Para acabar com o fascismo e com o antifascismo: luta de classes - Askö

Crítica da aceitação da canalização do antagonismo de classes na polarização intercapitalista entre fascismo e antifascismo.

[Texto publicado em Askö #9, 08/1998 e em Acción Proletaria (publicação da Corrente Comunista Internacional) número 143, 15 de novembro a 15 de janeiro de 1999.]

Teses:

1) A essência do antifascismo consiste em reforçar a democracia, na tentativa de opô-la ao fascismo: a luta não é contra o capitalismo, mas para impedi-lo de se tornar totalitário. Divulgando essa utopia, o antifascismo tenta ocultar a existência dos antagonismos de classe. Na estratégia antifascista, não existem mais duas classes que se confrontam: o proletariado e a burguesia. Nem dois projetos opostos: comunismo e capitalismo; abolição da sociedade de classes e imposição do trabalho na ditadura capitalista. Ao invés disso, prevalece a polarização burguesa: "democracia" contra "fascismo", "estado legal" contra "estado policial" , "civis" contra "militares", "parlamentarismo" contra "regime ditatorial"! O fascismo é, no melhor dos casos, identificado com o Estado Totalitário. As campanhas antifascistas (assim como as campanhas fascistas) almejam reconstituir a união nacional em torno do Estado, com a adesão dos proletários à reprodução das relações sociais capitalistas. Hoje, como ontem, os ideólogos do Capital tentam recriar a polarização entre fascismo e antifascismo, com o objetivo de provocar uma guerra total que estimularia o surgimento de um novo ciclo de acumulação capitalista!

2) O problema não é que a "democracia" ofereça uma exploração mais suave que a "ditadura": afinal, é "preferível" ser explorado à maneira sueca do que à maneira brasileira. O problema é: por que temos de fazer essa "escolha"? Na melhor das hipóteses, isso é tudo o que o Capital nos oferece: escolher a maneira de sermos explorados! Como o Estado é um órgão cuja função se adapta às necessidades da acumulação do Capital, a "democracia" se tornará "ditadura" tão logo seja necessário.

3) O fascismo tem origem na situação que o precedeu: o esmagamento do processo revolucionário de 1917 a 1921 pela social democracia européia (russa, alemã, italiana, húngara, búlgara...). Primeiramente, é a social democracia que desarma, ideológica e materialmente o proletariado, e reprime militarmente suas insurreições. Na Alemanha, os "corpos-francos" (freiekorpen), liderados pelo socialista Noske, restabelecem a ordem burguesa. O fascismo, assim como o estalinismo, "apenas" completa o trabalho da contra-revolução, massacrando o já derrotado proletariado! A ditadura sempre aparece depois que os proletários foram derrotados pela democracia, com a ajuda dos sindicatos e partidos de esquerda. O antifascismo oculta essa realidade fundamental identificando o fascismo com "forças maléficas" e reduzindo-o a uma a-histórica "reação irracional", vinda não se sabe de onde! A credibilidade do fascismo nos anos 30 pode ser explicada pelo fato de que ele defendia em parte o programa da social democracia: melhoramento do nível de vida, obras públicas importantes, fim do desemprego, etc.

4) A tática essencial de todas as frentes antifascistas é acusar de fascistas os partidos políticos governantes. Substituem, assim, a crítica do Estado pela denúncia daqueles que o lideram. O antifascismo é a promoção e o fortalecimento da democracia e portanto do Estado !

5) O antifascismo argumenta com os massacres nazistas, para justificar a guerra. Dessa forma, camufla a realidade da guerra, que nada mais é do que uma necessidade do Capital, ao qual permite destruir, a curto prazo, as forças produtivas excedentes. Mas toda guerra precisa de uma justificativa para recrutar os proletários sob suas bandeiras. A luta contra o fascismo serviu para justificar o massacre de mais de 50 milhões de proletários! Contudo, mesmo uma análise "imparcial" é forçada a reconhecer que os campos de concentração nazistas não foram os únicos horrores da guerra: as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki , os bombardeios assassinos e massivos sobre cidades alemãs, o massacre de Sétif na Argélia pelo exército francês, em maio de 1945, no mesmo dia da "Liberação"...

6) A acumulação do capital se faz necessariamente acompanhar de duas principais condições: a obediência dos trabalhadores, isto é: a destruição do movimento revolucionário; e a concorrência com outros capitais nacionais, ou seja: a guerra. Cada Estado produz seu nacionalismo, competindo com o nacionalismo de outros Estados. Cada nação pretende monopolizar partes integrantes do mercado da nação vizinha. Todo nacionalismo é imperialista e, portanto, causa de guerras.

7) O Capital alcança a maior de suas vitórias quando os trabalhadores se mobilizam a favor dele, acreditando com isso "mudar de vida". A diferença entre "ditadura " e "democracia" consiste na maneira de subjugar o proletariado: uma, priorizando a força bruta; outra, assimilando-o por intermédio de "suas" organizações: sindicatos, partidos, associações...

8) Para todos os reformistas, incluídos os antifascistas, a democracia é considerada como um elemento do socialismo. O socialismo seria a democracia total e a luta pelo socialismo consistiria num ganho crescente de direitos democráticos dentro do capitalismo. Assim, ao contrário do que afirma, o antifascismo fortalece o totalitarismo que diz combater: sua luta pela democracia resulta na consolidação do Estado! Para os revolucionários, socialismo, comunismo, anarquia significa total destruição das relações sociais capitalistas, portanto de suas classes, de seu Estado, de sua democracia. Nossa luta é contra o fascismo e o antifascismo, essas duas faces da mesma moeda, essa dupla armadilha com a qual a burguesia nos aprisiona!

9) Os proletários, uma vez que se deixaram arrebanhar militante e voluntariamente pelo campo da democracia, antifascismo, Estado, perdem toda a capacidade de lutar autonomamente por seus interesses de classe. Esses proletários não pertencem mais à classe revolucionária, transformaram-se em bucha de canhão do Estado! O movimento autônomo do proletariado deixa de existir no momento em que se integra ao Estado.

10) O comunismo é um movimento que se estende e se radicaliza se (e somente se) os proletários forem além da simples revolta (mesmo armada) e destruírem os fundamentos do sistema capitalista.

11) A guerra espanhola de 1936 a 1939 foi usada para polarizar os proletários do mundo todo, sobre a oposição fascismo/antifascismo, preparando a União Sagrada de 1939 a 1945. A burguesia sempre tenta formar suas alianças, polarizando internamente o seu campo e fazendo com que os proletários empunhem as bandeiras imperialistas, com um só objetivo: solucionar seus problemas com a guerra!

12) Apoiando o Estado democrático para evitar que se torne ditatorial, o antifascismo desarma os proletários ideologica e materialmente. Ocultando e negando os antagonismos que contrapõem o proletariado ao Estado, o antifascismo manipula os proletários, convencendo-os a cessar a luta de classes. Mas o inimigo de classe, a burguesia, já decidiu ir até o fim! Foi o que aconteceu, na Espanha, com as sangrentas batalhas de Barcelona, em maio de 1937. Em última análise, é a falta de ruptura dos revolucionários proletários com o antifascismo - e, mais genericamente, com a social democracia - que os leva à derrota e à morte.

13) Os revolucionários proletários compreenderam que a guerra espanhola apenas serviu como ensaio geral e justificação da guerra mundial de 1939 a 1945. Quando aceitaram a União Sagrada contra a Alemanha nazista, os proletários acabaram seguindo a reboque das democracias imperialistas, vendo nisso um "mal menor" se comparado com uma eventual vitória fascista. A grande função ideológica da guerra espanhola foi polarizar em torno da alternativa "democracia" ou "fascismo", presente em cada um dos bandos de assassinos capitalistas, como a única possível. Em 1936, como em 1940 e já em 1914, é a social democracia que está - de novo e como sempre - mobilizando os proletários para a guerra!