Anarquismo em ação na África do Sul

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Sifuna Zonke
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Sep 17 2007 17:22
Anarquismo em ação na África do Sul

Entrevista de 2005

A Agência de Notícias Anarquistas (ANA) sempre se preocupou em divulgar outras realidades anarquistas, e
aproveitando que em breve o anarquista sul-africano, Jonathan Black, ativista de grande valor, e secretário regional da Federação Anarquista-Comunista Zabalaza (ZACF), estará de visita pelo Brasil, fomos conversar com ele sobre o atual panorama libertário na África do Sul, que incrível que pareça, ainda mantém presos lutadores anti-apartheid.

Agência de Notícias Anarquistas > Como está o movimento anarquista na África do Sul?
Jonathan Black < Na África do Sul o movimento anarquista é pequeno, e foi em princípios da década de 90 que começou a entrar em movimento. Ainda está dando seus primeiros passos, embora desde há 5 anos,
aproximadamente, as idéias anarquistas têm maior difusão dentro dos movimentos sociais populares. Também há organizações de jovens dominadas pelo marxismo em Swaziland, cujos membros começaram a se interessar pelo anarquismo.

ANA > Quais as atividades do seu grupo?
Jonathan < Na África do Sul o corpo do anarquismo organizado é a Federeção Anarco-Comunista de Zabalaza (ZACF). Este ano celebrou seu primeiro congresso oficial. Entre as atividades da ZACF - formada pelo
Grupo Negro de Ação, o Coletivo de Mídia Bikisha, Livros Zabalaza, Cruz Negra Anarquista e o já morto Grupo de Ação Zabalaza - se incluem propaganda, educação e difusão em forma escrita, editorial, distribuição de literatura anarquista, realização de fóruns de educação política, participação nos movimentos sociais, na organização da comunidade e nas prisões.

ANA > E as principais lutas?
Jonathan < Atualmente, entre nossas lutas principais estão incluídos: tentativa de organizar aos trabalhadores desmoralizados e desiludidos que foram demitidos da universidade WITS, participação nos movimentos sociais populares pelas lutas contra a privatização da água e da eletricidade, contra os despejos e organização dos prisioneiros.

ANA > Há muitas publicações e edições de livros por aí?
Jonathan < A ZACF produz "Zabalaza", jornal do anarquismo revolucionário sul-africano, e também, embora esporadicamente: "Alerta Negro”, jornal da Cruz Negra Anarquista – Rede Anti-Repressão. Também
escrevemos e produzimos diversos folhetos anarquistas e críticas importantes sobre a luta de classes e a história sul-africana como "Lutas de classes na África do Sul: desde o apartheid ao neo-liberalismo", reeditamos muitos textos anarquistas clássicos e contemporâneos, teóricos e práticos. Recentemente "Livros Zabalaza" publicou uma edição do livro “Anarquismo Africano”, de Sam Mbah e I. E. Igariwey, anarquistas nigerianos da Liga Consciência ("Awareness League"), e também “Hungria 1956”, de Andy Anderson.

ANA > Há locais anarquistas?
Jonathan < Há um pequeno local anarquista na favela de Motsoaledi no Soweto. Tem uma pequena sala de estudo, biblioteca de livros anarquistas e educativos, vídeos de educação política e de entretenimento para os membros da comunidade. Assim mesmo os ativistas têm uma horta e já começou a funcionar uma escola durante o dia para crianças pequenas. Há outros centros não especificamente anarquistas, mas com material anarquista e estão influenciados por nossas idéias. Uma das prioridades da ZACF para um futuro próximo é abrir um centro de informações e de venda onde se possa realizar a distribuição de materiais, realizar oficinas etc.

ANA > Tem tradição o anarquismo na África do Sul?
Jonathan < No começo do século XX havia uma tradição anarquista relativamente importante no Partido Comunista Anti-Parlamentário da África do Sul (não confundir com o reformista Partido Comunista da África do Sul, da Internacional Comunista), o Clube Socialista, a Liga Socialista Internacional, a Liga de Trabalhadores da Indústria da África, os Trabalhadores Industriais do Mundo da seção África, e a Liga Socialista Industrial, todos foram fundados na África do Sul entre 1900 e 1920. O mesmo como a Liga Revolucionária em Moçambique e os sindicatos anarco-sindicalistas aderidos à Confederação Geral do Trabalho em Portugal, que dominava a cena trabalhadora na década de 1920. Lamentavelmente essas tradições foram perdidas pelas duas
guerras mundiais e o regime nacionalista, e não reaparece senão quando começou a declinar o regime do apartheid e com a derrogação da "Leide Supressão do Comunismo".

ANA > Quem foi o “grande” anarquista de seu país?
Jonathan < Entre os anarquistas notáveis na África do Sul podem ser citados Thomas “TW” Thibedi, Bernard Sigamoney, Henry Kraai e Talbot Willians, que fundaram Trabalhadores Industriais da África, sindicatos e associações na África do Sul entre 1917 e 1919.

ANA > Destacaria algum projeto anarquista na África do Sul?
Jonathan < Neste momento há um projeto que me apaixona. Gostaria de pôr mais força. Trata-se da campanha de apoio aos prisioneiros anti-apartheid, ex-combatentes e prisioneiros políticos que ainda se
encontram mofando nas prisões estatais em toda África do Sul. A campanha é para chamar a atenção sobre estes prisioneiros com a esperança de que se pode gerar apoio popular, essas pessoas poderão obter a anistia. Alguns destes prisioneiros estão muito interessados no anarquismo e confiamos que com eles, ademais da organização dentro das prisões que agora desenvolvem, podemos chegar as suas famílias,
que são quem tem a experiência da repressão de Estado, e chegar também a suas comunidades.

ANA > O anarquismo no seu país é basicamente formado por negros?
Jonathan < Embora a maioria do proletariado sul-africano seja negra, isto se deve em grande parte pela história racial na África do Sul, pela falta de informação da maioria das classes não privilegiadas e,
especialmente, dos "não brancos" durante o apartheid, a maioria dos que tinham consciência de ser anarquistas eram brancos. Salvo escassas exceções, só a partir da Cúpula Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento (in)$ustentável celebrado em Johannesburg em 2002, foi possível entrar em contato com as idéias anarquistas. Isto, em grande parte, foi o resultado do trabalho de propaganda executado dentro dos
movimentos sociais. Assim mesmo, recentemente, alguns prisioneiros políticos negros começaram a ser interessar pelo anarquismo, ou se identificam a si mesmos como anarquistas.

ANA > Qual o principal problema do anarquismo na África do Sul hoje?
Jonathan < O problema principal do movimento anarquista sul-africano, isso talvez seja evidente pelo que expressei anteriormente, é que não existe um movimento nem uma tradição anarquista ou libertária na África do Sul, apesar do contato com os movimentos sociais populares e com os ativistas de base da comunidade. Os movimentos com base popular está dominado pelos socialistas reformistas e autoritários. Nossa principal dificuldade é mostrar uma alternativa prática ao socialismo autoritário e à política parlamentar, resulta muito difícil porque somos muito poucos e nossas influências é muito limitada; e em grande parte se deve à falta de fundos.

ANA > E quais as perspectivas de futuro?
Jonathan < O governo da ANC está realizando uma boa tarefa, já que está decepcionando o povo sobre a função da política na melhora das condições sociais das pessoas, e com a liderança dominante dos trotskistas no Fórum Anti-Privatização - formado pela classe trabalhadora como movimento popular – que quer ser registrado como o "Partido Popular dos Trabalhadores”, “Mass Workers Party” na corrida eleitoral (a idéia suscitou um forte debate, aparentemente entre dois campos opostos em formação, dentro dos movimentos sociais, um anarquista e autônomo, o outro, autoritário e hierárquico). Será uma boa oportunidade para os anarquistas tentarem reunir a todos os ativistas que são opostos à participação na política parlamentar como
uma frente popular das classes oprimidas, ademais da ação direta, igualdade etc. Assim mesmo, penso que o mais importante para o futuro é abrir um local sócio-cultural anarquista num lugar de fácil acesso para a classe trabalhadora, já que me parece que essa é a única forma em que podemos fazer chegar materiais a mais pessoas.

ANA > Fale um pouco do anarquismo no resto do continente africano. Ele se faz presente em que países?
Jonathan < Na Nigéria existiu há alguns anos, uns cinco anos (quase uma década talvez), a Liga de Consciência de anarco-sindicalista, que creio chegou a ter quase 1000 membros, embora me pareça que não existe mais. No ano 2000 ou 2002 tinham instalado um rádio, mas não estou seguro que siga funcionando. A Liga de Consciência (“Awareness League”) aderiu a internacional anarquista, a IWA-AIT no Congresso de
Madrid em dezembro de 1996. No Quênia existe uma Convergência Anti-Capitalista do Quênia, que até
aonde sei responde ao modelo da Convergência Anti-Capitalista de Washington DC, e foi iniciado pelos anarco-comunistas libertários, marxista e outros socialistas com a intenção de "chegar ao público em geral idéias, propaganda e ações revolucionárias”. Acredito que a seção francesa da IWA, a CNT-AIT, mantém certo contato
com os anarco-sindicalistas na Argélia. Aparentemente também há um grupo anarquista ativo nos sindicatos em Marrocos. A revista anarco-sindicalista australiana “Organise” informou que no Congresso XXI da IWA, realizado em dezembro de 2000, sobre uma incipiente organização no Zaire/República Democrática do Congo. Também foi informado que havia alguns, possivelmente muito poucos, anarquistas ativos na Uganda, Serra Leoa e Egito. Além disso, temos contato com revolucionários de influência marxista e outro do Congresso de jovens de Swaziland (SWAYOCO) e o Sindicato de estudantes de Swaziland, que demonstraram grande interesse no anarquismo como forma de luta contra o regime monárquico de Tinkundla. Confiamos em estreitar laços com eles.

ANA > Vocês se sentem isolados em relação ao anarquismo do resto do mundo?
Jonathan < Em geral, a comunidade anarquista internacional nos tem apoiado muito e mantemos contato regular com numerosos anarquistas e organizações de diferentes países como Suécia, Estados Unidos, Iraque,
Grã-Bretanha, Suíça etc. que tenham visitado a África do Sul. A ZACF também é membro da rede anarquista Solidariedade Internacional Libertária (ILS), onde a nossa Secretária Internacional mantém contato regular com outros grupos da ILS; freqüentemente, também, para reeditar materiais dos "Livros Zabalaza". Pessoalmente, me sinto mais isolado com respeito ao movimento anarquista do resto do continente africano e do hemisfério Sul, em geral, onde a comunicação resulta ser mais difícil que com o Norte.

ANA > Qual sua expectativa de visitar o Brasil? Conhece alguma coisa do anarquismo por este lado?
Jonathan < Uma das minhas expectativas é começar a estreitar laços de comunicação entre os movimentos anarquistas do Sul, formando redes dos movimentos anarquistas nos diferentes lugares que visite no Brasil e África do Sul, e ojalá com outros anarquistas africanos. Acredito que as condições sociais no Brasil são semelhantes aos dos movimentos sociais sul-africanos. Quero ver de que maneira os anarquistas brasileiros participam dos movimentos sociais populares, e como se organizam ao redor de temas como os direitos à moradia e à educação, e então aplicar algo do que tenha aprendido nas lutas na África do Sul. Também gostaria de fazer conhecer as condições em que se encontra a África do Sul depois de 10 anos de “liberdade” e “democracia” (que aumentou a desigualdade, o neoliberalismo etc.) e tentar gerar solidariedade para nossa campanha pelos prisioneiros anti-apartheid.

ANA > Obrigado pela entrevista, deixa alguma mensagem...
Jonathan < Obrigado por dar me a oportunidade de falar um pouco sobre o pequeno, mas crescente movimento anarquista sul-africano. Espero conhecer e fazer amigos entre os companheiros anarquistas brasileiros. Força! Com vocês na luta, sempre!

Federação Anarquista-Comunista Zabalaza: www.zabalaza.net
Convergência Anti-Capitalista do Quênia:
www.geocities.com/anticapkenya/main Anarquismo na Uganda:
www.geocities.com/ugandanarchism//index.html
Dica de leitura: “África rebelde: comunalismo y anarquismo en
Nigeria”, Sam Mbah e I. E. Igariwey, Barcelona (Espanha), Alikornio,
2000 (Disidencias, 3), 182 págs.
(http://personal3.iddeo.es/arridi/presentacion.htm)
Quem quiser cópia em CD-R do “Tools For Troublemakers” #2, com
literatura, pôsteres, panfletos, desenhos e jornais em PDF produzidos
pela “Livros Anarquistas Zabalaza”, basta enviar um e-mail para:
a_n_a@riseup.net

Agência de Notícias Anarquistas-ANA

O corpo é um caminho:
ponte, e neste efêmero abraço
busco transpor o abismo

Thiago de Melo