Para onde vai marrocos

1 post / 0 new
Sifuna Zonke's picture
Sifuna Zonke
Offline
Joined: 7-05-07
Jan 4 2008 09:07
Para onde vai marrocos

Para compreender Marrocos, é preciso ter em conta que Marrocos actual é o resultado do encontro e aliança entre o modelo de desenvolvimento capitalista (que penetrou através do colonialismo, especialmente francês) e o poder feudal tradicional do sultão, Makhzen, poder que se baseia na ideologia árabe-islámica.

No princípio de século xx, deparámo-nos com dois Marrocos claramente diferentes, “el bled el makhzen”, (não conheço a tradução para estas palavras) território submetido à autoridade absoluta do sultão, como príncipe dos crentes, fazendo parte do mundo árabe e muçulmano. “y el bled es siba” (não conheço tradução para estas palavras), dissidentes, rebeldes, sem autoridade central, regendo-se apenas por leis da própria tribo, os territórios dos “imazighen” (sem tradução!?) essencialmente.

Mas é o colonialismo, especialmente o francês, que vai originar (criar?) um estado forte, centralizado, submetendo (subjugando) as tribos pela força ou pela corrupção, nomeando “caid” (sem tradução) e representantes da administração central entre as tribos, rompendo com o igualitarismo dominante, impulsionando elites dentro destas, criando as condições para que o futuro rei de Marrocos Mohamed v possa submeter (subjugar) um país diverso (multifacetado), plural, a uma monarquia absoluta, que impõe uma língua não falada (o árabe normativo) no sistema de ensino e na administração (a par com o francês).

O estado actual marroquino é fruto dessa fusão entre o estado centralista imposto pelo colonialismo francês, e o sultanato medieval, baseado num rei com poderes absolutos, numa unidade imposta com a ideologia árabe-islámica, num país maioritariamente “amazigh” (sem tradução) e na manipulação do Islão ao serviço do príncipe dos crentes, o rei. A par disso, um povo que resiste, apesar das traições, e que não se deixou enganar na última farsa eleitoral.

AUMENTA A REPRESSÃO
A situação actual é muito difícil. Tudo leva a crer que há uma ofensiva das forças conservadoras sobre o movimento de resistência, com o apoio incondicional da EU e dos EEUU.

Apesar do boicote massivo das eleições (oficialmente uns 63% de abstenção, ao que há que juntar uns 18% de votos nulos, muitos deles com insultos aos partidos participantes, e 1 milhão de eleitores que nem sequer se registaram), povoações/aldeias inteiras que decidiram boicotar as eleições como Sidi Ifini onde todo o tecido associativo se pronunciou favoravelmente pelo boicote, “el Makhzen” vendeu (passou) a imagem dumas eleições transparentes e democráticas, onde participaram todos os partidos legais, 33 partidos, incluindo a extrema esquerda (excepto a Via Democrática).

Curiosamente o povo marroquino é muito mais consciente do que o nosso e percebe que nas eleições nada está em jogo: todo o poder está no rei, no palácio, onde se decide tudo o que acontece no país. O Parlamento onde têm representação (assento) 20 partidos, o governo a que preside El Istiqal, representante máximo dessa ideologia nacionalista árabe-islámica, submetida (subjugada) ao Makhzen, com o corrupto Abbas El Fassi à frente (apesar de ser o responsável por 80 000 desempregados/as no conhecido caso Amajat, uma empresa fictícia que oferecia 30 000 postos de trabalho e cobrava 100 euros por exame médico obrigatório numa clínica em Casablanca, tudo avalizado pelo ministro do trabalho daquele governo, Abbas el Fassi) são meras marionetas do palácio. É verdade que o nosso parlamento dá algo mais de credibilidade à democracia, mas não deixa de estar submetido (subjugado) aos poderes económicos e reais da EU que é onde se decide as coisas, e não nas Cortes.

Contrariamente ao Makhzen e à colaboração da grande maioria dos partidos de todas as cores, a abstenção foi defendida pelo movimento amazigh (movimento de grande base popular, mas com orientações muito diversificadas que vão desde posturas racistas a posturas de luta consequente pela terra e as tradições libertárias e colectivas de muitas tribos dos/as imaziguem), para os islamitas radicais do Xeque Yasin que vai alargando paulatinamente a sua base de apoio popular e que conquistaram votos importantes ao PJD, islamitas próximos do poder, e os Marxistas-leninistas da Via Democrática, numa posição difícil no que concerne à esquerda dominante social-democrata, e que terá de optar entre seguir mantendo uma postura de enfrentamento cada vez mais sozinha contra o poder, movida pelos movimentos sindicais e sociais de resistência, ou aceitar parcelas de poder, através, por exemplo, das eleições municipais, como troca para travar a mobilização operária e social, como fez o PCE na época da “transição democrática”…

El Makhzen, vai massacrar, está massacrando toda a oposição real, sob a fachada democrática sancionada pela EU. A repressão está sendo brutal e violando todos os direitos humanos sobre os islamitas radicais, encarcerados aos milhares, sobre a resistência amazigh na defesa da terra e da água e dos seus direitos culturais e linguísticos “manantial” (que não traduzi) de Ben Senim, estudantes do MCA de Meknes e Rachidia) sobre as lutas populares contra a subida de preços, a falta de equipamentos sanitários e educativos (repressão em Sefrou, Bonafra, Tantan, Taroulant…), sobre a imprensa minimamente crítica e com alguma independência do Palácio e sobre determinadas organizações: a ANDCM, a AMDH e a Via Democrática (19 presos no 1º de Maio). Não podemos esquecer a repressão sobre o povo sahauri com continuadas prisões, encarceramentos e estados de excepção.

A UNIÃO EUROPEIA E MARROCOS

Marrocos faz parte da periferia da EU que considera este território como fazendo parte do seu mercado, apesar das ingerências dos EEUU e como garantia da sua segurança interna e externa. O projecto da EU para o Magreb, liderado pela França (A União Mediterrânica de Sarkozy), com a não menos importante colaboração do Estado espanhol, que recolhe a sua parte do negócio/capital, tem como objectivos: ampliar o mercado europeu, aceder aos seus recursos naturais e energéticos, privatizar para as suas empresas os serviços públicos mais lucrativos, deslocalização de empresas (Delphi, Renault…), controlar a imigração e criar uma política comum de segurança (migratória e antiterrorista). Marrocos já participa em manobras e reuniões da NATO.

Neste contexto, na qual a EU vai perdendo a sua legitimidade democrática, fazendo um tratado de reforma subscrito exclusivamente pelos governos, marginalizando o próprio parlamento europeu e evitando qualquer consulta popular, o povo marroquino não pode esperar nenhuma pressão dos governos europeus para a implantação dum sistema democrático em Marrocos. A democracia do Makhzen está homologada pela Europa e pouco importa para as empresas europeias e transnacionais, as continuadas violações dos direitos humanos em Marrocos. O Mercado Único impõe-se e o sangue dos povos continua a verter-se.

CAMINHOS DE RESISTÊNCIA

O desenvolvimento e coordenação das lutas autónomas existentes, que possam criar, as bases duma organização sindical autónoma, o avanço de posições que potenciem movimentos sociais de luta, autónomos e não controlados pelos partidos, o que pressupõe uma transformação da mentalidade da esquerda marroquina acostumada à repartição de parcelas de poder pelas várias associações, a clarificação do movimento amazigh na sua oposição ao modelo neoliberal e na defesa dos direitos económicos e sociais dos imazighen, ampliando o reduzido limite da língua e da cultura, todos estes elementos podem oferecer uma resistência importante ao que se vislumbra já.

Neste processo, a resistência do povo marroquino contará com o apoio da CGT.

Mutamid