduzem o poder dessa classe.

Entretanto, mesmo quando internalizam a negação de seu próprio poder, os produtores continuam a aumentar seu poder em uma situação em que o poder das autoridades depende da experiência, imaginação e engenhosidade dos produtores. Com sua consciência cimentada a automóveis, moradias de classe média, passeios nos finais de semana e vagas nos escritórios corporativos, apoiando os poderes personificados desses funcionários tanto materialmente quanto espiritualmente, e condenando a criminalidade da rebelião e do roubo com uma devoção extremamente zelosa à propriedade privada, os produtores, apesar disso, acumulam forças produtivas que limitam e desafiam os poderes temporais e espirituais dominantes. O que se desenvolve sob a hegemonia da forma dominante de comportamento, nos centros de produção de Capital, não é uma consciência, uma ideologia, nem mesmo um movimento revolucionário organizado, mas uma prática, uma forma de comportamento social que mina a forma dominante. Cada ato de roubo e sabotagem, cada ato de expressão ilegítima dos poderes do produtor, corrói a legitimidade das autoridades dominantes. A autonegação continua no centro da auto-realização, mas a ascensão desta última é síncrona com o declínio da primeira.

Os senhores feudais erigiram seus mais suntuosos palácios, travaram suas mais gloriosas batalhas, e completaram a Summa filosófica de sua ordem natural e eterna na véspera de seu próprio funeral. Os senhores modernos realizam seus mais espetaculares feitos tecnológicos, travam suas maiores guerras imperiais, e atingem os mais elevados níveis de sua compreensão científica precisamente no momento histórico em que o cérebro do Capital fica tresloucado. Durante o período da última expansão do Capital, o período em que todas as forças produtivas para as quais há espaço na ordem social estão em processo de serem completadas, os indivíduos começam a se relacionar entre si e com o ambiente material sem a mediação das personificações. As coisas começam a cair por terra. Novas formas através das quais os produtores se reapropriam de fragmentos do poder produtivo alienado surgem cada vez mais, e formas de se reapropriar do aparato produtivo inteiro começam a aparecer. Enquanto a consciência dos produtores continua cimentada no poder personificado, a reapropriação das forças produtivas alienadas cada vez mais torna as personificações desses poderes alienados em cascas vazias. Não é primariamente no uso consciente pelos produtores que as potencialidades das forças produtivas são refletidas, mas antes em sua prática social. As potencialidades anteriormente refletidas na consciência são as potencialidades das forças produtivas que foram historicamente realizadas: o Capital e o Estado. O que não pode ser refletido pela consciência anterior é o que acontece quando os indivíduos se reapropriam de seus poderes autônomos [self-powers], quando eles deixam de alienar o poder da comunidade ao Estado e o poder produtivo ao Capital. No máximo, a consciência anterior pode saber o que não mais ocorre. Nesse momento, não pode mais parecer aos indivíduos que as personificações de seus próprios poderes alienados dão vida à atividade social. Tão logo eles cessam de internalizar o poder das personificações, os seres humanos retiram a legitimidade da Autoridade e simultaneamente se livram de sua própria impotência. O cimento que mantém coesas as relações sociais começa a esfarelar. O poder de modificar o ambiente no qual os seres humanos vivem e as atividades em que se engajam, o poder de decidir o que é feito com as forças produtivas, é retirado das funções que personificam o poder da comunidade e o poder das forças produtivas. A busca dos indivíduos de realizarem seus próprios poderes autônomos [self-powers] no nível tornado possível pelas forças produtivas contemporâneas ocorre fora dos limites do modelo leninista de revolução. Ela se move fora dos limites do poder personificado. A resposta em contínua mudança às forças produtivas em contínuo desenvolvimento se move sem formas pré-determinadas de atividade social.

  • 1. Nota dos tradutores: “...como o modelo predominante de revolução no século XX, o leninismo e o terceiro-mundismo” no original era apenas: ”...como o modelo moderno de revolução”, referindo-se satiricamente ao leninismo e o terceiro-mundismo. Decidimos traduzir de modo a tornar explícita a referência ao leninismo e ao terceiro-mundismo, uma vez que os capítulos restantes, satíricos, não foram traduzidos, o que tornaria o texto ininteligível aos leitores desta tradução.

Posted By

Joaos
Apr 12 2016 17:21

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  • Os produtores criam uma tecnologia industrial que elimina a necessidade material do trabalho forçado enquanto reproduzem as condições sociais do trabalho forçado. As forças produtivas que eliminam as condições materiais de escassez tornam-se instrumentos sociais para a manutenção de escassez.

    Fredy Perlman

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