Eclipse e reemergência do movimento comunista - Jean Barrot/Gilles Dauvé e François Martin

Livro traduzido para o português de Jean Barrot (pseudônimo de Gilles Dauvé) e François Martin, escrito entre 1969 e 1973, muito influente e seminal para corrente comunista libertária que a aborda a questão da comunização.

Livro muito influente e seminal para corrente libertária que a aborda a questão da comunização. O livro desenvolve essa questão a partir das contribuições da Internacional Situacionista, dos comunistas de conselhos, de Isaak Rubin, de Socialisme ou Barbarie, da esquerda comunista italiana (Bordiga), entre outros. Traduzido para o português e publicado pelo Grupo Autonomia em setembro de 2002 no website Biblioteca Virtual Revolucionária a partir das versões em inglês de 1974 e 1997 publicadas nos websites Antagonism Press e John Gray – For Communism.

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Prólogo, prefácios, introduções e notas de publicação de Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista

Prólogo, prefácio, introduções e notas de publicação do livro Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista, de Jean Barrot/Gilles Dauvé e François Martin.

Notas de Publicação (website John Gray – For Communism)

Estes textos foram primeiramente publicados por Black & Red em Detoit, em 1974. A nota de publicação está reproduzida abaixo, junto com outros detalhes adicionais.

Uma nova versão, revista e corrigida por um dos autores, Gilles Dauvé (que usava o pseudônimo de Jean Barrot, nos anos 70), foi publicada em inglês por Antagonism Press, em 1997. Ela pode ser encontrada em Antagonism website.

Da edição de 1974 de Black & Red:
Os ensaios incluídos nesta obra foram escritos para o boletim Le mouvement communiste (disponível com G. Dauvé, B.P. 95, 94600 Choisy-le-roi, France). Foram selecionados e traduzidos por J. Barrot. O ensaio sobre "A Luta de Classes e seus Aspectos mais Característicos nos anos atuais" foi escrito por F. Martin. Os outros dois ensaios centrais, bem como os materiais introdutórios e os apêndices, foram escritos por Barrot. Outras obras do mesmo autor: J. Barrot Le mouvement communiste (Paris: Champ Libre, 1972); J. Barrot, Communisme et Question Russe (paris: Société Encyclopedique Française et Editions de la Tête de Feuilles, 1972); J. Barrot, A. Borczuk, P. Riviale, La légende de la gauche au pouvoir: le front populaire (Paris: Editions de la Téte de Feuilles, 1973).

O capítulo 1, Capitalismo e Comunismo foi publicado novamente em meados da década de 80 como What is Communism? por Unpopular Books em Londres. Esta versão em hipertexto foi primeiramente posta na internet no site Skatta, em setembro de 1996. Ela reproduz toda a versão de Black & Red apesar da correção ter sido "inglesada".

Nota de Antagonism Press

Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista

Gilles Dauvé e François Martin

Edição Revista

Antagonism Press

Estes ensaios foram publicados em francês entre 1969 e 1972, depois em inglês por Black & Red, Detroit, USA, 1974. Gilles Dauvé (pseudônimo: Jean Barrot) escreveu o primeiro e terceiro ensaios, e fez a edição. O segundo texto é de François Martin. Textos, introduções, notas e apêndices foram revistos.

O endereço para contato é:

Antagonism Press

c/o BM Makhno,

London WC1N 3XX,

Britain.

Prólogo (1974)

Estes textos foram escritos entre 1969 e 1973. A maioria deles foi publicada na França em 1972-73. Expressam as posições de um grupo de pessoas determinadas a tentar organizar algum tipo de ação sistemática.

Apesar de suas deficiências, a Internacional Situacionista mostrou – entre outras coisas – o que Marx explicou há mais de 100 anos: não apenas é importante compreender o movimento histórico e agir de acordo com ele, mas também ser algo diferente das atitudes e valores da sociedade que os revolucionários querem destruir. A atitude militante é de fato contra-revolucionária, na medida em que fragmenta o indivíduo, separando suas necessidades reais (individuais e sociais)e a razão pela qual ele não pode suportar o mundo de sua ação para transformar o mundo. De fato, o militante se recusa a admitir que ser revolucionário é simultaneamente mudar sua própria vida e a sociedade. Reprimindo o impulso que o contrapõe à sociedade, ele se submete à ação revolucionária como se ela lhe fosse exterior: é fácil ver o caráter moral dessa atitude. O que era errado e conservador, no passado, torna-se hoje cada vez mais reacionário.

Qualquer que tenha sido a situação, há 50 ou 100 anos atrás, o atual movimento revolucionário não tem como objetivo produzir as condições do comunismo, já plenamente criadas pelo capital. Nosso objetivo é a comunização imediata da sociedade. O capital invadiu e dominou nossas vidas na mesma medida em que – pelo menos nos países desenvolvidos –hoje somos revolucionários porque não podemos mais suportar nossa relação com o trabalho, os amigos, o ambiente... Queremos transformar o mundo porque se torna cada vez mais difícil nos realizarmos e nos afirmarmos nele. A necessidade mais importante do ser humano, o outro ser humano, aparece ao mesmo tempo fechada e distante.

O comunismo, isto é, a comunidade humana, está próximo: só a inércia da sociedade o impede de emergir. Mas sua base está aí. As relações sociais capitalistas são poderosas, mas frágeis. O capital precisa desviar completamente os impulsos sociais da revolução para a política, da atividade revolucionária que busca realizar as necessidades das pessoas para a atividade política que despreza essas necessidades. Por exemplo, as pessoas querem controlar suas próprias vidas, que são reguladas pela lógica da produção de mercadorias e valor. Os grupos políticos explicam que a alternativa é a democracia real, ou o governo operário, ou mesmo a anarquia. Eles querem alterar o aparato de decisão, não as relações sociais que o determinam. Eles sempre reduzem as aspirações sociais ao problema do poder, alegando que tudo mudará quando ele for solucionado. E que o poder deve ser dado a um partido proletário, às massas ou distribuído a todos. O militante individual e os grupos políticos sofrem de um desvio de personalidade. Eles exprimem todos os problemas reais em termos de poder. Mas hoje os revolucionários rechaçam o estilo e a atitude militante. 1

Mas isso é só uma parte da questão. A revolução é a comunização da sociedade, mas este processo é mais do que a soma de ações diretas. Nossa tarefa não é mais política, porque tornou-se desnecessário organizar o desenvolvimento das forças produtivas ou manter e apoiar esse desenvolvimento com a ação coercitiva do proletariado sobre a pequena burguesa (como foi dito por Marx em 1875, na Crítica do Programa de Gotha). Mas nossa ação ainda é política, de maneira negativa. É verdade, o capital será destruído pela subversão geral pela qual as pessoas se apropriam de sua relação com o mundo. Porém, nada de decisivo será alcançado enquanto o Estado (isto é, todos os Estados) mantiver algum poder. Esta sociedade não apenas consiste numa rede de relações sociais: esta rede é centralizada numa força que concentra o poder para preservar esta sociedade. Como força central, o Estado deve ser destruído pela ação centralizada aliada com a ação que destrói o poder em toda parte. Ambas são necessárias. É óbvio que seria totalmente absurdo fundar uma organização central agora. Mas coordenação e preparação para as tarefas da revolução já são necessárias. Qualquer posição diferente é superficial e ingênua. A questão militar é importante e deve ser considerada.

O capitalismo se contentaria de nos ver mudando nossas vidas localmente, enquanto ele se perpetua globalmente. Isto não é pura teoria. O capital fez nossas vidas tão miseráveis que muitos tentarão modificar suas vidas pessoais numa revolução futura. É tolice dizer que o capitalismo é fraco. Pelo contrário, ele pode tolerar qualquer coisa (destruição da família, da hierarquia e até das relações mercantis numa escala limitada) desde que essas mudanças não o impeçam de realizar seu ciclo de acumulação. A revolução paralisará o capitalismo, mediante o desenvolvimento de relações comunistas diretas e a destruição de seu poder militar.

Hoje, a subversão implica a luta permanente contra todas as formas de militantismo e política. O movimento comunista não é apolítico, mas antipolítico. E combate o Estado e os grupos que, situando-se como mediações entre o proletariado e o comunismo, acreditam e fazem as pessoas acreditarem em soluções políticas.

Certamente, tais grupos são diferentes de um país para outro. Na França e na Itália, os tradicionais partidos comunistas são muito poderosos e os sindicatos que controlam diferem dos sindicatos americanos, ingleses ou norte-europeus. Então, o texto sobre "A Luta de Classes e seus Aspectos mais Característicos" pode parecer irrelevante para os contextos americano, alemão ou inglês. Mas o processo essencial é o mesmo. Quando falamos no fim do reformismo, estamos nos referindo à tendência geral. Isso não significa que as lutas reformistas estão se tornando raras. Pelo contrário, muita gente, dentro e fora da classe operária, luta por reformas. Mas essas lutas são manifestações de um profundo movimento para o comunismo. É verdade que, estatisticamente falando, só uma minoria está envolvida. Pode ser facilmente demonstrado que a greve de Lordstown, nos EUA, em 1972, foi excepcional; embora tenha sido sintomática de uma tendência social.

O atraso da França e da Itália com relação aos EUA e à Inglaterra criou algumas mediações que não funcionam como as de outros países. A política ainda é muito tradicional na França e na Itália: a esquerda e a extrema esquerda ainda pretendem se opor ao Estado e têm alguma capacidade para organizar as pessoas. Em outros países, muitos grupos extremistas desapareceram (o SDS americano e alemão, por exemplo). Mas estas são diferenças menores.

A dificuldade consiste em ir além do "marxismo" tradicional sem rejeitar conceitos relevantes. Não basta compreender que Marcuse, Mandel, Sweezy e Magdoff dificilmente têm algo a ver com comunismo, e "retornar à Marx". Também é preciso ver o que realmente mudou e que partes da teoria comunista precisam ser adaptadas à luz da situação atual.

Uma das nossas tarefas principais é imaginar o comunismo. Por exemplo, os países subdesenvolvidos - para usar um vocabulário capitalista - não terão que organizar um estágio de industrialização similar ao que os países industrializados experimentaram no passado. Em muitas partes da Ásia, África e da América Latina, o capital ainda não subjugou completamente o trabalho à sua dominação. Velhas formas de vida social ainda existem (por quanto tempo?). O comunismo dará a elas novo nascimento - com a ajuda da tecnologia "ocidental", mas aplicada de uma maneira totalmente diferente do modo como ela foi usada no Ocidente. O fato de que proletários dos países subdesenvolvidos não podem criar o comunismo sem se rebelarem não nos deve levar a subestimá-los. Devemos mostrar a natureza capitalista da China e do Vietnã do Norte, que desenvolveram o trabalho assalariado. Mas devemos também examinar o papel que os proletários da Ásia desempenharão numa revolução futura. A insurreição no Ceilão de 1971 foi realmente um movimento moderno 2. A utopia está de volta. Já podemos ouvir notícias de todos os lugares.

Prefácio à Edição Japonesa do nº1 e nº2 de Le mouvement communiste (1972)

O boletim Le mouvement communiste 3 é uma das expressões da atual tendência revolucionária na França, onde, como por toda parte, o que usualmente é conhecido como marxismo não tem nada a ver com revolução. Num mundo que está de pernas para o ar por razões históricas analisáveis, há países "socialistas" onde trabalhadores assalariados são explorados em nome do "comunismo", e "partidos comunistas" que são nacionalistas, totalmente reformistas e que apóiam o capitalismo de todas as maneiras possíveis. O comunismo se tornou sinônimo de trabalho duro e de obediência aos chefes "socialistas". Existem Partidos Comunistas imperialistas e colonialistas. Assim, a primeira condição para e mínima ação revolucionária é romper decisivamente com todas as formas de marxismo oficial, quer venha dos PCs ou de intelectuais ultra-esquerdistas. O marxismo oficial é parte da sociedade capitalista, tanto em sua teoria como em sua prática. Comprometer-se nesse terreno significa aliar-se com o capital. Isto pode parecer claro para muitas pessoas (quem não criticou o PC?), mas requer mais do que apenas um acordo geral e vago.

A longa contra-revolução que sucedeu ao movimento revolucionário posterior à primeira guerra mundial está finalmente chegando ao fim, um novo movimento está surgindo. Mas o capital tenta integrá-lo e se prepara para destruí-lo violentamente, caso não o consiga. A reemergência da revolução é acompanhada por muitas formas de crítica aparente que não vão ao coração da questão e conseqüentemente ajudam o capital a se adaptar. Ora, as pessoas se tornam revolucionárias através de diversas experiências, e não de um dia para o outro. Mas já podemos ver o crescimento de organizações e grupos que tentam juntar as pessoas com reivindicações parciais para não ir além. Elas dizem querer retornar aos princípios revolucionários, mas os ignoram. Suas idéias não têm nada a ver com comunismo: são uma mistura de gestão democrática ou controle operário com automação e uma reorganização parcial da sociedade. Em outras palavras, nada mais são do que o auto-retrato retocado do capital. Na prática, apóiam "criticamente" o PC oficial, ou mesmo os partidos socialistas, a União Soviética, China etc. Esses grupos são contra-revolucionários. O argumento de que eles organizam os trabalhadores é irrelevante: os PCs fazem a mesma coisa, o que não os impede de fuzilar os trabalhadores quando acham necessário. O trotskismo, o maoísmo, mesmo o anarquismo em suas formas mais burocráticas e degradadas, são contra-revolucionários.

Este não é um ponto de vista sectário. Grupos organizados e permanentes dentro do movimento operário, que têm um programa e prática não-comunista ou anticomunista, são os nossos piores inimigos. O inimigo interno é sempre mais perigoso do que o externo. Esta é a verdade sobre os PCs. Mas isto também se aplica à maioria dos grupos ultra-esquerdistas.

O passado ensina que uma clara linha de demarcação é necessária. A situação antes da segunda guerra mundial pode ser resumida assim: o capital só se recuperaria através de uma longa guerra generalizada. A Rússia foi forçada a desenvolver o capitalismo, depois da derrota da revolução na Europa: estava pronta para se aliar com um lado ou outro de acordo com seus interesses estatais. Alemanha, Itália e Japão eram fascistas. Nas democracias ocidentais, partidos socialistas e "comunistas" cuidavam de reunir as massas e persuadi-las de que aquela guerra não seria imperialista como a anterior, mas uma guerra para libertar o mundo dos horrores do fascismo. O trotskismo também apoiou este ponto de vista. A maioria dos trotskistas alinhou-se com o bando imperialista democrático contra o bando imperialista fascista, a Alemanha e o Japão. Contudo, o triunfo da democracia em 1945 foi tão destrutivo e horrível quanto o fascismo. As pessoas já não morrem mais em campos de concentração - exceto onde ainda existem campos de concentração, como na Rússia, Vietnã do Sul etc. Mas milhões morrem de fome. A extrema esquerda (Trotsky e muitos outros) ajudou o capital a resolver seu problemas. A luta contra os grupos e indivíduos contra-revolucionários é, mais do que útil, necessária. Marx teve de lutar contra Proudhon. Lênin, Pannekoek, Bordiga tiveram de lutar contra Kautsky. Pannekoek e Bordiga tiveram de lutar contra Lênin e depois contra Trotsky.

O movimento comunista atual precisa apreender com seu passado. Ou seja, saber o que realmente aconteceu em 1917-21 e depois. A transição para o comunismo não consistirá no maior desenvolvimento da produção: o capital já realizou isso. A fase transitória consistirá na imediata comunização da sociedade e na luta armada contra o Estado e o velho movimento operário. O poder militar do capital se tornou tão eficiente que não pode ser subestimado. E a classe operária é tão importante que se torna vital para o capitalismo controlá-la: este é o papel dos sindicatos e partidos operários. Devemos nos preparar para lutar contra esses inimigos, não necessariamente estocando armas, mas atacando-os radicalmente agora, na teoria assim como na prática.

Isto só é possível através da análise e do desenvolvimento positivo do programa comunista: abolição do mercado; criação de novas relações sociais, nas quais a produção não mais domina a totalidade da vida mas se integra nela; destruição da economia enquanto tal, da política como tal, da arte enquanto tal etc.

Ao falar de teoria, podemos e devemos usar as obras de Marx (o que inclui a tradução e a publicação delas quando ainda não estão disponíveis). Nosso lema é: não leia os marxistas, leia Marx! Também é útil estudar os textos daqueles que resistiram à contra-revolução: Pannekoek, Bordiga etc., que eram limitados de muitas maneiras por concepções erradas, mas foram relevantes para nossos problemas. Outros grupos, como a Internacional Situacionista, também são importantes, embora tenham uma compreensão insuficiente do capital. É importante para os revolucionários em cada país estudar o passado revolucionário desse país, assim como suas formas atuais. Contatos e troca de experiências são também vitais.

Essa atividade implica uma radical ruptura com a política. Os revolucionários não apenas têm idéias (ou mesmo ações) diferentes dos pseudo-revolucionários. A própria maneira que eles desenvolvem é diferente. O pseudo-revolucionário sempre tenta arrebanhar e tornar-se representante de um grande número de pessoas, para assim ter algum poder nesta sociedade. A revolução exige justamente o oposto. Não objetivamos representar as pessoas, seja para dirigi-las ou servi-las. Os comunistas não têm tropas fora do "exército" vermelho na guerra comunista revolucionária.

O comunistas não são isolados do proletariado. Sua ação nunca é uma tentativa de organizar os outros; é sempre uma tentativa de expressar sua afirmação subversiva ao mundo. Finalmente, todas as iniciativas revolucionárias terão de ser coordenadas. Mas a tarefa revolucionária não é primariamente a de organização; é expressar (num texto ou numa ação) uma relação subversiva com o mundo. Efetivamente, por grande ou pequena que seja, esta ação é um ataque contra o velho mundo.

ANTEMUNDO SEM FUTURO (1997)

O IMPROVÁVEL

Um dos melhores filmes sobre a luta de classes é uma sarcástica e incisiva tomada de dez minutos, feita em 10 de junho de 1968, fora do portão da Wonder Factory - uma fábrica de baterias - nos subúrbios de Paris. A maioria dos trabalhadores era formada por mulheres, mão-de-obra não-especializada, mal paga, menosprezada e que manuseava dejetos químicos. Eles iniciaram a luta em 13 de maio e ainda estavam em greve, quando foram filmados. As concessões que arrancaram do patrão foram muitas, em termos de melhores condições de trabalho, e poucas, considerada a energia posta na luta. No meio do grupo que discutia está uma mulher, com seus vinte anos, que, meio gritando, meio chorando, diz: "Não, não estou retornando. Eu nunca mais porei meus pés ali de novo! Vá lá e veja você mesmo o chiqueiro que é... aquela sujeira onde trabalhamos..."

Em 1996, um documentário entrevistou pessoas envolvidas naquela luta: homens e mulheres trabalhadores, capatazes, um datilógrafo trotskista, representantes de vendas, ativistas sindicais, o chefe do partido comunista local que tentou convencer a jovem mulher a retornar ao trabalho. Ela, porém, não deixou rastros. Poucos se lembravam bem dela. Ela deixou a fábrica logo depois dos eventos e ninguém sabe o que aconteceu com ela e nem seu nome inteiro, só o seu primeiro nome: Jocelyne.

Ficamos com uma questão decisiva não respondida, a questão posta por Jocelyne: na vida pacífica "normal", os hábitos e normas pesam sobre nós, e é quase inevitável se submeter. Mas quando milhões de grevistas constroem um força coletiva, tornam indefeso o Estado e sem valor o discurso da mídia, levam um país à beira da mudança total, e percebem que lhes é dado um aumento de salários que logo será devorado pela inflação... Percebem, também, para o que retornam, agora que sabem da miséria que os aguarda, nos próximos trinta anos?

Alguns responderão que Jocelyne e seus companheiros de trabalho não estavam esclarecidos, ou não encontraram a verdadeira luz, alguns afirmarão que os operários sofrem com a ausência de organização, outros que eles falham espontaneamente, enquanto outros especialistas dirão que maio de 68 foi levado à derrota porque a evolução capitalista não criou ainda os pré-requisitos da...

Os ensaios a seguir não solucionam o problema - isto não é um exercício de matemática ou adivinhação, em que teríamos de encontrar a resposta certa. Eles apenas levantam estas e outras questões.

De fato, um dos textos, A Luta de Classes e seus Aspectos mais Característicos nos Anos Atuais, foi primeiramente concebido não muito depois que a fábrica Wonder, como muitas outras, retornou ao trabalho. Leninismo e Ultra-esquerda vem de 1969. Capitalismo e Comunismo foi escrito em 1972, a pedido de vários operários, que o fizeram circular, na Renault.

WALL STREET VERSUS MURO DE BERLIM

Todos os três ensaios pretendem reafirmar o comunismo contra uma ideologia denominada "marxismo" - oficial, acadêmico ou esquerdista.

Por que nos dizemos comunistas? Quanto mais um termo significa, tanto mais ele é deturpado pela ideologia. Como "liberdade", "autonomia", "humano" e inúmeras outras, a palavra comunismo foi distorcida, virada ao avesso, e é hoje sinônimo de vida sob um Estado benevolente/ditatorial totalitário. Somente um despertar comunista - livre, autônomo, humano – devolverá significação a essas palavras.

Embora o senso comum proclame que o pensamento radical está superado, os últimos 25 anos oferecem uma prova ampla de sua relevância.

O QUE ESTÁ SUPERADO?

A luta de classes? Não é necessário ler 2000 páginas de Marx para entender que os despojados dos meios de produção têm lutado contra (e geralmente tem têm sido derrotados por) aqueles que os oprimem.

O valor, definido pelo tempo socialmente necessário para fabricar as mercadorias? O capitalismo é obcecado pela redução do tempo! Informática, auto-estradas e telefones celulares aumentam a velocidade da circulação. Trabalho, consumo e lazer aceleram cada ato da vida, num fluxo cada vez mais rápido. Paul Virilio assinala que a economia não produz somente objetos, mas velocidade e objetos, na medida que produzem velocidade. Embora não se reivindique marxista, Virilio descreve um mundo que se orgulha de reduzir o tempo necessário para produzir e consumir tudo, um mundo que se orienta para o tempo mínimo - pelo valor.

O lucro que age como a força dirigente deste mundo? Qualquer um que tenha perdido seu emprego, depois de dar 20 anos de sua vida a uma empresa, pode ver que o capital é valor acumulado buscando constantemente se incrementar e que destrói seja o que for que o impeça disso.

O decrescente número de operários de fábrica no ocidente, a queda do muro de Berlim, e o encolhimento dos grupos de extrema-esquerda significam a ruína final do comunismo somente para aqueles que retrataram os operários como o sal da terra, igualaram socialismo e economia planificada, e se entretiveram marchando na rua com uma bandeira do Vietnã do Norte.

O colapso dos assim chamados países socialistas mostrou como a economia domina. O ocidente e o oriente passaram, de um extremo ao outro, por crises de acumulação. A recuperação da lucratividade exigiu um novo mecanismo de produção em Cleveland, um novo regime político no Kremlin. O capitalismo de Estado não faliu porque as pessoas estavam fartas do totalitarismo, mas quando tornou-se incapaz de manter e dar substância à sua opressão.

A planificação econômica centralizada só funcionava para desenvolver indústrias de bens de capital. E o poder burocrático residiu num compromisso com os camponeses, por um lado, e com os operários, por outro (emprego vitalício e um mínimo de previdência social, em troca de submissão política: mesmo os expurgos periódicos contribuíram para a promoção social e assim para o apoio operário aos burocratas). Isso pode ter ido bem na Rússia, em 1930, mas não em 1980 - para não falar da Alemanha Ocidental ou Tchecoslováquia, em 1980. O capitalismo necessita de alguma forma de pólos de valor acumulado conflitantes, e portanto de uma certa quantidade de concorrência política e econômica.

A quebra da URSS não é a refutação definitiva de Marx, mas a verificação de Das Kapital. O politburo podia burlar seu mercado interno, mas não escapou das pressões do mercado mundial. É o mesmo mercado que força a demissão de milhares de proletários em Liverpool e põe abaixo os diques burocráticos que bloqueavam o fluxo de dinheiro e mercadorias em Moscou. O espectro ainda nos ronda, o Wall Street Journal escreveu em 1991, se referindo ao Manifesto de 1848: "A análise de Marx pode ser aplicada à surpreendente desintegração dos regimes comunistas, construídos sobre as fundações de seu pensamento mas infiel às suas prescrições."

1968 E TUDO AQUILO

No passado, houve revoltas operárias que enfrentaram abertamente tanto o Estado quanto o movimento operário institucionalizado. Muitas delas violentas, por exemplo, depois da primeira guerra mundial. Mas, por volta de 1970, a sublevação foi mais global e profunda. Ao contrário de 1871, 1917-21 ou 1936-37, nos países industrializados, o capital subordinou a totalidade da vida, transformando cada vez mais atos e relações cotidianas em mercadorias, unificando a sociedade sob sua dominação. A política, enquanto programas políticos opostos, caiu em desuso. Em 68, os sindicatos e partidos operários franceses foram capazes de sufocar uma greve de 3 semanas, feita por 4 a 5 milhões de trabalhadores, mas não podiam mais apresentar uma plataforma alternativa à dos partidos "burgueses". Quem atuou na greve geral não esperava mais de um possível governo de esquerda do que um pouquinho de bem-estar. Economia mista era a ordem do dia: com ênfase na intervenção do Estado quando a esquerda governasse; ou das forças do mercado, quando os votos favorecessem a direita.

As relações mercantis passaram a mediar as mais simples necessidades humanas. O sonho americano é de quem for rico o bastante para ele. Mas o carro atraente nunca é o que você comprou, mas o do comercial na TV. As mercadorias são sempre melhores nos cartazes. Enquanto o paraíso operário ao estilo russo deixou de ser válido, o céu do consumidor pareceu incansável - pela natureza. Dessa forma, nenhum futuro seria encontrado através da fábrica: nem o pesadelo do outro lado da cortina de ferro, nem o sonho deste lado. Como resultado, o local de trabalho já não é mais onde se começa a construir um mundo melhor. Embora o livro da Internacional Situacionista, A Sociedade do Espetáculo, tivesse poucos leitores naquele tempo, sua publicação (em 1967) foi precursora das críticas posteriores. É verdade que aquele período também foi de sindicalização para muitos trabalhadores oprimidos e mal pagos que finalmente a conseguiram no século XX. Só uma minoria da classe operária recusou a sociedade, rebeldes com uma causa, à margem da força de trabalho, especialmente o jovem. Mas a onda mundial de greve e rebelião permanece incompreensível sem sua característica subjacente: recusa massiva da fábrica e da vida oficial. "Quem quer trabalhar?", perguntava Newsweek em meados dos anos 70.

Até agora, quase todos os grevistas ocuparam o local de trabalho e não foram além. De todos os gestos de transgressão: a tomada dos serviços de gás e de transporte por grevistas poloneses em 1971, a auto-redução italiana, ocupações, greves "sociais" (motoristas de ônibus, pessoal de hospital e caixas de supermercado provendo transporte, tratamentos de saúde e alimentação gratuita, eletricitários cortando fornecimento para burocratas ou empresas, e milhares de outros exemplos) - dificilmente algum poderia ter sido um começo de comunização. A interrupção do trabalho e a violação da mercadoria não se fundiram num ataque ao trabalho como mercadoria, ou seja, ao trabalho assalariado como tal. Desde a prisão até a educação infantil, tudo esteve sob fogo, mas o assalto permaneceu fundamentalmente negativo.

A falta de iniciativas criadoras para transformar a sociedade permitiu a manutenção do capitalismo. As sublevações históricas não tiveram data de nascimento ou morte, mas certamente a da Fiat foi mais do que um símbolo - um marco. Durante anos, a empresa de Turim sofreu interrupções constantes das linhas de montagem, absenteísmo em massa e assembléias. Porém, a desordem organizada não superou positivamente a negação. Assim, os gestores foram capazes de atacar uma (razoavelmente grande) minoria, com a ajuda passiva de uma exausta maioria temerosa por seus empregos. Os radicais romperam com a lógica social, mas não a transformaram em algo novo. As ações violentas (mesmo armadas) gradualmente se desconectaram do chão de fábrica. Em 1980, a companhia demitiu 23.000 dos 140.000 operários. A greve parou a fábrica por 35 dias, no fim dos quais 40.000 operários da Fiat tomaram as ruas. Então os sindicatos assinaram um compromisso pelo qual os 23.000 receberam indenização do Estado. Depois, muitos milhares seriam demitidos pela reestruturação.

BLUES DOS PROLETÁRIOS TRISTES

Desde então, as derrotas da classe operária se deveram à sua posição defensiva contra um inimigo constantemente móvel. Apesar de firmemente entrincheirada nas minas e oficinas, a militância operária não resistiu à reestruturação. O trabalho é forte na medida em que é necessário ao capital. Ou, então, pode manter-se, durante algum tempo, com apoio do resto da comunidade operária, e permanecer como um contingente de força de trabalho não lucrativa. Nos anos 70 e 80, os operários tinham número e organização, mas foram derrotados porque a economia os privou de sua função, que é a sua arma social. Nada forçará o capital a empregar trabalho que não é útil para ele.

Ao mesmo tempo, os autônomos "comitês de ação", "grupos de base" etc., que eram os órgãos da atividade de base dentro e fora do local de trabalho, desapareceram. Quando novos organismos de coordenação surgiram, nas greves nas ferrovias (1986) e de enfermeiros (1988) na França, não sobreviveram e se dissolveram (muitos poucos doaram sua energia aos recentemente formados sindicatos de base e foram integrados pelo capital).

Durante anos, os proletários da linha de montagem se recusaram a ser tratados como robôs, enquanto uma minoria rejeitou o trabalho e a sociedade de consumo. O capital respondeu instalando robôs, suprimindo milhões de empregos e renovando, intensificando, adensando o que restou de trabalho não especializado. Ao mesmo tempo, um desejo generalizado de liberdade foi convertido em liberdade de comprar. Em 1960, quem imaginaria o cartão de crédito? Seu dinheiro - sua liberdade... Os famosos slogans de 68: Nunca trabalhe! Exija o impossível! foram ridicularizados quando as pessoas se viram forçadas a se agarrar a seus empregos e lhes foram ofertadas sempre mais abundantes e frustrantes mercadorias para comprar.

Muitos comparam a situação de hoje à dos anos 20 e 30, incluída a ameaça fascista. Mas, diferentemente das insurreições e da contra-revolução armada que ocorreram entre 1917 e a segunda guerra mundial, o atual refluxo proletário foi uma lenta e demorada absorção de grandes setores da classe operária no desemprego e no trabalho precário. Se há esperança, ela está com os proles, disse Winston (personagem de Orwell, no livro 1984). É como se muitos dos proles de 1994 tivessem surgido alguns anos antes dessa data, tomassem o mundo em suas mãos e se recusassem aceitá-lo ou mudá-lo. Décadas antes, seus avós se aprisionaram atrás dos portões de fábrica (Itália, 1920), muitas vezes com armas. Lutaram e morreram, mas as propriedades sempre terminaram com os patrões.

Não há como negar essa derrota. O capitalismo vence, mais fluído e imaterial do que há 25 anos, universalizando tudo de uma maneira abstrata, passiva, televisiva, negativa. Num comercial dos anos 60, o operário da fábrica de automóveis vê a foto de um novo carro e se maravilha: "Quem fez este modelo?" Em tempo parcial ou flexível, o operário da fábrica de automóveis do ano 2000 assistirá Crash na TV, enquanto seu filho joga um vídeo com programas baixados por ele mesmo. A humanidade nunca foi tão unida e dividida. Bilhões de pessoas vêem as mesmas imagens e têm vidas cada vez mais separadas. As mercadorias são produzidas em massa e indisponíveis. Em 1930, milhões de pessoas foram demitidas devido ao colapso econômico. Hoje, recebem pensões numa fase de crescimento, porque a recuperação da economia é capaz de produzir lucros sem eles. De fato, resolvida a crise de lucratividade dos anos 70, a maioria dos capitalistas está em melhor situação do que antes. O paradoxo é que a produtividade do trabalho cresceu tanto que o capital não necessita de empregar mais trabalho para se valorizar.

ALTAS ESPERANÇAS...

O movimento operário que existia em 1900 ou em 1936, não foi esmagado pela repressão fascista nem comprado por eletrodomésticos. Ele se destruiu como força de transformação porque tentou preservar a condição proletária, e não superá-la. Na melhor das hipóteses, conseguiu uma vida melhor para as massas fatigadas, na pior, foi lançado em duas guerras mundiais. Agora, tudo isso pertence ao passado. A popularidade dos filmes sobre cultura operária significa sua passagem da realidade para as lembranças e museus. Os stalinistas fizeram da social-democracia uma centro-esquerda. Tudo move para a direita e os trotskistas logo se chamariam de democratas radicais. O que outrora era um ambiente revolucionário é preenchido por fatalismo e nostalgia. Quanto a nós, não temos saudades de um tempo em que Brejnev era chamado de comunista e milhares de jovens pararam as ruas cantando A Internacional quando estavam de fato apoiando grupos que procuravam ser a esquerda da esquerda.

A proposta do velho movimento operário era tomar o poder sem transformar a sociedade, limitando-se a geri-la de outra maneira: pondo o preguiçoso à trabalhar, desenvolvendo a produção, introduzindo a democracia operária (no princípio). Somente para uma minúscula minoria, "anarquista" bem como "marxista", uma sociedade diferente significa a destruição do Estado, da mercadoria e do trabalho assalariado, embora ela raramente tenha definido isso como processo, mas como um programa a pôr em prática depois da tomada do poder, muitas vezes depois de um longuíssimo período de transição. Esses revolucionários não apreenderam o comunismo, como movimento social cuja ação mina os fundamentos do poder de classe e do Estado, e o potencial subversivo das relações fraternas, abertas e comunistas que reemergiram em cada profunda insurreição (Rússia, 1917-19; Catalunha, 1936-37...).

Não há mais necessidade de criar as precondições capitalistas do comunismo. O capitalismo está em toda parte, muito menos visível do que há 100 ou 50 anos, quando as diferenças de classe se revelaram ostensivamente. O trabalhador manual identificou num relance o proprietário da fábrica, conheceu ou pensou que conheceu seu inimigo, e percebeu que estaria numa situação melhor no dia em que ele e seus companheiros conseguissem se livrar do patrão. Hoje, as classes ainda existem, mas ocultas por infinitos graus de consumo, e ninguém espera da propriedade estatal da indústria um mundo melhor. Hoje, o "inimigo" é uma relação social impalpável, abstrata embora real, que tudo permeia e está em toda parte: os proletários são aqueles que produzem e reproduzem o mundo, podem romper com ele e revolucioná-lo. O objetivo é a imediata comunização, não totalmente completada antes de uma geração ou mais, mas iniciada já. O capital invadiu a vida, determina como nós alimentamos nosso gato, visitamos nossos amigos e, nessa mesma medida, nosso objetivo só poderia ser a fábrica social, invisível, totalitária, impessoal (ainda que o capital saiba como usar pessoas para defendê-lo, a inércia social é uma força mais conservadora do que a mídia e a polícia). A comunidade humana é acessível: sua base social está presente, muito mais do que há um século. Só a passividade impede sua emergência. Nossa necessidade vital, o nosso outro, parece tão fechada e distante ao mesmo tempo. Os vínculos mercantis são igualmente fortes e fracos.

As rebeliões de Los Angeles em 1991 ultrapassaram as de Watts em 1965. A sucessão de rebeliões nos EUA revela uma fração significativa da juventude que não pode ser integrada. Aqui e ali, apesar do desemprego em massa, os trabalhadores não querem ser chantageados, nem aceitar diminuições dos salários em troca da criação de empregos. Os proletários coreanos demonstraram que a "empresa mundial" difunde agitação fabril ao mesmo tempo que lucros, e a "atrasada" Albânia pariu uma revolta moderna. Quando uma importante minoria que está farta da realidade virtual começar a realizar as possibilidades, a revolução emergirá de novo, terrível e anônima.

Isto é dedicado à Jocelyne, a proletária anônima.

1997

1. Capitalismo e comunismo

Capítulo 1 do livro Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista.

O comunismo não é um programa que se coloca em prática ou que se faz outros colocarem em prática, mas um movimento social. Aqueles que desenvolvem ou defendem o comunismo teórico não têm qualquer vantagem sobre os outros, exceto uma clara compreensão e uma expressão mais rigorosa; assim como todos os outros que não estão preocupados com a teoria, eles sentem a necessidade prática do comunismo. Eles não têm nenhum privilégio; não trazem o conhecimento que colocará a revolução em ato. Mas, por outro lado, não têm medo de se tornar “líderes” explicando suas posições. A revolução comunista, como todas as revoluções, é o produto de necessidades e condições de vida reais. O problema é lançar luz sobre um movimento histórico existente.

O comunismo não é um ideal a ser realizado: ele já existe, não como uma sociedade, mas como um esforço, uma obra que se prepara. É o movimento que busca abolir as condições de vida determinadas pelo trabalho assalariado, e as abolirá pela revolução. A discussão do comunismo não é acadêmica. Não é um debate sobre o que será feito amanhã. É parte integrante de toda uma série de tarefas imediatas e distantes, das quais a discussão é somente um aspecto, uma tentativa de adquirir compreensão teórica. Inversamente, as tarefas serão realizadas mais fácil e eficazmente se pudermos responder a questão: aonde estamos indo?

Não contestamos os PC’s, os vários tipos de socialistas, a extrema-esquerda etc. cujos programas meramente modernizam e democratizam todos os aspectos existentes do mundo atual. A questão não é que esses programas não são comunistas, mas que são capitalistas.

As explicações neste texto não se originam do desejo de explicar. Elas não existiriam desta forma e algumas pessoas não teriam se juntado para elaborá-las e publicá-las, se as contradições e as lutas sociais práticas que despedaçam a sociedade contemporânea não mostrassem a nova sociedade se formando no seio da velha, forçando as pessoas a tomar consciência dela.

A) O trabalho assalariado como relação social

Se olharmos a sociedade moderna, é evidente que, para sobreviver, a grande maioria das pessoas é forçada a vender sua força de trabalho. Todas as capacidades físicas e intelectuais dos seres humanos, suas personalidades reais, que poderiam ser acionadas para produzir coisas úteis, só podem ser usadas se elas são vendidas ou trocadas por salários. A força de trabalho é uma mercadoria como as outras. A existência da troca e do trabalho assalariado parece normal, inevitável. Contudo, a introdução do trabalho assalariado exigiu violência e foi acompanhada por conflitos sociais. A separação dos trabalhadores dos meios de produção, que se tornou um fato da vida, aceito como tal, foi o resultado de uma longa evolução e se realizou pela força.

Na Inglaterra, na Holanda, na França, do século XVI em diante, a violência econômica e política expropriou artesãos e camponeses, reprimiu a indigência e a mendicância, impôs o trabalho assalariado ao pobre. No século XX, entre 1930 e 1950, a Rússia decretou um código de trabalho que incluía a pena de morte para organizar a passagem de milhões de camponeses ao trabalho assalariado industrial em poucas décadas. Aparentemente, fatos normais: que um indivíduo nada tem senão sua força de trabalho, que deve vendê-la à uma empresa para ser capaz de sobreviver, que tudo é mercadoria e as relações sociais giram em torno da troca, são o resultado de um longo e violento processo.

Através da instituição escolar, da vida política e ideológica, a sociedade contemporânea esconde a violência passada e presente sobre a qual repousa. Esconde tanto sua origem quanto o mecanismo que lhe permite funcionar. Tudo parece ser o resultado de um livre contrato em que o indivíduo, como vendedor de força de trabalho, se vê na fábrica, na loja ou no escritório. A existência da mercadoria parece ser um fenômeno óbvio e natural. Mas causa maiores ou menores desastres periódicos: mercadorias são destruídas para manter os preços, capacidades instaladas não são utilizadas – no entanto, necessidades elementares não são satisfeitas. Os dois pilares da sociedade moderna, troca e trabalho assalariado, não são somente a fonte de desastres periódicos e constantes, mas também criam as condições que fazem possível outra sociedade. O mais importante é que forçam uma parcela da humanidade a se revoltar contra eles, e a realizar esta possibilidade: o comunismo.

Por definição, toda atividade humana é social. A vida humana somente existe em grupos, através de numerosas formas de associação. A reprodução das condições de vida é uma atividade coletiva desde o início: tanto a reprodução dos seres humanos quanto a reprodução de seus meios de existência. Na verdade, o que caracteriza a sociedade humana é o fato de que ela produz e reproduz as condições materiais de sua existência. Alguns animais usam ferramentas, mas somente o homem faz suas ferramentas. Entre o indivíduo ou grupo e a satisfação das necessidades surge a mediação da produção, da atividade, que continuamente modifica as maneiras de agir e transformar o ambiente. Outras formas de vida - as abelhas, por exemplo - fazem suas próprias condições materiais, mas, ao tanto quanto o homem pôde estudá-las, sua evolução parece estagnada. A atividade humana, pelo contrário, está continuamente mudando a apropriação e assimilação do ambiente humano. A relação entre os homens e a “natureza” é também uma relação entre os homens, e depende de suas relações de produção, assim como as idéias que eles produzem, a maneira como concebem o mundo, dependem de suas relações de produção.

A transformação da atividade acompanha a transformação do contexto social em que ela ocorre, isto é, as relações entre as pessoas. As relações de produção nas quais as pessoas entram são independentes de sua vontade: cada geração se confronta com condições técnicas e sociais deixadas pelas gerações passadas. Mas pode alterá-las, além dos limites permitidos pelo nível das forças produtivas materiais. O que as pessoas chamam de “história” não faz nada: a história é feita pelas pessoas, mas só na medida em que as possibilidades dadas permitem. Isso não significa que cada mudança importante nas forças produtivas é acompanhada automática e imediatamente por uma correspondente mudança nas relações de produção. Se isso fosse verdade, não haveria revoluções. A nova sociedade engendrada pela antiga somente aparecerá e triunfará através de uma revolução, destruindo toda a estrutura política e ideológica que até então permitia a sobrevivência de relações de produção obsoletas.

O trabalho assalariado foi outrora uma forma de desenvolvimento, não é mais. Há bastante tempo tem sido um obstáculo e mesmo uma ameaça para a existência da humanidade.

O que deve ser exposto, por trás dos objetos, das máquinas, as fábricas, dos proletários que nelas trabalham todo dia, das mercadorias que eles produzem, é a relação social que os regula, bem como sua necessária e possível superação.

B) A Comunidade e a destruição da comunidade

No começo, a humanidade vivia em grupos relativamente autônomos e dispersos, em famílias (no sentido mais amplo: a família agrupando todos aqueles do mesmo sangue), em tribos. A produção consistia essencialmente na caça, pesca e coleta. Os bens eram produzidos não para serem consumidos depois da troca, depois de postos num mercado. A produção era diretamente social, sem a mediação da troca. A comunidade distribuía o produto de acordo com regras simples, e todos recebiam diretamente o que ela lhes dava. Não havia produção individual, não existia separação entre os indivíduos, reunidos só depois da produção por um elo intermediário: a troca, isto é, a comparação entre os vários bens produzidos individualmente. As atividades eram impostas ao grupo pela necessidade e realizadas em comum; seus resultados eram repartidos em comum.

Muitas comunidades “primitivas” podiam acumular excedentes, mas simplesmente não se preocupavam. Como M. Sahlins apontou, a era da escassez muitas vezes significou abundância, com grande parte de tempo de ócio - embora aquele “tempo” tenha pouca relevância para o nosso. Viajantes e antropólogos observaram que a busca e armazenamento de comida tomavam uma pequena parte do dia. A “atividade” produtiva era parte de uma relação global do grupo com seu ambiente.

A maioria da humanidade evoluiu da caça-coleta para a agricultura, desenvolvendo excedentes, que as comunidades começaram a trocar. Esta circulação não podia ser realizada somente pela troca, isto é, levando em conta não no pensamento, mas na realidade, o que é comum aos vários bens que serão transferidos de um lugar a outro. Os produtos da atividade humana têm uma coisa em comum: eles são resultado de uma determinada quantidade de energia, tanto individual quanto social. Este é o caráter abstrato do trabalho, que não somente produz uma coisa útil, mas também consome energia, energia social. O valor de um produto, independente de seu uso, é a quantidade de trabalho abstrato que ele contém, ou seja, a quantidade de energia social necessária para produzi-lo. Uma vez que esta quantidade só pode ser mensurada em termos de tempo, o valor de um produto é o tempo socialmente necessário para produzi-lo, ou seja, o tempo social médio num momento dado de sua história.

Com o crescimento de suas atividades e necessidades, a comunidade produz não apenas bens, mas também mercadorias, bens que têm valor de uso e também valor de troca. Inicialmente, o comércio aparece entre comunidades, depois se introduz nas comunidades, fazendo surgir atividades especializadas, negócios, divisão social do trabalho. A natureza do trabalho muda. Com a relação de troca, o trabalho se torna trabalho duplo, produzindo valor de uso e valor de troca. O trabalho não é mais integrado na totalidade da atividade social, mas se torna um campo especializado, separado do restante da vida do indivíduo. O que o indivíduo faz para si e para o grupo é separado do que ele faz para trocar por bens de outras comunidades. A segunda parte de sua atividade significa sacrifício, constrangimento, perda de tempo. A sociedade se diversifica e se separa em vários e diferentes ofícios, e em trabalhadores e não-trabalhadores. Nesse estágio, a comunidade não existe mais.

A comunidade precisa da relação de troca para desenvolver e satisfazer suas crescentes necessidades. Mas a relação de troca destrói a comunidade. Ela faz as pessoas verem umas as outras e a si mesmas somente como fornecedores de bens. O uso do produto que fiz não mais me interessa; só me interessa o uso daquilo que conseguirei em troca. Mas, para o homem que me vende, este segundo uso não lhe importa, ele está apenas interessado no valor de uso do que eu produzi. O que é valor de uso para um é apenas valor de troca para o outro e vice-versa. 1 A comunidade desapareceu no dia em que seus membros se interessaram pelos outros somente na medida em que tinham um interesse material pelos outros. Não que o altruísmo deva ser a força dirigente do comunismo. Num caso, o movimento dos interesses leva os indivíduos a se juntar e agir em comum; no outro, individualiza-os e os força a lutar entre si. Com o nascimento da troca na comunidade, o trabalho não é mais a realização das necessidades pela coletividade, mas o meio de obter dos outros a satisfação das próprias necessidades.

Desenvolvendo-se a troca, a comunidade procura limitá-la. Ela tentou controlar e destruir os excedentes, estabelecendo regras estritas para controlar a circulação dos bens. Mas, enfim, a troca triunfou. Onde isso não aconteceu, a comunidade cessou de ser ativa e foi esmagada pela invasão da sociedade mercantil.

Enquanto os bens não são produzidos separadamente, enquanto não há divisão do trabalho, não se pode comparar os valores de dois bens, uma vez que são distribuídos em comum. O momento da troca, no qual os tempos de trabalho de dois produtos são mensurados e eles são então trocados, ainda não existe. O caráter abstrato do trabalho só aparece quando as relações sociais o exigem. Isso só pode acontecer quando, com o progresso técnico, torna-se necessário para o desenvolvimento das forças produtivas que os homens se especializem em ofícios e troquem seus produtos entre si e também com outros grupos, que se tornaram Estados. Com esses dois pré-requisitos do valor, o tempo de trabalho médio se torna um instrumento de medida. Na raiz deste fenômeno estão as relações práticas entre pessoas cujas necessidades reais se desenvolvem.

O valor não aparece porque é uma medida conveniente. Quando as relações sociais da comunidade primitiva são substituídas por relações mais amplas e diversificadas, o valor aparece como mediação indispensável das atividades humanas. Não surpreende que a média de tempo de trabalho socialmente necessário seja usada como medida, desde que nesse estágio o trabalho é o elemento essencial na produção de riqueza: é um elemento cujos diferentes produtos tem em comum - todos eles agregam uma certa quantidade de força de trabalho humano, sem considerar a maneira particular como essa força é usada. Correspondendo ao caráter abstrato do trabalho, o valor representa sua abstração, seu caráter geral e social, subtraído de todas as diferenças de natureza entre os objetos que o trabalho pode produzir.

C) Mercadorias

O progresso econômico e social aprimora a eficiência da organização humana e sua capacidade de associar os componentes do processo de trabalho - sobretudo a força de trabalho. Então, aparece a diferença (e a oposição) entre trabalhadores e não-trabalhadores, entre aqueles que organizam o trabalho e aqueles que trabalham. As primeiras cidades e os grandes projetos de irrigação surgiram desse incremento da eficiência produtiva. O comércio aparece como uma atividade especial: agora há homens que vivem não através da produção, mas pela mediação entre as atividades de unidades separadas de produção. Uma grande proporção de bens nada mais é do que mercadorias. Para serem usadas, para realizar o seu valor de uso, satisfazer uma necessidade, elas devem ser compradas, devem realizar seu valor de troca. Caso contrário, embora existam como objetos concretos e materiais, elas não existem do ponto de vista da sociedade. Não se tem o direito de usá-las. Este fato revela que a mercadoria não é apenas uma coisa, mas antes e sobretudo uma relação social regulada por uma lógica definida, a lógica da troca, e não a da satisfação das necessidades. O valor de uso é agora apenas o suporte do valor. A produção se torna uma esfera separada do consumo; o trabalho se torna uma esfera separada do não-trabalho. A propriedade é o quadro legal da separação entre as atividades, entre os homens, entre unidades de produção. O escravo é uma mercadoria para o seu proprietário, que compra um homem para o fazer trabalhar.

A existência de uma mediação (troca) no nível da organização da produção faz-se acompanhar pela existência de uma mediação no nível da organização das pessoas: o Estado é indispensável como força unificante dos elementos da sociedade, no interesse da classe dominante. A unificação é necessária pela destruição da coerência da comunidade primitiva. A sociedade é forçada a manter sua coesão criando uma instituição que se nutre dela.

A troca se torna visível e concreta com o nascimento do dinheiro. A abstração, o valor, se materializa no dinheiro, mercadoria que revela sua tendência a se tornar independente, a se destacar do que representa: os valores de uso, os bens reais. Comparado à simples troca: quantidade x do produto A por quantidade y de produto B, o dinheiro permite a universalização pela qual qualquer coisa pode ser adquirida, comprada, enquanto quantidade de tempo de trabalho abstrato. O dinheiro é o tempo de trabalho abstraído do trabalho e expresso numa forma durável, mensurável e transportável. O dinheiro é a manifestação visível, tangível, do elemento comum a todas as mercadorias. O dinheiro permite a seu proprietário comandar o trabalho de outros, a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo. Com o dinheiro, é possível escapar dos limites de tempo e espaço. Uma tendência para uma economia universal agia em torno de alguns grandes centros da antigüidade e da idade média, mas ela não se materializou. O recuo dos impérios e sua destruição ilustram essa sucessão de fracassos. Somente o capitalismo cria, a partir do século XVI, mas principalmente nos séculos XIX e XX, a base necessária para uma economia universal duradoura.

D) Capital

O capital é uma relação de produção que estabelece um laço totalmente novo e eficiente entre o trabalho vivo e o trabalho passado (acumulado pelas gerações anteriores). Mas, assim como o da troca, o surgimento do capital não é resultado de uma decisão ou plano, mas a conseqüência de relações sociais reais que levam a um desenvolvimento qualitativamente novo em certos países da Europa Ocidental, depois da idade média.

Os comerciantes acumularam grandes somas de dinheiro e aperfeiçoaram sistemas de banco e crédito. Foi possível usar essas somas: as primeiras máquinas (têxteis) foram inventadas, e massas de pessoas pobres (antigos camponeses e artesãos) perderam seus meios de vida e foram forçados a aceitar a nova relação de produção: o trabalho assalariado. O pré-requisito era o trabalho acumulado, estocado na forma de máquinas (e depois fábricas). Esse trabalho passado seria posto em movimento pelo trabalho vivo daqueles que não tinham sido capazes de realizar semelhante acumulação de matérias primas e meios de produção. Até então, a troca não era nem o motivo nem o regulador da produção. O comércio por si mesmo, a produção mercantil simples (oposta à produção capitalista de mercadorias) não podia fornecer a estabilidade, a durabilidade requerida pela socialização e unificação do mundo. Isto foi realizado pela produção capitalista de mercadorias, e o meio pelo qual o capital realizou isso foi a produção, que ele tomou.

O escravo não vendia sua força de trabalho: o proprietário comprava o escravo e o obrigava a trabalhar. No capitalismo, o trabalho vivo é comprado pelos meios de produção que põe em movimento. O papel do capitalista não é negligenciável, mas totalmente secundário: “o capitalista é somente uma função do capital”, a de conduzir a produção social. O importante é o desenvolvimento do trabalho passado pelo trabalho vivo. Investir e acumular são os motores do capital (a prioridade dada à indústria pesada, nos países ditos socialistas apenas sinaliza o desenvolvimento do capitalismo). Mas o objetivo do capital não é acumular valores de uso. O capital só multiplica fábricas, estradas de ferro etc. para acumular valor. O capital é antes de tudo uma soma de valor, de trabalho abstrato cristalizado sob a forma de dinheiro, capital financeiro, ações, títulos etc., que procura incrementar. Uma soma de valor que deve dar mais valor no fim do ciclo. Para se valorizar, o valor compra força de trabalho.

A mercadoria força de trabalho é muito especial. Seu consumo fornece trabalho, portanto, novo valor; enquanto os meios de produção apenas transferem seu próprio valor. Assim, o uso da força de trabalho produz um valor suplementar. A origem da riqueza burguesa está na mais-valia, na diferença entre o valor criado pelo trabalhador assalariado e o valor necessário para a reprodução de sua força de trabalho. Os salários apenas cobrem as despesas dessa reprodução (os meios de subsistência do proletário e de sua família).

É fácil concluir, pois, que o fato essencial não é a apropriação de mais-valia pelo capitalista enquanto indivíduo. O comunismo não tem nada a ver com a idéia de que os trabalhadores devem recuperar totalmente a mais-valia para si mesmos, por uma simples e óbvia razão: alguns dos recursos devem ser usados para a renovação dos equipamentos, a nova produção etc. O problema não é que um punhado de pessoas toma desproporcionalmente uma grande parte da mais-valia. Se essas pessoas fossem eliminadas e o resto do sistema permanecesse o mesmo, uma parte da mais-valia seria dada aos trabalhadores e a restante seria investida no equipamento social, bem-estar etc.: de fato, este é o programa da esquerda, incluindo os PC’s oficiais. Realmente, a lógica do capitalismo resulta sempre num desenvolvimento da produção para uma valorização máxima. Enquanto a base da sociedade for um mecanismo combinando dois processos – um, de trabalho real; outro, de valorização -, o valor dominará a sociedade. A mudança feita pelo capital foi conquistar a produção e, assim, ter socializado o mundo, desde o século XIX, com plantas industriais, meios de transporte, estoque e rápida transmissão da informação. Mas, no ciclo capitalista, a satisfação das necessidades é somente um subproduto, e não a força dirigente do mecanismo. A valorização é o objetivo: a satisfação das necessidades é no máximo um meio. O que se produz deve ser rentável.

A empresa é o local e o centro da produção capitalista; cada indústria ou empresa agrícola opera como um ponto de reunião duma soma de valores visando a um incremento. A empresa deve produzir lucros. Aqui novamente a lei do lucro não tem nada a ver com a ação de alguns “grandes” capitalistas, e o comunismo não equivale a se livrar dos gordos fumantes de charuto que usam cartola num hipódromo. A questão não está nos lucros individuais dos capitalistas, mas na coação, na orientação imposta à produção e à sociedade pelo capitalismo, que dita como trabalhar e o que consumir. Toda demagogia sobre ricos e pobres confunde a questão. O comunismo não é tomar o dinheiro dos ricos, nem sua distribuição revolucionária aos pobres.

E) Concorrência

A concorrência acontece entre as empresas, lutando para conquistar o mercado. Mostramos como os vários aspectos da atividade humana se separaram. A relação de troca aumenta a divisão da sociedade em ramos, que por sua vez ajuda a desenvolver o sistema mercantil. Contudo - como ainda pode ser observado hoje, mesmo nos países avançados -, nos lugarejos, não há concorrência real entre atividades que são separadas mas fixamente divididas: entre o padeiro, o sapateiro etc. O capitalismo não é somente uma divisão da sociedade em vários ramos, mas sobretudo uma luta permanente entre os vários componentes da indústria. Cada porção de capital existe somente contra as outras. O que uma certa ideologia chama de egoísmo e luta de todos contra todos é o complemento indispensável de um mundo no qual cada um tem de lutar para vender. Assim, a violência econômica, e a conseqüente violência armada, são partes integrantes do sistema capitalista.

A concorrência teve efeitos positivos no passado: rompeu os limites dos regulamentos feudais e a coação das corporações, permitindo ao capital invadir o mundo. Agora, ela se tornou uma fonte de desperdícios, levando ao desenvolvimento da produção inútil e destrutiva, para mais rápida valorização, e/ou impedindo a produção útil, se a oferta e a procura estão em conflito.

A concorrência é a separação de sistemas produtivos em centros autônomos que são pólos rivais, cada um procurando aumentar sua respectiva soma de valor. Nenhuma “organização”, “plano” ou tipo de controle pode acabar com isso. O poder estatal e o “poder popular” são igualmente incapazes de resolver esse problema. A força motriz da concorrência não é a liberdade dos indivíduos, nem mesmo a dos capitalistas, mas a liberdade do capital, que só pode viver se devorando. A forma destrói o conteúdo para sobreviver como forma. O capital destrói seus componentes (trabalho vivo e trabalho passado) para sobreviver como soma de valor que se valoriza.

Cada um dos capitais concorrentes tem uma taxa de lucro. Mas os capitais mudam de ramo, procurando a taxa de lucro mais alta. Mudam-se para os ramos mais lucrativos e negligenciam os outros. Quando os ramos, até então mais lucrativos, ficam saturados de capital, sua lucratividade decresce. Então, o capital se muda para outro ramo (esta dinâmica é modificada, mas não abolida, pelos monopólios). Este processo resulta na estabilização (perequação) da taxa de lucro em torno de uma taxa média, numa dada sociedade e num determinado momento. Cada capital tende a render, não de acordo com a taxa de lucro produzida em sua própria empresa, mas de acordo com a taxa social média, na proporção da soma de valor investida nessa empresa. Assim, não é que cada capital explore apenas seus proletários, mas o capital total explora a totalidade do proletariado. No seu movimento, o capital age e se revela como um poder social, dominando toda sociedade, e dessa forma adquire coerência - apesar da concorrência que o opõe a si mesmo. Ele se unificou e se tornou uma força social. É uma totalidade relativamente homogênea em seus conflitos com o proletariado ou com outras unidades capitalistas (nacionais). Ele organiza as relações e necessidades de toda sociedade de acordo com os seus interesses. Esse mecanismo existe em todos os países: o capital constitui o Estado e a nação contra outros capitais nacionais, mas também (e principalmente) contra o proletariado. A oposição dos estados capitalistas faz da guerra o último meio de resolver os problemas da concorrência entre capitais nacionais.

Nada muda enquanto houver unidades de produção buscando incrementar suas respectivas somas de valor. O que acontece se o Estado (“democrático”, “operário”, “proletário” etc.) toma todas as empresas sob seu controle, enquanto as mantêm como empresas? Também as empresas estatais obedecem à lei do lucro e do valor, e nada muda. Ou, se não a obedecem, tudo vai mal. 2

Dentro da empresa, a organização é racional: o capital impõe seu despotismo sobre os proletários. Fora, no mercado, onde cada empresa encontra as outras, a ordem existe apenas como a supressão periódica e permanente da desordem, acompanhada por crises e destruição. Somente o comunismo pode destruir essa anarquia organizada, suprimindo a empresa como entidade separada.

F) Crise

Por um lado, o capital socializou o mundo. Toda produção tende a ser o resultado da atividade de toda a humanidade. Por outro, o mundo permanece dividido em empresas concorrentes, que tentam produzir o que é lucrativo e vender o máximo. Cada empresa procura valorizar seu capital, nas melhores condições possíveis. Cada uma tende a produzir mais do que o mercado absorve, pretende vender tudo, e espera que somente os seus concorrentes sofram de superprodução. 3

O resultado disso é o incremento de atividades ligadas à promoção de vendas. O número de trabalhadores improdutivos, manuais ou intelectuais, que fazem circular o valor, cresce em relação aos que produzem valor. A circulação não é o movimento físico dos bens. A indústria de transportes agrega valor real, ao mover os bens dum lugar a outro, aumentando seu valor de uso: os bens ficam disponíveis num lugar diferente daquele onde foram fabricados. A circulação se refere ao valor, não ao deslocamento físico. Uma coisa não se move, por exemplo, se seu proprietário muda enquanto ela fica no mesmo armazém. Por esta operação ela é comprada e vendida, mas seu valor de uso não se alterou, não aumentou. É diferente no caso do transporte.

O problema causado pela compra e venda, pela realização do valor do produto no mercado, exige um complexo mecanismo, que inclui crédito, banco, seguro e publicidade. O capital se torna uma espécie de parasita, que absorve uma monstruosa e crescente parcela dos recursos totais da sociedade nos custos da gestão do valor. A contabilidade, que é uma função necessária em qualquer organização social desenvolvida, tornou-se um desastre burocrático que esmaga a sociedade e as reais necessidades em vez de ajudar a satisfazê-las. Ao mesmo tempo, o capital cresce mais concentrado e centralizado: os monopólios tentam evitar a superprodução, mas a longo prazo a agravam. O capital só pode sair dessa situação através de crises periódicas, que temporariamente resolvem o problema reajustando a oferta e a demanda (apenas a demanda solvente, pois o capitalismo conhece uma só maneira de circular os produtos: comprando e vendendo; ele não se preocupa se a demanda real (as necessidades) não são satisfeitas. De fato, o capital gera a subprodução com relação às necessidades reais, que ele não satisfaz).

As crises capitalistas são mais do que crises de mercadorias. São crises que se ligam à produção de valor, assim como a produção é governada pelo valor. Pode-se entender isso comparando-as com algumas crises pré-capitalistas, antes do século XIX. Um decréscimo da produção agrária resultou em más colheitas. Os camponeses compravam menos bens industriais, como roupas, e a indústria, que era ainda muito frágil, passava dificuldades. Essas crises se baseavam num fenômeno natural (climático). Mas os comerciantes especulavam com cereais, estocando-os para fazer subirem seus preços. Eventualmente, houve fome aqui e ali. A própria existência das mercadorias e do dinheiro é a condição para as crises: há uma separação temporal entre as duas operações de compra e venda. Do ponto de vista do mercado e do dinheiro tentando incrementar seu volume, comprar e vender cereais são dois problemas distintos: o período de tempo entre eles é determinado apenas pela quantidade e a taxa de lucro esperada. Pessoas morriam de fome, durante o período que separa a produção e o consumo. Mas, neste caso, o sistema mercantil só agiu como fator agravante numa crise causada por condições naturais. Nesses casos, o contexto social é pré-capitalista, ou de fraco capitalismo, como atualmente na China e Rússia onde as más colheitas ainda têm forte influência na economia.

A crise capitalista, por um lado, é o produto da união forçada entre valor e produção. Tomemos um fabricante de carros. A concorrência o força a elevar a produtividade e obter um rendimento máximo com um mínimo de investimento. A crise surge quando a acumulação não acompanha suficientemente o decréscimo dos custos de produção. Milhares de carros podem sair das linhas de montagem todo dia, e até encontrar compradores, mas sua fabricação e venda não valorizam seu capital de modo suficiente em comparação a outros. Assim, ao tornar a produção mais eficiente, a companhia reduz sua taxa de lucro com a quantidade de carros vendida, garantias para créditos, fusões, intervenção governamental... Eventualmente, produz como se a demanda fosse se expandir para sempre, e perde cada vez mais. A crise reside não no esgotamento dos mercados, nem em generosos aumentos de salário, mas na queda da taxa de lucro (para a qual a luta proletária contribui): como soma de valor, o capital encontra dificuldade crescente para se valorizar na taxa média.

A crise não apenas revela como a ligação entre valor de uso e valor de troca, entre utilidade e intercambialidade de uma mercadoria. Mas explode-a em pedaços, revelando que a lógica do capital é o interesse das empresas, de aumentar seus lucros, e não a da satisfação das necessidades humanas. E isso nada tem a ver com o enriquecimento dos capitalistas, como os críticos vulgares do capitalismo dizem. O importante é a diferença com as crises pré-capitalistas. Estas se originavam duma necessidade inelutável (safra ruim, por exemplo) que as relações mercantis só agravavam. A crise moderna não tem causa natural; é social. Todos os elementos da atividade industrial estão presentes: matérias primas, máquinas, trabalhadores, mas estes não são empregados - ou só o são parcialmente. Eles não são só coisas, objetos materiais, mas uma relação social. Realmente, eles somente existem nesta sociedade se o valor os une. Este fenômeno não é “industrial”; não vem das exigências técnicas da produção. Ele é uma relação social, através da qual todo complexo produtivo e, de fato, toda a estrutura social (tanto quanto o capital conquistou a sociedade) são dominados pela lógica mercantil. O único objetivo do comunismo é destruir a relação mercantil, e assim reorganizar e transformar toda a sociedade (veja abaixo).

A rede de empresas - centros e instrumentos do valor - se torna um poder sobre a sociedade. As necessidades das pessoas (moradia, alimentação, “cultura”) só existem submetidas a este sistema, e são até formadas por ele. 4 A produção não é determinada pelas necessidades, mas as necessidades são determinadas pela produção - para a valorização. Escritórios são construídos mais rápido do que as necessárias moradias. E muitas casas, bem como milhares de apartamentos, ficam vazios por 10 meses em 12 porque os proprietários ou locatário, que compraram a residência ou pagaram o aluguel, são os únicos que podem ocupá-los. A agricultura é negligenciada pelo capital, numa escala mundial, e só é desenvolvida se permite a valorização, enquanto centenas de milhões de pessoas morrem de fome. A indústria automobilística é um ramo desenvolvido além das necessidades das pessoas nos países avançados, porque sua lucratividade se mantém crescente, apesar de toda sua nocividade. Os países retardatários só podem construir fábricas que rendam uma taxa média de lucro. A tendência à superprodução exige uma permanente economia de guerra, em quase todos os países avançados; essas forças destrutivas tornam-se operativas se necessário, como as guerras são ainda outro meio de agir contra a tendência de crise.

O trabalho assalariado é um absurdo, há várias décadas. Ele força a maioria dos proletários a executar um trabalho exaustivo. Uma parcela muito numerosa, em países como os EUA, são proletários do setor improdutivo. A função deste setor é facilitar as vendas e absorver os proletários demitidos pelas novas tecnologias, fornecendo assim uma massa de consumidores e contribuindo para a “gestão da crise”. O capital se apossa de todas as ciências e técnicas: no campo produtivo, orienta recursos para o estudo do que produzirá um lucro máximo; no campo improdutivo, desenvolve a gerência e o marketing. Assim, a humanidade tende a ser dividida em três grupos:

- trabalhadores produtivos, com freqüência destruídos fisicamente por seu trabalho;

- trabalhadores improdutivos, cuja grande maioria é apenas uma fonte de desperdício;

- e a massa dos não-assalariados, alguns nos países desenvolvidos, mas a maioria deles nos países pobres: o capital não pode integrá-los de nenhum modo, e centenas de milhares deles são periodicamente destruídos nas guerras causadas direta ou indiretamente pela organização capitalista-imperialista da economia mundial.

O desenvolvimento de alguns países atrasados, como o Brasil, é real. Mas só se realiza através da destruição total ou parcial de antigas formas de vida. A introdução da economia mercantil priva os camponeses pobres de seus meios de subsistência e os leva à miséria das cidades superpovoadas. Só uma minoria da população tem a “sorte” de trabalhar em fábricas e escritórios; o resto é subempregado ou desempregado.

G) Proletariado e Revolução

O capital cria uma rede de empresas que existe para e pelo lucro. E protegida pelo Estado, que nada mais é do que uma organização anticomunista. Simultaneamente, o capital cria o proletariado - a massa dos indivíduos que serão forçados a se insurgir contra ele. Essa massa não é homogênea, mas se unificará na revolução comunista, ainda que seus componentes não desempenhem o mesmo papel.

Uma revolução é o resultado de necessidades reais, originadas nas condições materiais de vida que se tornaram insuportáveis. Isto também se aplica ao proletariado, que deve sua existência ao capital. Uma grande parte da população mundial é obrigada a vender sua força de trabalho para sobreviver, pois não tem meios de produção. Alguns vendem sua força de trabalho e são produtivos. Outros a vendem e são improdutivos. Ainda há os que não podem vendê-la: o capital só compra trabalho vivo quando espera se valorizar numa taxa razoável (a taxa de lucro média).

Se identificarmos o proletário com o operário de fábrica (ou pior: com o trabalhador manual) ou com os pobres, não veremos o que é subversivo na condição proletária. O proletariado é a negação desta sociedade. Não é o conjunto dos pobres, mas daqueles que estão desesperados, aqueles que não têm reservas (les sans-réserves em francês, ou senza riserve, em italiano), 5 que não têm nada a perder senão suas próprias correntes; aqueles que não são nada, não têm nada e que não podem se libertar sem destruir toda a ordem social.

O proletariado é a dissolução da sociedade atual, desta sociedade que o priva de quase todos os seus aspectos positivos. Mas o proletariado é também sua autodestruição. Todas as teorias (burguesa, fascista, stalinista, de esquerda ou “esquerdistas”) que de algum modo glorificam e exaltam o proletariado, reivindicando o papel positivo do proletariado na defesa dos valores e regeneração da sociedade, são contra-revolucionárias. A exaltação do proletariado tornou-se uma das armas mais eficientes e perigosas do capital. A maioria dos proletários tem salários baixos, uma parte trabalha na produção, mas sua emergência como proletariado deriva não de serem produtores mal pagos, mas de serem alienados, de não terem controle sobre suas vidas ou sobre o que fazem para conseguir sobreviver.

Definir o proletariado tem pouco a ver com a sociologia. Sem a possibilidade do comunismo, as teorias do “proletariado” seriam equivalentes à metafísica. Nosso maior argumento é que, toda as vezes em que interferiu autonomamente no curso da sociedade, o proletariado repetidamente agiu como negação da atual ordem de coisas, não ofereceu valores positivos ou papéis, buscou outra coisa.

Sendo produtor de valor, pode destruir o mundo baseado no valor. O proletariado inclui, por exemplo, os desempregados e muitas donas-de-casa, pois o capitalismo utiliza o trabalho desses últimos para incrementar a massa total de mais-valia.

Os burgueses são a classe dominante, mas não porque são ricos. Ser burguês os faz ricos, não o contrário. Eles são a classe dominante porque controlam a economia - os trabalhadores e as máquinas. A propriedade, estritamente falando, é uma forma de poder de classe e aparece em outras variantes do capitalismo.

O proletariado não é a classe operária, mas a classe da crítica do trabalho. É a sempre presente destruição do velho mundo, mas ainda potencialmente, que só se torna atual num momento de tensão social e revolta, quando é compelido pelo capital a ser agente do comunismo. Ele unicamente se torna a subversão da sociedade estabelecida quando se unifica e se auto-organiza, não para ser a classe dominante, como a burguesia o fez, mas para destruir a sociedade de classes. Neste momento, só há um agente: a humanidade. Mas fora de tal período de conflito e do período que o precede, o proletariado é reduzido à condição de elemento do capital, um parafuso dentro de um mecanismo (e é precisamente este aspecto que é glorificado pelo capital, que exalta o operário como parte do sistema social existente).

Embora não isento de obreirismo (reverso do intelectualismo), o revolucionário nem pensa em elogiar a classe operária ou o trabalho manual como felicidade infinita. Ele vê os operários produtivos como uma parte decisiva (mas não exclusiva) porque seu lugar na produção os coloca na melhor situação para revolucioná-la. Somente neste sentido, os proletários (freqüentemente usando gravata) assumem um papel central, pois sua função social lhes permite realizar diferentes tarefas. Mas, com a generalização do desemprego, do trabalho informal, do aumento da escolarização, dos estágios e do trabalho por tempo parcial, da aposentadoria prematura - estranha mistura de bem-estar e opressão, na qual as pessoas passam da miséria assalariada à pobreza assistida, quando a esmola institucional algumas vezes equivale ao mais baixo salário - é cada vez mais difícil distinguir o trabalho do não-trabalho.

Brevemente, talvez, ingressaremos numa fase semelhante à dissolução que os primeiros escritos de Marx relatam. Em cada período de fortes distúrbios sociais (por exemplo, a década de 1840 ou depois de 1917), o proletariado sofre com o afrouxamento dos limites sociais (seções da classe operária e da classe média decaem na escala social ou temem que isso lhes ocorra) e a fraqueza dos valores tradicionais (a cultura não é mais um unificador). A ideologia da velha sociedade é abolida nas condições dos proletários. Nem os hippies nem os punks, mas o capitalismo moderno matou a ética do trabalho. Propriedade, família, nação, moral, política no sentido burguês tendem a se deteriorar na condição proletária.

H) Formação da comunidade humana

A comunidade primitiva é demasiado pobre e fraca para se aproveitar da potência do trabalho. Ela só conhece o trabalho na sua forma imediata. O trabalho não é cristalizado e acumulado em instrumentos; pouco trabalho passado é estocado. Quando isto se torna mais comum, a troca é necessária: a produção pode ser medida somente pelo trabalho abstrato, pelo tempo de trabalho médio, com a finalidade de circular. O trabalho vivo é o elemento essencial da atividade, e o tempo de trabalho é a medida necessária. O tempo de trabalho é expresso em dinheiro. Daí, a exploração e o agravamento das catástrofes naturais (ver, acima, sobre as crises pré-capitalistas). Daí, a ascensão e a queda dos Estados e impérios, que só podem crescer lutando uns contra os outros. Algumas vezes, as relações de troca desapareceram em partes do mundo civilizado (isto é, mercantil), depois da morte de um ou vários impérios. Semelhante interrupção do desenvolvimento pode durar séculos, durante os quais a economia parece retroceder para condições de mera subsistência.

Nesse período, a humanidade ainda não tem um aparato produtivo capaz de fazer a exploração do trabalho humano ser inútil e mesmo desastrosa. O papel do capitalismo é acumular trabalho passado. A existência do complexo industrial, de todo o capital fixo, revela que o caráter social da atividade humana foi finalmente materializado num instrumento capaz de criar, não um novo paraíso na terra, mas um desenvolvimento que faz o melhor uso possível dos recursos disponíveis para satisfazer as necessidades e produzir novos recursos para satisfazer novas necessidades. Se esse complexo industrial se tornou o elemento essencial da produção, então o papel da lei do valor como regulador, papel que corresponde a um estágio em que o trabalho era o principal fator produtivo, perde todo fundamento. O valor se torna desnecessário à produção. Agora, sua sobrevivência é catastrófica. O valor, expresso em dinheiro sob todas as suas formas, resulta de uma característica geral do trabalho, da energia (tanto individual quanto coletiva) que é produzida e consumida pelo trabalho. O valor se perpetua como mediador necessário enquanto essa energia não cria um sistema produtivo mundialmente unificado: ele se torna um obstáculo. 6

O comunismo é o fim de uma série de mediações que antes eram necessárias (apesar da miséria que acarretavam) para acumular trabalho passado, até que a humanidade se tornasse capaz de fazer essas mediações desaparecerem. O valor é uma dessas mediações. Agora, já é inútil a existência de um elemento externo às atividades sociais para conectá-las e estimulá-las. A infra-estrutura produtiva acumulada só precisa ser transformada e desenvolvida. O comunismo compara valores de uso, para decidir desenvolver uma dada produção mais do que outra. Não reduz os componentes da vida social a um denominador comum (como o tempo de trabalho médio contido neles). O comunismo organiza sua vida material com base no confronto e interação das necessidades - o que não exclui conflitos e mesmo alguma forma de violência. Os homens não se tornarão anjos: por que o fariam?

O comunismo também é o fim de todo e qualquer elemento necessário para a unificação da sociedade: é o fim da política. Não é nem democrático nem ditatorial. É evidente que ele é “democrático” se esta palavra significa que cada um será responsável em todas as atividades sociais. Isso não será assim porque as pessoas desejarão gerir a sociedade, ou por algum princípio democrático, mas porque a organização das atividades só pode ser realizada por aqueles que participarem delas. Contudo, ao contrário do que os democratas dizem, isto será possível unicamente através do comunismo, no qual todos os elementos da vida são parte da comunidade. É quando toda atividade separada e toda produção isolada são abolidas. Isto só pode ser realizado pela destruição do valor. A troca entre empresas exclui toda possibilidade de a coletividade determinar sua vida (sobretudo sua vida material). O objetivo da troca e do valor é radicalmente oposto ao das pessoas - a General Mottors, a Woolworth’s e as centrais eletronucleares nunca funcionarão democraticamente. As empresas tentam se valorizar e não aceitam lideranças, a não ser aquelas que alcançam seus objetivos (é por isso que os capitalistas nada mais são do que funcionários do capital). As empresas gerem seus gestores. A abolição das empresas, a destruição da relação mercantil, que compele cada indivíduo a considerar e tratar os outros como meios para ganhar sua vida, são apenas condições para a auto-organização. Os problemas de gestão são secundários, e é absurdo querer que todos assumam a função rotativa de gestão da sociedade. A contabilidade e a administração serão atividades como todas as outras, sem privilégio; qualquer um poderá participar delas (ou não).

“A democracia é uma contradição nos termos, uma mentira e de fato uma hipocrisia... Na minha opinião, isto se aplica a todas as formas de governo. A liberdade política é uma farsa e a pior escravidão possível. Assim é a igualdade política. Por este motivo, a democracia tem de ser destruída, como qualquer outra forma de governo. Essa forma hipócrita não pode continuar. Sua contradição intrínseca deve ser exposta à luz do dia: ou significa escravidão, o que implica despotismo aberto; ou significa liberdade e igualdade, o que implica comunismo.” 7

No comunismo, é inútil qualquer força exterior para unir os indivíduos. Isto não foi entendido pelos socialistas utópicos. Quase todas as suas sociedades imaginárias, quaisquer que sejam seus méritos ou seu poder visionário, precisam de planos muito estritos e uma organização quase-totalitária. Esses socialistas queriam criar laços que, na prática, se criam sempre que as pessoas se agruparam. Tentando, ao mesmo tempo, evitar a exploração e a anarquia, alguns socialistas utópicos organizaram a vida social em progresso. Outros, os anarquistas, recusam semelhante autoritarismo e querem que a sociedade seja uma permanente criação. Mas o problema não está aí: somente relações sociais baseadas num certo nível de desenvolvimento material da produção, fazem a harmonia entre os indivíduos ser tão possível quanto necessária (o que não exclui conflitos). Então, os indivíduos podem satisfazer suas necessidades, mas através de sua participação, sem serem meras ferramentas do grupo. O comunismo não necessita de unificar o que já não está separado.

Isto é verdade no mundo, numa escala universal. Os Estados e nações foram necessários para o desenvolvimento. Agora, são organizações puramente reacionárias, e as divisões que mantêm impedem o desenvolvimento. A única dimensão possível é a da humanidade.

A oposição entre manual e intelectual, entre natureza e cultura, fazia sentido. A separação entre quem trabalhava e quem organizava o trabalho aumentava a eficiência do trabalho. O atual nível de desenvolvimento não necessita mais disso, e essa divisão é somente um obstáculo, cujo absurdo se revela em todos os aspectos da vida profissional, “cultural” e escolar. O comunismo destrói a divisão entre proletários mutilados pelo trabalho manual e proletários tornados inúteis nos escritórios.

Isto também se aplica à oposição entre o homem e seu ambiente. No passado, o homem só podia socializar o mundo dominando a “natureza”. Hoje em dia, essa dominação é uma ameaça à natureza. O comunismo é a reconciliação entre o homem e a natureza.

O comunismo suprime a economia, campo separado e privilegiado de que tudo depende. Desde a desintegração da comunidade primitiva, o homem (re)produz suas condições de existência. Mas, sob a forma que assume no capitalismo, o trabalho - atividade pela qual o homem se apropria de seu ambiente - se tornou uma compulsão, opondo-se ao descanso, ao lazer, à vida. Historicamente necessário para criar o trabalho passado, esse estágio torna possível a eliminação dessa escravidão. Com o capital, a produção (de mais-valia) governa o mundo. É a ditadura do capital sobre a sociedade.

Quando produzimos, sacrificamos a vida para desfrutá-la posteriormente. Este desfrute é habitualmente desligado da natureza da atividade produtiva, que é um meio para nossa sobrevivência. O comunismo - que dissolve as relações de produção ao integrá-las nas relações sociais - não admite nenhuma atividade separada. A obrigação de fazer o mesmo trabalho por toda a vida, de ser operário manual ou intelectual, desaparece. O trabalho acumulado integra todas as ciências e técnicas, possibilitando que pesquisa e trabalho, reflexão e ação, aprendizado e atuação se tornem uma única atividade. Algumas tarefas podem ser feitas por todos e a generalização da automação transforma profundamente a produção. O comunismo não afirma o desfrute contra o trabalho e nem o não-trabalho contra o trabalho. Estas noções limitadas e parciais são ainda realidades capitalistas. A atividade como produção-reprodução das condições de vida (materiais, afetivas, culturais etc.) é a verdadeira natureza da humanidade.

O homem produz coletivamente seus meios de existência, não os recebe das máquinas, situação em que a humanidade seria como uma criança, que ganha brinquedos sem saber sua origem. Sua origem não lhe interessa: os brinquedos estão . Ora, o comunismo não faz da atividade algo perpetuamente agradável e feliz. A vida humana é esforço e prazer. Mesmo a atividade do poeta inclui momentos penosos. O comunismo só abole a separação: entre esforço e prazer, criação e recreação, produção e desfrute.

I) Comunização

O comunismo é a apropriação pela humanidade de sua riqueza, e implica uma inevitável e completa transformação da riqueza. Isso requer a destruição das empresas como unidades separadas e, portanto, da lei do valor: não para socializar o lucro, mas para que haja circulação de bens entre centros industriais sem a mediação do valor. Isso não significa que o comunismo usará o sistema produtivo tal como existe no capitalismo. O problema não é se livrar do lado “mau” do capital (valorização) mantendo o lado “bom” (produção). Como vimos, o valor e a lógica do lucro impõem um tipo de produção, desenvolvem alguns ramos e abandonam outros. O elogio da produção e do crescimento é o canto de glória ao capital.

Por outro lado, para revolucionar a produção e destruir as empresas como tais, a revolução comunista é forçada a usar a produção. Esta é sua “alavanca” essencial, ao menos durante uma fase. O objetivo não é tomar as fábricas e geri-las, mas sair delas, conectá-las sem a troca, o que as destrói como empresas. Este movimento começa quase automaticamente, com a superação da oposição entre cidade e campo e a dissociação entre indústria e outras atividades. Hoje, a indústria está sufocada dentro de seus próprios limites, embora sufoque outros setores.

O capital vive para acumular valor: ele fixa o valor na forma de trabalho estocado, trabalho passado. A acumulação e a produção se tornam fins em si mesmos. Tudo lhes é subordinado: o capital alimenta seus investimentos com trabalho humano. Ao mesmo tempo, desenvolve o trabalho improdutivo, como mostramos. A revolução comunista é uma rebelião contra esse absurdo. É também uma desacumulação, não para retornar a formas de vida perdidas para sempre, mas para a reapropriação do homem: até agora o homem foi sacrificado em nome do investimento; hoje em dia, o reverso é possível. O comunismo é a negação do produtivismo, e, do mesmo modo, se opõe à ilusão do desenvolvimento ecológico dentro da economia atual. O “crescimento zero” é ainda crescimento. Os porta-vozes oficiais da ecologia jamais fizeram uma crítica da ditadura do valor, contentam-se com a hipótese de controlar seus excessos.

O comunismo não é a continuação do capitalismo, numa forma mais racional e moderna ou menos desigual e anárquica. Tampouco utiliza a velha base material, ele a subverte.

O comunismo não é um conjunto de medidas a executar depois da conquista do poder. É um movimento que já existe, não como modo de produção (uma ilha comunista no capitalismo é impossível), mas como tendência que se origina em necessidades reais. O comunismo nem sequer reconhece o valor. A questão não é que, num belo dia, um grande número de pessoas comece a destruir o valor e o lucro. No passado, todos os movimentos revolucionários foram capazes de paralisar a sociedade, esperando por algo para sair da paralisação. O comunismo fará circular bens sem dinheiro, derrubando o muro que isola uma fábrica da vizinhança e fechando outra fábrica onde o trabalho é alienado demais para ser tecnicamente aperfeiçoado, suprimirá a escola como lugar que cerceia o aprendizado do fazer, derrubará os limites que forçam as pessoas a se aprisionar em habitações familiares - em suma, abolirá todas as separações.

O mecanismo da revolução comunista resulta das lutas. Seu desenvolvimento força aqueles que a sociedade deixa sem outra perspectiva a estabelecer novas relações sociais. Se, agora, várias lutas sociais parecem vir do nada, é porque sua única continuação possível é o comunismo, independente do que os que delas participam estejam pensando. Mesmo quando estão apenas reivindicando, os operários chegam, com freqüência, a um ponto em que não há outra solução a não ser um conflito violento com o Estado e seus cúmplices, os sindicatos. Nesse caso, a luta armada e a insurreição exigem a aplicação de um programa social e o uso da economia como arma (veja acima, sobre o proletariado). O aspecto militar, por mais importante que seja, depende do conteúdo da luta. Para derrotar seus inimigos no plano militar, o proletariado - seja qual for a sua consciência – terá de comunizar a sociedade.

“A moderna estratégia equivale à emancipação da burguesia e do campesinato: é a expressão militar dessa emancipação. A emancipação do proletariado também terá sua expressão militar, e uma nova e específica guerra. Isto é claro. Podemos mesmo analisar essa estratégia a partir das condições materiais do proletariado.” 8

Até agora, as lutas não alcançaram o estágio em que seu desenvolvimento militar faz necessário o aparecimento da nova sociedade. Nos mais importantes conflitos sociais, na Alemanha entre 1919 e 1921, o proletariado, apesar da violência da guerra civil, não alcançou esse estágio. A perspectiva comunista estava presente nesses combates, que não fazem sentido se não se tem consciência dela. A burguesia foi capaz de usar a arma da economia, dividindo a classe operária, por exemplo, através do desemprego. O proletariado não soube usar a arma da economia, lutou principalmente com meios militares. Foi longe a ponto de criar um Exército Vermelho no Ruhr, em 1920. Mas não foi capaz de usar a arma que sua própria condição social lhe dá.

Num contexto diferente, as revoltas proletárias nos EUA iniciaram uma transformação social, mas apenas no nível da mercadoria, e não do capital enquanto tal. Esses lutadores eram só uma parte do proletariado e freqüentemente não puderam usar a “arma” da produção, porque tinham sido excluídos dela: estavam fora das fábricas. Portanto, a revolução comunista implica uma ação na empresa, para destruí-la. As rebeliões nos EUA permaneceram no nível do consumo e da distribuição. 9 O comunismo não pode se desenvolver sem atacar o núcleo do problema, o cerne em que a mais-valia é produzida: a produção. Mas ele só usa essa alavanca para destruí-la.

Aqueles que não têm reservas fazem a revolução: são forçados a estabelecer relações sociais que ultrapassam a sociedade atual. Essa ruptura implica uma crise, que pode ser muito diferente daquela de 1929, quando grande parte da economia foi paralisada. Se os que se rebelam contra o trabalho assalariado se unirem, a sociedade sofrerá tal perturbação que não será capaz de isolar cada luta. A revolução comunista não é a soma das lutas atuais, nem o seu transcrescimento pela intervenção da “vanguarda”. É algo que só poderá acontecer em escala mundial, sobretudo nos países avançados.

A principal questão não é a conquista do poder pelo proletariado. Não faz sentido defender a ditadura do proletariado tal como ele é agora. Os proletários, hoje, são incapazes de gerir qualquer coisa: são parte do mecanismo de valorização e subjugados à ditadura do capital. A ditadura do proletariado atual só pode ser a ditadura de seus representantes: os chefes dos sindicatos e partidos operários. É o que ocorre nos países “socialistas”, e o programa social-democrata no restante do mundo.

A revolução tem problemas organizativos, mas não é um problema de organização. Todas as teorias do “governo operário” ou “poder operário” só propõem soluções alternativas para a crise do capital. A revolução é antes de tudo uma transformação da sociedade, isto é, do que constitui as relações entre as pessoas; entre as pessoas e seus meios de vida. Os problemas de organização e “direção” são secundários: dependem do que a revolução realiza. Isto se aplica tanto ao início da revolução quanto ao funcionamento da sociedade que surge dela. A revolução comunista não acontecerá no dia em que 51% dos operários se tornarem revolucionários. E não começará estabelecendo um aparato de tomada de decisões. É precisamente o capitalismo que perpetuamente se preocupa com problemas de gestão e chefia. A forma organizativa da revolução comunista, como a de qualquer movimento social, depende de seu conteúdo. A maneira como o partido, a organização da revolução, se constitui e age depende das tarefas a serem realizadas.

No século XIX, e mesmo durante a primeira guerra mundial, as condições materiais do comunismo ainda não existiam, pelo menos em alguns países (França, Itália, Rússia etc.). Antes, a revolução comunista teria que desenvolver as forças produtivas, obrigar a pequena-burguesia a trabalhar, generalizar o trabalho industrial, com a regra: “Quem não trabalha não come!” (que, é óbvio, só seria aplicada aos capazes de trabalhar). Mas a revolução malogrou, sua fortaleza alemã foi esmagada. Suas tarefas, desde então, têm sido realizadas pelo crescimento econômico capitalista. Agora, a base material do comunismo existe. Não há mais necessidade de enviar os improdutivos para a fábrica. O problema é criar a base de outra “indústria”, totalmente diferente da atual. Muitas fábricas terão de ser fechadas e o trabalho obrigatório está fora de questão: o que queremos é a abolição do trabalho, como atividade separada do resto da vida. Seria sem sentido acabar com a coleta de lixo, uma atividade necessária, se todo o processo de produção e distribuição que gera o lixo não muda ao mesmo tempo.

Os países subdesenvolvidos - para usar uma expressão datada mas não inadequada - não precisarão continuar a industrialização. Em regiões da Ásia, África, América Latina, a exploração do trabalho pelo capital não é uma “subsunção real”. Velhas formas de vida comunitária ainda existem. O comunismo resgatará muitas delas - Marx considerou tal evolução para a comuna camponesa russa - com a ajuda de tecnologia “ocidental” aplicada de maneira diferente. Em muitos aspectos, essas áreas podem ser mais fáceis de comunizar do que as imensas conurbações civilizadas, adaptadas ao automóvel e viciadas em televisão. Em outras palavras, um processo mundial de desacumulação.

J) Os Estados e como se livrar deles

O Estado nasceu da incapacidade dos homens de dirigir suas vidas. É a unidade, simbólica e material, do desunido. Assim que o proletariado se apropria de seus meios de existência, essa mediação começa a perder sua função. Mas destruí-la não é um processo automático. O Estado não desaparecerá aos poucos, com o avanço da esfera não-mercantil. De fato, essa esfera se debilitará se tolerar a existência da máquina estatal, como na Espanha em 1936-37. Pois o Estado não definhará por si mesmo.

Comunizar é, pois, mais do que agir diretamente por comida. O capital será minado pela subversão generalizada que ocorre quando as pessoas decidem suas relações com o mundo. Mas nada de decisivo será feito enquanto o Estado tiver algum poder. A sociedade não é só uma rede capilar: as relações são centralizadas numa força que concentra o poder para preservar esta sociedade. O capitalismo se contentaria de nos ver mudando nossas vidas localmente, enquanto ele se perpetua numa escala global. Como uma força centralizada, o Estado deve ser destruído pela ação centralizada, assim como seu poder deve ser destruído em todos os lugares. O movimento comunista é antipolítico, não é uma política. 10

K) O comunismo como um movimento social atual

O comunismo não é apenas um sistema social, um modo de produção que existirá no futuro, depois da “revolução”. Esta revolução é de fato um encontro entre dois mundos:

1) Por um lado, todos aqueles que são rejeitados, excluídos de todo desfrute real, cuja própria existência é às vezes ameaçada, que são contudo unidos pela necessidade de entrar em contato com outros, de agir, de viver, de sobreviver;

2) Por outro lado, uma economia socializada em escala mundial, unificada num nível técnico, mas dividida em unidades forçadas a se opor umas as outras para obedecer à lógica do valor, que as unifica e procura destruir tudo para sobreviver como tal.

O mundo das mercadorias e do valor, atual quadro das forças produtivas, é movido por uma vida em si mesmo; se constitui como força autônoma, e o mundo das necessidades reais se submete a suas leis. A revolução comunista é a destruição dessa submissão. O comunismo é a luta contra essa submissão desde os primeiros dias do capitalismo. E, mesmo antes, então sem possibilidade de êxito.

A humanidade primeiramente atribuiu às suas idéias, às suas concepções do mundo, uma origem externa, acreditando que a natureza do homem se encontrava, não nas relações sociais, mas em sua ligação com um elemento exterior ao mundo (deus), do qual o homem seria apenas um produto. Do mesmo modo, a humanidade, no esforço de se apropriar e se adaptar ao mundo, primeiramente teve de criar uma rede de forças produtivas, uma economia, um conjunto de objetos que a esmaga e a domina. Hoje, a humanidade pode se apropriar do mundo, adaptando-o pela transformação de acordo com suas necessidades.

A revolução comunista é a continuação e a superação dos atuais movimentos sociais. As discussões do comunismo habitualmente partem de um ponto de vista errôneo: elas o relacionam com o que as pessoas farão depois da revolução e não com o que está acontecendo no momento em que a discussão ocorre. Há uma completa separação: primeiro se faz a revolução e depois, o comunismo. De fato, o comunismo é a continuação das necessidades reais, que estão agindo agora, mas que não podem levar a lugar algum, não podem ser satisfeitas porque a atual situação o impede. Hoje, existem numerosos gestos e atitudes que exprimem não apenas uma recusa do mundo atual, mas, em sua a maioria, um esforço para construir algo novo. Na medida em que não se obtém êxito, só se vêem seus limites, só a tendência e não sua possível continuação (a função dos grupos “extremistas” é apresentar esses limites como objetivos do movimento, e reforçá-los).

Na recusa do trabalho na linha de montagem, nas ocupações, a perspectiva comunista está presente como um esforço para criar “outra coisa”, não com base na mera rejeição do mundo moderno (hippy), mas através do uso e transformação do que é produzido e desperdiçado. Nesses conflitos, as pessoas espontaneamente tentam se apropriar dos bens sem obedecer à lógica da troca. Portanto, eles tratam esses bens como valores de uso. Suas relações com essas coisas, e as relações que estabelecem entre si para realizar tais atos, são subversivas. Até mesmo as pessoas se transformam nesses acontecimentos. A “outra coisa” pela qual essas ações procuram está presente nas ações só potencialmente, seja o que for que aqueles que as organizam podem pensar e querer, e o que quer que os extremistas que participam e teorizam sobre elas podem fazer e dizer. Este movimento será forçado a se tornar consciente de seus atos, a compreender o que se está fazendo, para fazê-lo melhor.

Aqueles que já sentiram a necessidade do comunismo e a discutem não podem interferir nessas lutas para levar o evangelho comunista, não podem propor a essas ações limitadas que se dirijam para a atividade comunista “real”. O que é necessário não são palavras-de-ordem, mas uma explicação do conteúdo e do mecanismo dessas lutas. Deve-se unicamente mostrar o que elas são forçadas a fazer.

2. A luta de classes e seus aspectos mais característicos nos anos atuais: a reemergência da perspectiva comunista

Capítulo 2 do livro Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista.

A reemergência da perspectiva comunista

Este ensaio foi iniciado logo depois de maio de 68 e completado em 1972, por um amigo que trabalhara anos antes numa fábrica de sapatos sob “autogestão” (controlada pelo Estado), na Argélia. Lá, ele vivenciou como um desejo espontâneo de tomar o futuro nas próprias mãos pôde terminar numa auto-organização institucionalizada do trabalho assalariado.

Se este texto fosse escrito hoje, os fatos históricos seriam diferentes. No entanto, ele ainda mantêm uma força. O PC francês declinou, através da desindustrialização das áreas tradicionais da classe operária. Além disso, como em outros países, já não se pode mais falar de “stalinismo”. Os PC’s foram stalinistas não por amor à Rússia, mas porque o capitalismo de Estado era uma solução possível para o capital... habitualmente, com as tropas do exército vermelho em volta e a ajuda dos países “socialistas” irmãos. Com a queda da URSS, tornou-se obsoleta essa forma atrasada de capitalismo e os PC’s se transformaram em partidos sociais-democratas. O adaptável PC italiano já estava nesse caminho há muito tempo. Depois de longa resistência, o teimoso PC francês segue o seu exemplo. A velha e sinistra farsa stalinista de 60 anos foi atirada à lixeira da história, não pelo proletariado, mas pela atração fatal das mercadorias. O cartão de crédito é mais poderoso do que o macaco hidráulico. (nota de 1997, Gilles Dauvé)

A proposta original deste texto era tentar mostrar as razões fundamentais pelas quais o movimento revolucionário da primeira metade do século assumiu várias formas (partidos, sindicatos, conselhos operários) que agora não somente pertencem ao passado, como obstruem a reorganização do movimento revolucionário. Porém, só uma parte do projeto foi realizada. Não obstante, seria um erro esperar uma construção teórica completa antes de começar. O texto a seguir fornece elementos úteis para compreender as novas formas do “partido” comunista. Os acontecimentos recentes (principalmente as greves nos EUA, Inglaterra, França e Itália) mostram nitidamente que estamos entrando num novo período histórico. Por exemplo, o Partido “Comunista” Francês (P.C.F.) ainda domina a classe operária, mas está acuado. Por um longo período, o movimento de negação revolucionária ao capital foi desviado pelo P.C.F. – hoje, isso está mudando. O antagonismo entre os proletários e o capital vai se expressando cada vez mais diretamente, no nível dos fatos e ações concretas, ultrapassando a situação vigente quando a ideologia stalinista predominava na massa trabalhadora e o movimento revolucionário tinha que enfrentar o P.C.F. principalmente no campo teórico.

Hoje, os revolucionários são forçados a se opor ao capital praticamente. Novos esforços teóricos são necessários. Não basta concordar no plano das idéias; devem agir e, antes de tudo, intervir nas lutas atuais apoiando suas perspectivas. Os comunistas não têm de organizar um partido separado daquele que se afirma na práxis, em nossa sociedade. Agora e cada vez mais, eles terão de firmar suas posições de maneira que o movimento real não perca tempo em lutas inúteis e falsas. Vínculos orgânicos (produção teórica para a atividade prática) terão de ser estabelecidos entre os que pensam que estamos avançando para um conflito entre o proletariado e o capital. Este texto tenta determinar como o movimento comunista reemerge e definir as tarefas dos comunistas.

A) Maio de 1968, na França

A greve geral de maio de 1968 foi uma das maiores da história capitalista. Contudo, é provável que num primeiro momento, na sociedade contemporânea, esse potente movimento da classe operária não tenha criado os órgãos capazes de expressá-lo. Mais de quatro anos de luta operária comprovam isto. Em lugar nenhum podemos ver organizações indo além de um contato local e temporário. Sindicatos e partidos foram capazes de penetrar nesse vazio e negociar com os patrões e o Estado. Em 1968, alguns Comitês de Ação, de vida curta, foram a única forma de organização proletária que agiu fora dos sindicatos e partidos; os Comitês de Ação se opuseram ao que eles percebiam ser traição por parte dos sindicatos.

Seja no início da greve ou depois, na luta contra o recomeço do trabalho, milhões de trabalhadores se organizaram de alguma maneira fora e contra os sindicatos. Mas, em cada caso, essas iniciativas se evaporaram com o fim do movimento e não se tornaram um novo tipo de organização.

A única exceção foi o Comitê “inter-empresas”, que existiu desde o começo da greve no edifício da Faculdade de Letras, em Paris. Reuniu muitos proletários, indivíduos e grupos de muitas fábricas de Paris. Sua função foi coordenar ações contra o esvaziamento da greve pelo P.C.F. e a C.G.T. (confederação sindical controlada por ele). De fato, o Comitê foi o único órgão operário cuja ação ultrapassou os limites da fábrica, coordenando a solidariedade entre os trabalhadores de diferentes empresas. Como é habitual, em todas as atividades revolucionárias, o Comitê não fez publicidade de sua ação 1. Continuou a organizar assembléias depois da greve e desapareceu, quando seus membros perceberam que ele já não era útil.

Muitos proletários logo deixaram de comparecer às assembléias. Muitos outros continuaram se encontrando. Durante a greve, a proposta do comitê foi de intensificar a luta contra as manobras dos sindicatos e partidos. Depois da greve, ele se tornou um grupo de discussão para estudar os resultados da greve e extrair lições para o futuro. Essas discussões muitas vezes tratavam do comunismo e de sua importância.

O Comitê agrupou uma minoria. Suas “assembléias gerais” diárias e suas reuniões menores permitiram que milhares de proletários se encontrassem. Mas permaneceu limitado à Paris. Nada sabemos de experiências similares em outras regiões, organizadas fora de todos os sindicatos (incluídos os sindicatos “esquerdistas”: a cidade de Nantes, no oeste da França, foi mais ou menos dominada pelos sindicatos durante a greve).

Acresce que um punhado de pessoas que compartilhavam idéias comunistas (uma dúzia, no máximo) estavam profundamente envolvidas em sua ação e funcionamento. O resultado foi reduzir ao mínimo a influência da C.G.T., dos trotskistas e maoístas. O Comitê estava fora de todas as organizações partidárias e sindicatos – tradicionais e extremistas - e tentou superar o limite da fábrica, prenunciando o que acontece desde 1968. Seu desaparecimento, depois da realização de suas tarefas, antecipou o fim das organizações que surgiram desde então, nas lutas mais características dos anos atuais.

Eis a grande diferença entre a situação atual e o que aconteceu na década de 1930. Em 1936, na França, o proletariado lutou a reboque de organizações “operárias” e pelas reformas que elas pregavam. Assim, a semana de quarenta horas e as duas semanas de férias pagas foram consideradas uma vitória real dos trabalhadores, cuja reivindicação essencial era a igualdade de condições entre os assalariados. Estas reivindicações foram impostas por uma fração da classe dominante. Hoje, a classe operária não reivindica melhoras nas suas condições de vida. Os programas de reforma apresentados pelos sindicatos e partidos se assemelham muito aos do Estado. Foi De Gaulle quem propôs a “participação”, como remédio para o que ele chamou de sociedade “mecânica”.

Parece que só uma fração da classe dominante analisou a extensão da chamada “crise da civilização” (A. Malraux). Desde então, todas as organizações - sindicatos e partidos, sem exceção - se juntaram, de uma maneira ou outra, para o grande programa de reforma. O P.C.F. incluiu a “participação real” em seu programa governamental. A central sindical C.F.D.T. prega a autogestão, que também é apoiada por grupos de extrema-esquerda defensores dos “conselhos operários”. Os trotskistas propõem o “controle operário”, como programa mínimo para um “governo operário”.

Supostamente, toda essa preocupação teria como objetivo acabar com a separação entre o trabalhador e o produto de seu trabalho. Esta é uma visão “utópica” do capital e que nada tem a ver com o comunismo. A “utopia” capitalista procura se livrar do lado mau da exploração. O movimento comunista não se exprime numa crítica formal do capital. Não quer mudar as condições de trabalho, mas sua função, substituindo a produção de valores de troca pela produção de valores de uso. Enquanto os sindicatos e partidos discutem nos limites de um mesmo programa, o programa do capital, o proletariado tem uma atitude não-construtiva. Além de suas ações políticas práticas, não “participa” do debate organizado nessa situação e não faz uma investigação teórica de suas próprias tarefas. Este é um período de grande silêncio do proletariado. O paradoxo é que a classe dominante tenta expressar as aspirações dos proletários, à sua maneira. Uma fração da classe dominante entende que as condições atuais de apropriação da mais-valia são um obstáculo para o funcionamento da economia. Seu programa é dividir a torta com uma classe operária que, “lucrando” com o capital e “participando” dele, seja mais produtiva. Estamos num ponto em que o capital almeja sua própria sobrevivência 2. Mas, para consegui-la, terá de se livrar dos capitais parasitários, isto é, das frações que não produzem suficiente mais-valia.

Em 1936, os proletários tentaram alcançar o nível de outros assalariados. Hoje em dia, é o capital que impõe aos setores assalariados privilegiados as condições gerais de vida dos proletários. O conceito de participação implica igualdade diante da exploração imposta pelas necessidades da acumulação. Assim, a participação é um “socialismo” da miséria. O capitalismo quer reduzir os custos dos setores necessários à sua sobrevivência mas que não produzem valor diretamente.

No curso de suas lutas, os proletários entendem que a possibilidade de melhorar suas condições materiais é limitada e, sobretudo, já planejada pelo capital. A classe operária não pode mais intervir baseada num programa que realmente alteraria suas condições de vida dentro do capitalismo. As grandes lutas da primeira metade do século XX: pela jornada de oito horas, pelas quarenta horas semanais, férias pagas, sindicalismo industrial, estabilidade no emprego etc. estabeleceram um tipo de relação entre o proletariado e o capital que permitia aos operários uma certa eficiência “capitalista”. Hoje, o próprio capital impõe reformas e generaliza a igualdade de todos enquanto assalariados. E segmentos integrados da classe operária estariam dispostos a combater por objetivos intermediários, como no início do século ou na década de 1930. É óbvio, porém, que enquanto não houver uma clara perspectiva comunista não acontecerá a formação de organizações proletárias numa base comunista. Isto não quer dizer que os objetivos comunistas repentinamente se tornarão nítidos para todos. Mas a classe operária, a única que produz mais-valia, está no núcleo da crise do capitalismo e terá que se destruir, com todas as outras classes, além de simultaneamente criar os órgãos dessa autodestruição suprimindo o capitalismo. A organização comunista emergirá no processo prático de destruição da economia burguesa e de criação de uma comunidade humana mundial, tendo sido abolidas a mercadoria e a troca.

O movimento comunista tem se afirmado continuamente desde o início do capitalismo. Eis por que o capital é forçado a manter vigilância e violência constantes contra toda ameaça ao seu funcionamento normal. Desde a conspiração secreta de Babeuf, em 1795, o movimento operário enfrenta uma violência crescente e árduas lutas, demonstrando que o capitalismo é não o auge da humanidade, mas sua negação.

Ainda que a greve de maio de 1968 tenha tido apenas resultados positivos imediatos, sua força foi que ela não fez nascer ilusões duráveis. O “fracasso” de maio é o fracasso do reformismo, e o fim do reformismo permitiu lutar num nível totalmente diferente: uma luta contra o próprio capital, não contra seus efeitos. Em 1968, todo mundo pensou numa “outra” sociedade. O que as pessoas disseram raramente foi além da noção geral de autogestão. Excetuada a revolução comunista - que somente pode ser desenvolvida se o proletariado, a classe que produz mais-valia, a dirige -, todas as demais ações só podem se desenvolver e serem refletidas dentro da esfera capitalista, a do capital reformando a si mesmo.

Por trás das críticas parciais e alienadas vislumbramos o início da crise do valor, que é característica do período histórico atual. Estas idéias não vêm de lugar nenhum; elas sempre aparecem como expressões da comunidade humana que existe potencialmente em cada um de nós. Sempre que a falsa comunidade do trabalho assalariado é questionada, emerge a tendência para uma organização social em que as relações não são mais mediatizadas pelas necessidades do capital.

Desde maio de 68, a atividade do movimento comunista tende a ser crescentemente concreta.

B) Greves e Lutas Operárias, desde 1968

Enquanto, nos anos posteriores à segunda guerra mundial, as greves - mesmo as mais importantes - eram mantidas sob controle e não seguidas por crises políticas e monetárias, os últimos anos têm visto uma renovação das rebeliões industriais na França, Itália, Inglaterra, Bélgica, Alemanha Ocidental, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal, Suíça... Na Polônia, os trabalhadores atacaram o quartel general do PC cantando ”A Internacional”. O processo foi o mesmo em quase todos os casos. Uma minoria inicia o movimento com seus próprios objetivos; a seguir, o movimento se espalha para outras categorias de trabalhadores na mesma empresa; as pessoas se organizam (piquetes de greve, comitês operários nos locais de trabalho, nas linhas de montagem); os sindicatos cuidam para ser os únicos a negociar com a gerência; finalmente, os sindicatos conseguem que os trabalhadores voltem ao trabalho, depois de apresentar slogans unitários dos quais ninguém gosta mas todos aceitam por causa da incapacidade de formular outros. O único movimento que foi além do estágio de greve, tal como agora existe, foram as rebeliões e greves na Polônia entre dezembro de 1970 e janeiro de 1971.

O que aconteceu, brutalmente na Polônia, só existe como tendência no resto do mundo industrial. Na Polônia, não existe um mecanismo de “compensação”, um poder capaz de amortecer a crise social. A classe dominante teve de atacar diretamente o proletariado, para manter a acumulação do capital (extração de mais-valia) em condições normais. Os acontecimentos na Polônia revelam que a crise do capital tende a se espalhar a todas as áreas industriais, e exemplificam o comportamento da classe operária no centro da crise.

O estopim do movimento foi a necessidade de defender o preço médio de venda da força de trabalho (salário). Mas o movimento avançou imediatamente para outro campo, confrontando a sociedade capitalista enquanto tal: os proletários foram forçados a atacar os órgãos de opressão. O partido e sindicato oficiais foram atacados, o edifício do partido foi destruído. Em algumas cidades, estações ferroviárias eram mantidas vigiadas para o transporte de tropas. O movimento foi forte suficiente para formar um órgão de negociação: um comitê operário para a cidade. O próprio fato de que Gierek teve de comparecer em pessoa nos estaleiros deve ser considerado uma vitória da classe operária como um todo. Um ano depois, Fidel Castro foi ao Chile para pedir aos operários das minas de estanho que cooperassem com o governo (“socialista”). Na Polônia, os proletários não enviaram delegados ao poder central para apresentar suas exigências: o governo foi até eles para negociar... a inevitável rendição dos proletários.

Face à violência do Estado, a classe operária criou seus próprios órgãos de violência. Nenhum líder antecipou a organização da revolta: foi produzida pela natureza da sociedade a revolta que tentou destruí-la. Os líderes (o comitê operário da cidade) só apareceram depois que o movimento alcançou o ponto mais alto que sua situação permitiu. O órgão de negociação é só uma expressão da percepção, por ambos os lados, de que havia apenas uma solução possível. O que caracteriza este órgão de negociação é a ausência de delegação de poder. Ele antes representa o limite externo de um movimento que, na situação atual, não pôde ir além da negociação. As reformas, mais uma vez, são propostas pelo capital, ao passo que o proletariado se expressa na recusa prática; ele deve aceitar as propostas do poder central na medida em que sua práxis ainda não é forte o suficiente para destruir a base desse poder.

A luta proletária tende a opor diretamente sua própria ditadura à do capital, a se organizar numa base diferente da do capital e, assim, a pôr a questão da transformação da sociedade em ato. Quando as condições existentes são desfavoráveis para um ataque geral, ou quando este ataque fracassa, as formas da ditadura se desintegram, o capital triunfa de novo, reorganiza o proletariado de acordo com sua lógica, desvia a violência para seus próprios objetivos e separa o aspecto formal da luta de seu conteúdo real.

Devemos nos livrar da velha oposição entre “ditadura” e “democracia”. Para o proletariado, “democracia” não significa se organizar como um parlamento, de maneira burguesa; para ele, a “democracia” é um ato de violência por meio do qual destrói todas as forças sociais que o impedem de se expressar e que o mantêm como uma classe dentro do capitalismo. A “democracia” não pode ser nada mais do que a ditadura. Isto se observa em toda greve: a forma de sua destruição é precisamente a “democracia”. Tão logo existe uma separação entre um órgão de tomada de decisões e um órgão de ação, o movimento não está mais na fase ofensiva. Está sendo desviado para o campo do capital. Opor a democracia operária à “burocracia” dos sindicatos significa atacar um aspecto superficial e ocultar o conteúdo real das lutas proletárias, que têm uma base totalmente diferente. A democracia é hoje um slogan do capital: ele propõe a autogestão de sua própria negação. Todos aqueles que aceitam esse programa propagam a ilusão de que a sociedade pode ser mudada por uma discussão geral seguida por um voto (formal ou informal) que decidirá o que fazer. Ao manter a separação entre decisão e ação, o capital tenta manter a existência das classes. Toda crítica meramente formal - isto é, que não vai até as raízes de tal separação - perpetua a divisão. É difícil imaginar uma revolução que começa com os proletários levantando as mãos para votar. A revolução é um ato de violência, um processo através do qual as relações sociais são radicalmente transformadas. 3

Não pretendemos fornecer uma descrição das greves que tem acontecido desde 1968. Carecemos de informação, um grande número de livros e panfletos foram escritos sobre elas. Queremos destacar o que elas têm em comum, e de que maneira sinalizam um período no qual a perspectiva comunista aparecerá cada vez mais concretamente.

Nós não dividimos a sociedade capitalista em diferentes setores - “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”. É verdade que algumas diferenças podem ser observadas, mas estas não ocultam a natureza das greves, nas quais não há diferenças reais entre lutas de “vanguarda” e de “retaguarda”. O processo das greves é cada vez menos determinado por fatores locais e cada vez mais pelas condições internacionais do capitalismo. Assim, as greves e revoltas na Polônia resultaram de um contexto internacional; a relação entre Ocidente e Oriente foi a raiz desses acontecimentos em que as pessoas cantam “A Internacional” e não o hino nacional. O capital ocidental e oriental têm um interesse comum: assegurar a exploração de seus respectivos proletários. E os relativamente subdesenvolvidos capitalismos “socialistas” precisam manter uma estrita eficiência capitalista para concorrer com seus mais modernos vizinhos ocidentais.

A luta comunista começa num dado lugar, mas sua existência não depende de fatores puramente locais. Ela não se desenvolve conforme os limites de seu lugar de nascimento. Os fatores locais se tornam secundários frente aos objetivos do movimento. Se uma luta se limita a condições locais, ela é imediatamente engolida pelo capitalismo. O nível alcançado pelas lutas proletárias não é determinado por fatores locais, mas pela situação global do capitalismo. Assim que a classe que concentra os interesses revolucionários da sociedade surge, ela imediatamente busca, na sua situação, e sem qualquer mediação, o conteúdo e o objetivo de sua atividade revolucionária: esmagar seus inimigos e tomar as decisões impostas pelas necessidades da luta. As conseqüências de suas próprias ações forçam-na a ir mais longe.

Ainda há uma sociedade capitalista na qual o proletariado é somente uma classe do capitalismo, uma parte do capital, situação em que ela não é revolucionária. As máquinas dos partidos e sindicatos ainda cuidam de controlar e dirigir setores consideráveis do proletariado para os fins capitalistas (como, na França, o direito à aposentadoria aos 60 anos). As eleições gerais e muitas greves são organizadas por sindicatos para reivindicações limitadas. Todavia, é cada vez mais evidente que nas maiores greves a iniciativa não vem dos sindicatos. É dessas greves que estamos falando. A sociedade industrial não foi dividida em setores, nem o proletariado se dividiu em jovens, velhos, nativos, imigrantes, estrangeiros, especializados e não-especializados. Não nos opomos a todas as descrições sociológicas; elas podem ser úteis, mas não nos interessam aqui.

Devemos tentar estudar as rupturas proletárias para além da sociedade capitalista. Tal processo tem um centro definido. Não aceitamos a visão sociológica de classe operária porque não analisamos o proletariado sob um ponto de vista estático, mas em sua luta contra o valor, contra a existência do trabalho como mercadoria. O centro deste movimento e sua liderança devem estar na classe que produz valor. De outro modo, isso significaria que o valor de troca não existe mais e que já estamos além do estágio capitalista. De fato, o profundo significado do movimento proletário é parcialmente oculto pelas lutas na periferia, nos limites da produção de valor. Foi o caso de maio de 1968, quando os estudantes mascararam a luta real, que ocorreu em outro lugar.

De fato, as lutas periféricas (as ditas novas classes médias) são apenas um sinal da crise muito mais profunda que ainda está oculta. A reiteração da crise do valor implica, para o capital, a necessidade de racionalizar, isto é, de atacar os setores atrasados que são menos capazes de se proteger. Isto aumenta o desemprego e o número daqueles que não têm reservas. Mas sua intervenção não deve nos fazer esquecer o papel essencial jogado pelos trabalhadores produtivos na destruição do valor de troca.

C) Os Dois Aspectos mais Característicos das Greves

Por um lado, a iniciativa da greve surge dos proletários auto-organizados; por outro, a iniciativa de terminar a greve vem da fração da classe organizada em sindicatos. Estas iniciativas são conflitantes, uma vez que expressam dois movimentos opostos. Nada é mais estranho a uma greve do que seu fim. O fim de uma greve é um momento de interminável palavrório, quando a noção de realidade é superada pelas ilusões: muitas reuniões acontecem e os burocratas sindicais monopolizam a palavra; as assembléias gerais atraem cada vez menos pessoas e finalmente votam pelo reinício do trabalho. O fim da greve é um momento em que o proletariado fracassa e sucumbe ao controle do capital, é novamente atomizado e destruído como classe capaz de se opor ao capital. O fim de uma greve significa negociação, o controle do movimento, ou do que resta dele, por organizações “responsáveis” - os sindicatos. O início de uma greve significa justamente o oposto: aí, a ação do proletariado não tem nada a ver com formalismo. Os que não apóiam o movimento são empurrados para fora, sejam executivos, supervisores, trabalhadores, gerentes, comitês de base ou sindicatos oficiais. Os gerentes são aprisionados, as sedes dos sindicatos são atacadas por milhares de proletários, dependendo das condições locais. Durante a greve em Limbourg (Bélgica, inverno de 1970), a sede do sindicato foi arrasada pelos proletários. Cada ato proletário de uma luta autônoma se contrapõe à destruição do movimento. Não há lugar para “democracia”: pelo contrário, tudo é evidente, e todos os inimigos devem ser derrotados sem perda de tempo ou discussões. Uma energia considerável impulsiona a ofensiva, e parece que nada é capaz de pará-la.

Nesse estágio, parece inevitável que a energia da greve comece a se dissipar com o início das negociações. O mais importante é que esta energia parece não ter relação com as razões oficiais da greve. Se algumas dezenas de proletários levam à greve milhares de outros a partir de suas próprias reivindicações, eles o conseguem não só por causa de algum tipo de solidariedade, mas pela existência de uma comunidade imediata na prática. Devemos acrescentar o ponto mais importante: o movimento não faz qualquer exigência particular. A questão que o proletariado colocará na prática já está presente em seu silêncio. Em seus próprios movimentos, o proletariado não faz nenhuma exigência particular: é por isso que esses movimentos são as primeiras atividades comunistas de nossa época.

O que importa, no processo de ruptura com o capitalismo, é que o proletariado não mais reivindica reformas parciais e particulares. Assim, o proletariado cessa de ser uma classe, visto que não defende seus interesses de classe particulares. Este processo é diferente, de acordo com as condições. O movimento que mais avançou, na Polônia, mostrou que o primeiro passo do processo é a destruição dos órgãos capitalistas de repressão dentro do proletariado (principalmente os sindicatos); o proletariado, a seguir, deve se organizar para se proteger contra os órgãos de repressão fora do proletariado (forças armadas, polícia, milícia), e começa a destruí-los.

As condições específicas na Polônia, onde os sindicatos eram parte do aparato estatal, forçaram o proletariado a não fazer distinções entre os sindicatos e o Estado, já que não havia nenhuma. A fusão entre os sindicatos e o Estado apenas tornou evidente uma evolução que não aparece com nitidez em outros países, como França e Itália. Em muitos casos, os sindicatos ainda jogam o papel de amortecedor entre os trabalhadores e o Estado. Mas uma luta radical cada vez mais terá que atacar os sindicatos e as frações do proletariado dominadas pelos sindicatos. Foi-se o tempo em que os proletários formavam sindicatos para defender suas qualificações e o direito ao trabalho.

As atuais condições da sociedade obrigam o proletariado a não fazer qualquer reivindicação particular. A única comunidade organizada e tolerada pelo capital é a comunidade do trabalho assalariado: o capital tende a proibir todas as outras. Agora, o capital domina a totalidade das relações entre os homens. Torna-se óbvio que toda luta parcial é forçada a se inserir numa luta geral contra todo sistema de relações entre as pessoas: contra o capital. De outro modo, ela é integrada ou destruída.

Na paralisação dos ônibus e do metrô (R.A.T.P.) de Paris, no fim de 1971, a atitude resoluta dos condutores de metrô transformou a luta num movimento totalmente diferente de uma greve de uma categoria de proletários. O conteúdo do movimento não depende do que as pessoas pensam. A atitude dos condutores transformou suas relações com a gerência da R.A.T.P. e com os sindicatos, e revelou claramente a verdadeira natureza do conflito. O próprio Estado teve de intervir para forçar os condutores a recuar e aceitar a mediação dos sindicatos. Quer os condutores acreditem ou não, a greve não era mais deles; ela se tornou um assunto público e os sindicatos foram oficialmente reconhecidos como órgãos de coerção contra os trabalhadores, órgãos encarregados de restaurar a ordem normal das coisas. É impossível compreender a importância do “silêncio” do proletariado a menos que compreendamos o forte desenvolvimento do capitalismo até agora. Hoje em dia, é considerado normal que o fim da greve seja controlado pelos sindicatos. Isto não implica qualquer fraqueza por parte do movimento revolucionário. Pelo contrário, numa situação que não permite reivindicações parciais a serem alcançadas, é normal que não devam ser criados órgãos para terminar a greve. Assim, não se observa a criação de organizações proletárias que unam frações do proletariado fora dos sindicatos num programa de reivindicações específicas. Algumas vezes, grupos operários que se formam durante a luta opõem suas reivindicações às dos sindicatos. Mas suas possibilidades são destruídas pela própria situação, que não lhes permite existir por muito tempo.

Se esses grupos querem manter sua existência, eles precisam agir fora dos limites da fábrica, ou serão destruídos pelo capital. O desaparecimento desses grupos é um dos sinais da natureza radical do movimento. Se existissem como organizações, perderiam sua característica radical. Assim, eles desaparecerão e depois retornarão de um modo mais radical. A idéia de que os grupos proletários finalmente obterão êxito, depois de muitas experiências e fracassos, formando uma poderosa organização capaz de destruir o capitalismo, é similar à idéias burguesas de que uma crítica parcial gradualmente se torna radical. A atividade proletária não surge de experiências e não tem outra “memória” senão as condições gerais do capital, que a compelem a agir de acordo a sua natureza. O proletariado não acumula experiências; o fracasso de um movimento é ele mesmo uma demonstração adequada de suas limitações.

A organização comunista surgirá da necessidade prática de transformar o capitalismo em comunismo. A organização comunista é a organização da transição para o comunismo. Aqui reside a diferença fundamental entre nossa época e os períodos anteriores. Nas lutas que aconteceram entre 1917 e 1920, na Rússia e Alemanha, o objetivo era organizar uma sociedade pré-comunista. Na Rússia, as minorias revolucionárias do proletariado tentaram conquistar as outras frações, e mesmo os camponeses pobres. O isolamento dos revolucionários e as condições gerais do capitalismo tornaram-lhes impossível de imaginar a transformação prática de toda sociedade sem um programa que unisse todas as classes exploradas. Estes revolucionários foram circunstancialmente esmagados.

A diferença entre o presente e o passado decorre do grande desenvolvimento das forças produtivas e do incremento, quantitativo e qualitativo, do proletariado. Hoje, o proletariado é muito mais numeroso 4 e usa meios de produção altamente desenvolvidos. As atuais condições do comunismo foram desenvolvidas pelo capital. A tarefa do proletariado não é mais apoiar as frações progressistas do capital contra as reacionárias. A necessidade de uma transição entre a destruição do poder capitalista e o triunfo do comunismo, durante a qual o poder revolucionário cria as condições do comunismo, também desapareceu. Portanto, não há lugar para uma organização comunista como mediação entre as frações radicais e não-radicais do proletariado. O fato de que uma organização que apóia o programa comunista não consiga emergir durante o refluxo entre as maiores lutas é resultado de uma nova relação de classe no capitalismo.

Por exemplo, na França, em 1936, a reação do capital foi tal que se fez necessária uma mudança de governo antes que os trabalhadores pudessem obter o que queriam. Hoje, os governos lançam as reformas, criando situações onde os proletários se organizam para reivindicar como suas as necessidades da produção (participação, autogestão). A economia contemporânea exige cada vez mais planejamento. Tudo que está fora do plano é uma ameaça à harmonia social, sendo considerado não-social e deve ser destruído. Devemos ter isto em mente quando analisarmos greves ou tentativas de insurreição. Os sindicatos devem (a) aproveitar-se das lutas dos proletários, controlando-as; (b) opor-se a ações como sabotagem e interrupção da linha de montagem, para permanecer dentro dos limites do plano (acordos de produtividade, acordos salariais etc.).

D) Formas de Ação que não Podem Ser Recuperadas: Sabotagem e Interrupção da Linha

A sabotagem é praticada nos EUA há muitos anos e agora está se desenvolvendo na Itália e na França. Em 1971, durante uma greve nas ferrovias da França, a C.G.T. denunciou oficialmente a sabotagem e os “elementos irresponsáveis”. Diversas locomotivas foram desajustadas e algumas danificadas. Na greve da Renault, na primavera de 1971, vários atos de sabotagem danificaram veículos que estavam sendo montados. A sabotagem está se generalizando. A interrupção da linha, que já existia como fenômeno latente, agora está se tornando uma prática comum. Ela aumentou com a entrada de jovens proletários ao mercado de trabalho e a automação. É acompanhada por uma taxa de absenteísmo que causa sérios problemas para os capitalistas.

Esses acontecimentos não são novos na história do capitalismo. Novo é o contexto em que ocorrem. Eles são sintomas superficiais de um profundo movimento social e indicam um processo de ruptura com a sociedade existente. No início do século, a sabotagem foi usada como meio de fazer pressão contra os patrões e para forçá-los a aceitar a existência dos sindicatos. O sindicalista revolucionário francês Pouget examinou isso num panfleto chamado Sabotagem. Ele cita um orador proletário, num congresso operário em 1895: “Os patrões não têm o direito de contar com nossa caridade. Se eles se recusam a discutir nossas reivindicações, então é só pôr em prática a ‘operação tartaruga’ até que eles decidam nos ouvir.”

Pouget acrescenta: “Aqui está uma clara definição das táticas de sabotagem: MAU SALÁRIO, MAU TRABALHO. Esta linha de ação, usada pelos operários ingleses, pode ser aplicada na França, pois nossa posição social é similar à de nossos irmãos ingleses.”

A sabotagem era usada pelos operários contra o patrão para que este admitisse negociar com eles. Foi a maneira de conseguir liberdade de palavra. A sabotagem ocorreu num movimento que tentava incluir a classe operária na sociedade capitalista. A interrupção da linha era uma tentativa de melhorar as condições de trabalho. A sabotagem não era uma recusa rude e direta da sociedade como um todo. A diminuição do ritmo (operação tartaruga) apenas combate alguns efeitos do capitalismo. Outro estudo será necessário para examinar os limites de tais lutas e as condições de sua absorção pelo capital. A importância social dessas lutas permite considerá-las como a base do “reformismo moderno”. A palavra “reformismo” pode ser usada para designar ações que poderiam ser absorvidas pelo sistema capitalista. Se hoje elas são um estorvo à atividade normal, amanhã poderão estar ligadas à produção. Um capitalismo “ideal” poderia tolerar a autogestão das condições de produção: desde que um lucro normal é conseguido pela empresa, a organização do trabalho pode ser deixada aos trabalhadores.

O capitalismo tem realizado experimentos nessa direção, particularmente na Itália, nos EUA, na Suécia (Volvo)5. Na França, as organizações esquerdistas “liberais” como o P.S.U., a C.F.T.D. e a esquerda do Partido Socialista são expressões dessa tendência capitalista. Por enquanto, esse movimento não pode ser definido nem como reformista nem como anticapitalista. Esse “reformismo moderno” tem sido freqüentemente dirigido contra os sindicatos. Ainda é difícil descrever suas conseqüências para a produção capitalista. Mas podemos ver o quanto essas lutas atraem grupos de proletários que sentem a necessidade de agir fora dos limites impostos pelos sindicatos.

Mas a sabotagem é diferente. Existem dois tipos de sabotagem: (a) a que destrói o produto do trabalho ou a máquina; (b) a que danifica o produto de modo que ele não possa ser consumido. A sabotagem, tal como existe hoje, não pode ser controlada pelos sindicatos nem absorvida pela produção. Mas o capital pode impedi-la, aperfeiçoando a vigilância. Por esta razão, a sabotagem não pode ser uma forma de luta contra o capital. A sabotagem é um reflexo do indivíduo: ele se submete a ela, como uma paixão. Embora tenha que vender sua força de trabalho, ele age como o louco comparado ao “racional” (que vende sua força de trabalho e trabalha de acordo). Esta “loucura” consiste na recusa de se transformar em força de trabalho, de ser uma mercadoria. O indivíduo se odeia como essa criatura alienada, dividida; ele quer, através da destruição, da violência, reunir um ser que só existe no e pelo capital.

Esses atos estão fora dos limites de todo planejamento econômico e, portanto, da “razão”. Com freqüência, a imprensa os define como “anti-sociais” e “loucos”: parecem ser perigosos o bastante para que o capital tente suprimi-los 6. A ideologia cristã aceitou o sofrimento e a desigualdade social dos trabalhadores; hoje, a ideologia capitalista impõe a igualdade perante o trabalho assalariado, mas não tolera nada que se oponha ao trabalho assalariado. A necessidade que o indivíduo sente de repelir fisicamente sua transformação num ser totalmente submisso ao capital mostra o quanto esta submissão se tornou insuportável. Os atos destrutivos são parte da tentativa de abolir o trabalho assalariado como forma de comunidade social. No silêncio do proletariado, a sabotagem aparece como o primeiro balbuciar da fala humana.

As duas atividades - interrupção da linha e sabotagem - requerem um certo grau de acordo entre as pessoas que trabalham onde essas atividades são exercidas. Isto revela que, embora não apareçam organizações oficiais ou formais, existe uma rede clandestina de relações de teor anticapitalista. Esta rede é mais ou menos densa, de acordo com a importância da atividade, e desaparece com o fim da ação anticapitalista. Fora da ação prática(e, portanto,teórica)subversiva, é comum que os grupos que se formam em torno dessas tarefas se dissolvam. Com freqüência, sustentar uma ficção de “comunidade social” resulta numa atividade secundariamente anticapitalista, primariamente ilusória. Na maioria dos casos, esses grupos acabam se formando em torno de algum eixo político. Na França, núcleos de proletários se agrupam em torno de organizações como “Lutte Ouvrière”, alguns sindicatos da C.F.D.T. ou grupos maoístas. Isto não significa que minorias trotskistas, maoístas, ou do C.F.D.T. estão ganhando espaço entre os trabalhadores, senão que algumas minorias proletárias estão tentando romper o isolamento. Em todos os casos, o fim da rede e da ação anticapitalista significa a reorganização do proletariado pelo capital, como parte do capital.

Em resumo, fora de suas atividades, o comunismo não existe. A dissolução de um movimento social com conteúdo comunista é acompanhada pela dissolução de todo o sistema de relações que ele organizou. A democracia, a divisão das lutas em “econômicas” e “políticas”, a formação de uma vanguarda com uma “consciência” socialista, são ilusões do passado. Estas ilusões não são mais possíveis, à medida que um novo período se inicia. O fim das organizações - criadas pelo movimento, e que desaparecem quando o movimento acaba - não reflete a fraqueza do movimento, mas sua força. O tempo das falsas batalhas acabou. O único conflito real é aquele que leva à destruição do capitalismo.

E) A Atividade dos Partidos e Sindicatos em Face da Perspectiva Comunista

1) No mercado de trabalho, os sindicatos cada vez mais se tornam monopólios que compram e vendem força de trabalho. Quando se unificou, o capital unificou também as condições da venda de força de trabalho. No capitalismo, o proprietário da força de trabalho não é apenas forçado a vendê-la para poder sobreviver, mas deve também se associar a outros proprietários para poder vendê-la. No retorno da paz social, os sindicatos conseguem o direito de controlar o contrato de trabalho. Na sociedade moderna, os trabalhadores são cada vez mais obrigados a se sindicalizar se querem vender sua força de trabalho.

No início deste século, os sindicatos eram associações de trabalhadores que se uniram para defender o preço médio da venda de sua mercadoria. Os sindicatos não eram nada revolucionários, como foi revelado pela atitude deles na primeira guerra mundial, quando apoiaram a guerra, direta ou indiretamente. Na medida em que os proletários estavam lutando por sua existência como classe dentro da sociedade capitalista, os sindicatos não tinham função revolucionária. Na Alemanha, durante a insurreição de 1919-1920, os sindicatos se limitaram a defender seus direitos econômicos num contexto geral de luta contra o capitalismo 7. Fora do período revolucionário, o proletariado é apenas uma fração do capital representada pelos sindicatos. Enquanto outras frações do capital (capital financeiro e industrial) estavam formando monopólios, o proletariado, enquanto capital variável, também formava o seu monopólio, do qual os sindicatos eram os gestores.

2) Os sindicatos se desenvolveram, do fim do século XIX ao início do século XX, como organizações de defesa do trabalho qualificado. Isto ficou particularmente claro com o surgimento da A.F. L. nos EUA. Até a primeira guerra mundial (ou, melhor, até o surgimento da C.I.O., na década de 1930 nos EUA) os sindicatos cresceram apoiando-se nas frações relativamente privilegiadas da classe operária. Isto não significa que não tiveram influência nos segmentos mais explorados, mas essa influência só foi possível quando coerente com os interesses dos operários qualificados. Com o desenvolvimento da automação, a tendência é a substituição dos operários qualificados por técnicos cuja função é, também, de controlar e supervisionar as massas de proletários não-qualificados. Por isto, os sindicatos, tendo perdido importantes contingentes operários, cujas qualificações desapareceram, tentam recrutar os técnicos.

3) Os sindicatos representam o proletariado enquanto capital variável, força de trabalho. Esta força é a única capaz de valorizar capital. Os sindicatos têm de fundir seu programa de desenvolvimento com o do capital financeiro e industrial, se pretendem manter “a sua” força de trabalho sob controle. Os representantes do capital variável, do capital sob a forma de força de trabalho, mais cedo ou mais tarde devem se juntar aos representantes das frações do capital que estão no poder. As coalizões governamentais, que reúnem a burguesia liberal, tecnocratas, grupos políticos de esquerda e sindicatos, surgem como uma necessidade na evolução do capitalismo. O capital requer sindicatos fortes, capazes de propor medidas econômicas para valorizar o capital variável. Os sindicatos não são “traidores”, no sentido de que traem os interesses do proletariado: eles são coerentes consigo mesmos e com o proletariado, quando este aceita sua natureza capitalista.

4) Assim, torna-se compreensível a relação entre o proletariado e os sindicatos. Quando se inicia o processo de ruptura com o capitalismo, os sindicatos são imediatamente desmascarados e ultrapassados. Mas, assim que o processo termina, o proletariado não pode mais contribuir para sua reorganização pelo capital, ou seja, pelos sindicatos. Já não há ilusões “sindicalistas” no proletariado. Há apenas uma organização capitalista, isto é, “sindicalista”, do proletariado.

5) Na Itália, o atual desenvolvimento das relações entre sindicatos e patrões ilustra o que dissemos. A evolução dos sindicatos deve ser observada com atenção. É normal que, em áreas relativamente atrasadas (do ponto de vista econômico e comparadas com os EUA), como a França e a Itália, os efeitos da modernização da economia sejam acompanhados pela tendência mais moderna do capital. O que ocorre na Itália é, de várias maneiras, uma indicação do que está amadurecendo em outros países.

A situação italiana nos ajuda a compreender a francesa. Na França, a C.G.T. e o P.C.F. reagiram hostilmente às lutas proletárias. Na Itália, porém, a C.G.I.L. e o P.C.I. foram capazes de se reciclar para a nova situação. Este é um dos motivos da diferença entre o “maio” francês e o “maio” italiano. Na França, o maio de 68 aconteceu repentinamente e dificilmente pôde ser entendido. A situação italiana evolui mais lentamente, revelando suas tendências.

A primeira fase durou da primavera de 1968 até o inverno de 1971. O elemento principal foi o surgimento de lutas proletárias autônomas, fora e contra os sindicatos e organizações políticas. Os comitês de ação proletária logo se formaram, com uma diferença fundamental: na França, os proletários foram retirados das fábricas pelos sindicatos, o que na prática fez com que se iludissem quanto aos limites da fábrica. Na medida em que a situação geral não lhes permitia ir além, desapareciam. Na Itália, contudo, desde o início, os comitês proletários foram capazes de se organizar dentro das fábricas. Nem os patrões e nem os sindicatos podiam se opor a eles. Muitos comitês se formaram nas fábricas isolados dos outros, e todos começaram a questionar o ritmo da linha e a organizar a sabotagem.

Esta foi, de fato, uma forma alienada da crítica do trabalho assalariado. A cada passo do movimento italiano, a atividade dos grupos ultra-esquerdistas foi particularmente digna de nota. Sua atividade consistiu em reduzir o movimento ao seu aspecto formal. Ocultando seu conteúdo real, criaram a ilusão de que a “autonomia” das organizações operárias era, enquanto tal, revolucionária o suficiente para ser apoiada e afirmada. Eles glorificaram todos os aspectos formais. Mas, visto que não eram comunistas, não foram capazes de expressar o movimento existente na luta contra o ritmo da linha e as condições proletárias, movimento que orientava a luta contra o trabalho assalariado.

A luta proletária, enquanto tal, não encontrou resistência. Foi o que a desarmou. Nada mais podia fazer, senão se adaptar às condições da sociedade capitalista. Os sindicatos, por seu turno, reciclaram sua estrutura para anular o movimento operário. Segundo Trentin, líder do C.G.I.L., eles decidiram organizar “uma completa transformação do sindicato e um novo tipo de democracia de base”. Reformaram suas organizações de fábrica de acordo com o modelo dos comitês “autônomos” que surgiram nas lutas recentes. A capacidade dos sindicatos de controlar o conflito industrial fez com que aparecessem como a única força capaz levar os trabalhadores a retomar o trabalho. Houve negociações nalgumas grandes empresas, como a Fiat. O resultado deu ao sindicato o direito de interferir na organização do trabalho (tempo e ritmo, normas de trabalho etc.). Em troca, a gerência da Fiat desconta a contribuição sindical do salário dos operários, como já acontecia na Bélgica. Ao mesmo tempo, sérios esforços são feitos para alcançar um acordo de união entre os maiores sindicatos: U.I.L. (socialista), C.I.S.L. (democrata cristão), C.G.I.L. (do P.C.I.).

NOTA: O exemplo italiano revela com nitidez a tendência dos sindicatos a se tornar monopólios que negociam as condições de produção de mais-valia com outras frações do capital. Abaixo, as opiniões de Petrilli, presidente da empresa estatal I.R. (Cartel do Estado), e de Trentin:

Trentin: “... o enriquecimento do cargo e a admissão de um grau de autonomia mais alto na tomada de decisões pelos grupos operários interessados (em cada fábrica) já são possíveis... Mesmo quando, devido ao fracasso do sindicato, os protestos operários levam a reivindicações ilusórias e irracionais, os operários exprimem sua recusa de produzir sem pensar, de trabalhar sem decidir; eles exprimem sua necessidade de poder.”

Petrilli: “Na minha opinião, é evidente que o sistema de linha de montagem implica um desperdício real de capacidades humanas e produz um compreensível sentimento de frustração no trabalhador. As tensões sociais resultantes devem ser encaradas realistamente como fatos mais estruturais do que conjunturais... A maior participação dos trabalhadores na elaboração dos objetivos da produção põe uma série de problemas, tendo a ver menos com a organização do trabalho do que com a definição do equilíbrio de poder dentro da empresa.”

Os programas são idênticos e os objetivos são os mesmos: o aumento da produtividade. O único problema que permanece é a distribuição do poder, que está na raiz da crise política em muitos países industriais. É provável que o fim da crise política seja acompanhado pelo surgimento do “poder operário” como poder do trabalho assalariado, sob várias formas: autogestão, coalizões “populares”, partidos socialistas-comunistas, governantes de esquerda com programas de direita, governos de direita com programas de esquerda... 8

3. Leninismo e ultra-esquerda

Capítulo 3 do livro Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista.

Introdução

O inestimável mérito da esquerda comunista alemã e de muitos grupelhos ultra-esquerdistas foi enfatizar a primazia da espontaneidade proletária. As potencialidades do comunismo estão na experiência proletária, não fora dela. A ultra-esquerda portanto apelou consistentemente para a essência do proletariado no combate às formas equivocadas de sua existência. Dos anos 20 aos 70, ela se firmou contra todas as mediações: o Estado, partidos e sindicatos, inclusive grupelhos e sindicatos anarquistas. Se Lênin pode ser resumido na palavra "partido", uma frase pode definir a ultra-esquerda: "os proletários por si mesmos"... Muito bem, mas a questão permanece: o que significa o "por si mesmo" dos proletários?

Essa questão deve ser tanto mais enfrentada porque, desde o comunismo de conselhos e passando pela Internacional Situacionista, tem sido cada vez mais influente.

A versão francesa deste texto surgiu de um grupo com raízes ultra-esquerdistas, mas que veio a questioná-las. Um primeiro esboço foi submetido a uma convenção organizada pela ICO (Informations et Correspondances Ouvrières), acontecida perto de Paris, em junho de 1969 1. A versão ampliada, em inglês, tinha como finalidade iniciar uma discussão com Paul Mattick.

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O que é a ultra-esquerda? É um produto e um dos aspectos do movimento revolucionário, subseqüente à primeira guerra mundial e que sacudiu a Europa capitalista sem destruí-la entre 1917 e 1921. As idéias da ultra-esquerda se originam naquele movimento dos anos 20 que foi a expressão de centenas de milhares de proletários revolucionários na Europa. Este movimento, que permaneceu minoritário, contrapôs-se à linha geral da Internacional Comunista para o movimento comunista internacional. Havia a direita (os social-patriotas, Noske...), o centro (Kautsky...), a esquerda (Lênin e a Internacional Comunista) e a ultra-esquerda. A ultra-esquerda era fundamentalmente uma oposição: uma oposição dentro e contra o Partido Comunista Alemão (K.P.D), dentro e contra a Internacional Comunista. Ela se afirmou criticando a ideologia predominante no movimento comunista, isto é: o leninismo.

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A ultra-esquerda estava longe de ser um movimento monolítico. Além disso, seus diversos componentes modificaram suas concepções. Por exemplo, a carta aberta de Gorter para Lênin exprimia uma teoria do partido que a ultra-esquerda não aceita mais. Com relação a dois pontos principais (a "organização" e o conteúdo do socialismo), deveríamos estudar as idéias que a ultra-esquerda reteve durante todo o seu desenvolvimento. O grupo francês ICO é o melhor exemplo de um grupo ultra-esquerdista atual.

A) O Problema da Organização

As idéias da ultra-esquerda resultam de uma experiência prática (principalmente, as lutas proletárias na Alemanha) e de uma crítica teórica (a crítica do leninismo). Para Lênin, o problema revolucionário fundamental era forjar uma "direção" capaz de levar os proletários à vitória. Quando os ultra-esquerdistas estudaram o surgimento das organizações de fábrica na Alemanha, concluíram que o proletariado não necessita de partido para fazer a revolução. Esta seria feita pelas massas auto-organizadas em conselhos operários e não "teleguiadas" por revolucionários profissionais. O Partido Comunista Operário Alemão (K.A.P.D.), cuja atividade é sintetizada teoricamente por Gorter na sua "Resposta a Lênin", considerava-se uma vanguarda cuja tarefa era conscientizar as massas sem dirigi-las, ao contrário do que prega a doutrina leninista. Esta doutrina foi rejeitada por muitos ultra-esquerdistas, que se opuseram à dupla existência das organizações de fábrica e do partido: os revolucionários não devem se organizar num corpo separado das massas. Esta discussão levou à criação, em 1920, da A.A.U.D.-E. (União Geral dos Operários da Alemanha - Organização Unitária), que criticava a A.A.U.D. (União Geral dos Operários da Alemanha) por ser controlada pelo K.A.P.D. (Partido Comunista Operário Alemão). A maioria do movimento de ultra-esquerda adotou o ponto de vista da A.A.U.D.-E. Na França, a atual atividade da I.C.O. se baseia no mesmo princípio: qualquer organização revolucionária que, coexistindo com órgãos criados pelos próprios operários, procure elaborar uma linha política e teórica coerente, acabará tentando dirigir os operários. Portanto, os revolucionários não se organizam fora dos órgãos "espontaneamente" criados pelos operários: eles apenas trocam e divulgam informações e estabelecem contatos com outros revolucionários; jamais tentam definir uma teoria geral ou estratégia.

Para compreender esta concepção, devemos voltar ao leninismo. A teoria leninista do partido se baseia numa distinção que pode ser encontrada em todos os grandes pensadores socialistas do período: o "movimento operário" e o "socialismo" (as idéias revolucionárias, a doutrina, o socialismo científico, o marxismo etc. - ele pode ter muitos nomes diferentes) são duas coisas fundamentalmente diferentes e separadas. Por um lado, há os proletários e suas lutas cotidianas, e, por outro, os revolucionários. Lênin afirma que as idéias revolucionárias devem ser "introduzidas" no proletariado. O movimento operário e o movimento revolucionário são diferentes: devem ser unidos pela direção dos revolucionários sobre os operários. Portanto, os revolucionários devem ser organizados e agir sobre o proletariado "de fora". A análise de Lênin, situando os revolucionários fora do movimento proletário, baseia-se na suposição de que os revolucionários vivem num mundo totalmente diferente dos proletários. Lênin não percebe que isto é uma ilusão. A análise de Marx e seu socialismo científico como um todo não são produtos de "intelectuais burgueses", mas da luta de classes em todos os níveis no capitalismo. O "socialismo" é a expressão da luta do proletariado. Ele foi conceitualmente elaborado por "intelectuais burgueses" (e por proletários altamente educados: J. Dietzgen) porque, até então, somente os revolucionários de origem burguesa podiam fazê-lo, mas foi o produto da luta de classes.

O movimento revolucionário, a dinâmica que leva ao comunismo, resulta do capitalismo. Examinemos a concepção de partido de Marx. A palavra partido aparece freqüentemente nos escritos de Marx. Devemos distinguir entre os princípios de Marx sobre esta questão e sua análise de muitos aspectos do movimento proletário de sua época. Muitas delas foram errôneas (por exemplo, sua concepção do futuro do sindicalismo). Além disso, não se dispõe de nenhum texto no qual Marx tenha resumido suas idéias sobre o partido, mas de diversas notas esparsas e comentários. Todavia, um ponto de vista geral surge em todos esses textos. A sociedade capitalista enquanto tal produz um partido comunista, que nada mais é do que a organização do movimento objetivo (isto implica que a concepção, de Kautsky e Lênin, de uma "consciência socialista" que pode ser "levada" aos proletários não faz sentido) que impulsiona a sociedade para o comunismo. Lênin, revelando total incompreensão da luta de classes, viu um proletariado reformista e afirmou que a "consciência socialista" deveria ser introduzida para torná-lo revolucionário. Num período não-revolucionário, o proletariado não pode mudar as relações de produção capitalistas. Assim, ele procura mudar as relações de distribuição, reivindicando salários mais altos. Evidentemente, os proletários não "sabem" que estão mudando as relações de distribuição quando exigem aumentos salariais. Eles já tentam, "inconscientemente", agir sobre o sistema capitalista. Kautsky e Lênin não percebem o processo, o movimento revolucionário que surge no capitalismo; só percebem um aspecto dele. A teoria kautskiana-leninista da consciência de classe ignora o processo e só considera um de seus momentos transitórios: aquele em que o proletariado, "só com seus próprios recursos", não pode ser senão reformista, enquanto os revolucionários ficam fora do movimento operário. Na realidade, os revolucionários, suas idéias e teorias se originam nas lutas proletárias.

Num período não revolucionário, os proletários revolucionários, isolados em cada fábrica, tentam expor a natureza real do capitalismo e das instituições que o sustentam (sindicatos, partidos "operários"). Em geral, fazem isto com pouco êxito, o que é normal. E há também revolucionários, proletários e não-proletários, que lêem e escrevem, esforçando-se para fornecer uma crítica de todo o sistema. Esta divisão é produzida pelo capitalismo: uma das características da sociedade capitalista é a divisão entre trabalho intelectual e manual. Esta divisão, que existe em toda a sociedade, também existe no movimento revolucionário. Seria idealista esperar que o movimento revolucionário seja "puro", não fosse ele um produto desta sociedade.

Somente o êxito completo da revolução pode destruir essa divisão. Enquanto isso não ocorre, devemos lutar contra ela, em nosso movimento, enquanto característica do resto da sociedade. É um fato que muitos revolucionários não sejam inclinados à leitura, nem à teoria. Porém, é um fato transitório: os "proletários revolucionários" e os "teóricos revolucionários" são dois aspectos do mesmo processo. É um erro dizer que os "teóricos" devem guiar os "proletários". Mas é igualmente errado dizer, como a I.C.O., que a teoria coletivamente organizada é perigosa porque resultará numa direção sobre os operários. A I.C.O. toma uma posição simétrica à de Lênin. O processo revolucionário é um processo orgânico e, embora seus momentos estejam separados por um certo tempo, a emergência de qualquer situação revolucionária (ou mesmo pseudo-revolucionária) revela a profunda unidade dos vários elementos do movimento revolucionário.

O que ocorreu em maio de 1968, nos comitês operário-estudantis de ação no centro de Censier, em Paris? Alguns comunistas (ultra-esquerda) que antes desses eventos se dedicavam mais à teoria, atuaram com uma minoria de operários revolucionários. Antes de maio de 1968 (e desde então), não estavam mais separados dos operários do que cada operário dos outros numa situação "normal", não revolucionária, na sociedade capitalista. Marx não estava separado dos proletários quando escreveu O Capital, nem quando atuou na Liga dos Comunistas ou na Internacional. Enquanto atuava nessas organizações, ele não sentiu a necessidade (como Lênin), nem o temor (como a I.C.O) de se tornar um líder dos proletários.

A concepção de Marx - do partido como produto histórico da sociedade capitalista que assume diversas formas de acordo com o estágio e a evolução desta sociedade - nos capacita a superar o dilema: necessidade do partido / temor do partido. O partido comunista é a organização espontânea (ou seja, totalmente determinada pela evolução social) do movimento revolucionário criado pelo capitalismo. O partido é um produto espontâneo, nascido no terreno histórico da moderna sociedade. Tanto o desejo quanto o medo de "criar" o partido são ilusões. Ele não pode ser (ou não) criado: é um simples produto histórico. Por isto, os revolucionários não precisam nem construí-lo nem temer construí-lo.

Lênin tinha uma teoria do partido. Marx tinha outra, completamente diversa. A teoria de Lênin foi um dos elementos da derrota da revolução russa. A ultra-esquerda rejeitou todas as teorias do partido como perigosas e contra-revolucionárias. A teoria de Lênin não foi a causa da derrota da revolução russa. A teoria de Lênin só predominou porque a revolução russa fracassou (principalmente, devido a ausência da revolução no ocidente). Não devemos descartar todas as teorias do partido porque uma delas (a de Lênin) foi um instrumento contra-revolucionário. Infelizmente, a ultra-esquerda meramente adotou a concepção que é o exato contrário da de Lênin. Lênin queria construir um partido; a ultra-esquerda se recusa a construí-lo. A ultra-esquerda, assim, dá uma resposta diferente à mesma questão falsa: pró ou contra a construção do partido. A ultra-esquerda permaneceu no mesmo campo de Lênin. Nós, pelo contrário, não queremos meramente inverter o ponto de vista de Lênin; queremos abandoná-lo completamente.

Os grupos leninistas atuais (trotskistas, por exemplo) querem dirigir os operários. Os grupos de ultra-esquerda (a I.C.O., por exemplo) divulgam informação sem definir sua posição sobre os problemas. Divergimos de ambos, quando afirmamos ser necessária uma crítica teórica da sociedade atual que implique uma atividade coletiva, e que um grupo permanente de proletários revolucionários deve ser capaz de elaborar uma base teórica para sua ação. A elucidação teórica é condição necessária e elemento da unificação prática.

B) Gerindo o que?

A revolução russa morreu porque acabou desenvolvendo o capitalismo na Rússia. Formar um corpo eficiente de gestores se tornou sua meta. A ultra-esquerda logo concluiu que a gestão burocrática não é o socialismo e passou a defender a gestão operária. E uma teoria coerente foi criada, com os conselhos operários no centro, atuando como órgãos de combate dos proletários sob o capitalismo e como instrumento da gestão operária sob o socialismo. Assim, os conselhos têm um papel central na teoria da ultra-esquerda da mesma maneira que o partido na teoria leninista.

A teoria da gestão operária analisa o capitalismo em termos de gestão. Mas o capitalismo é, sobretudo, um modo de gestão? A análise revolucionária do capitalismo iniciada por Marx não salienta esta questão: quem gere o capital? Pelo contrário, Marx descreve tanto os capitalistas quanto os operários como meras funções do capital: "o capitalista enquanto tal é somente uma função do capital; o trabalhador, uma função da força de trabalho." Os líderes russos não "conduzem" a economia; são conduzidos por ela. O desenvolvimento da economia russa obedece às leis objetivas da acumulação capitalista. Em outras palavras, quem gere está à serviço de relações de produção definidas, que o compelem. O capitalismo não é um modo de GESTÃO, mas um modo de PRODUÇÃO baseado em RELAÇÕES DE PRODUÇÃO. A revolução visa a subverter radicalmente estas relações. A crítica revolucionária do capitalismo enfatiza o papel do capital, cujas leis objetivas são obedecidas pelos gestores da economia, tanto na Rússia quanto na América.

C) A Lei do Valor

O capitalismo se baseia na troca: inicialmente, apresenta-se como "uma imensa acumulação de mercadorias". Embora não possa existir sem a troca, o capitalismo não é apenas a produção de mercadorias; ele cresce e se desenvolve superando a produção simples de mercadorias. O capital é baseado fundamentalmente num tipo particular de troca, a troca entre trabalho vivo e trabalho acumulado. A diferença entre Marx e os economistas clássicos consiste principalmente na criação do conceito de força de trabalho: este conceito revela o segredo da mais-valia, ao diferenciar trabalho necessário e sobretrabalho.

Como as mercadorias se comparam entre si? Através de que mecanismo pode-se determinar que uma quantidade x de A tem o mesmo valor que uma quantidade y de B? Marx não encontra explicação para xA = yB na natureza concreta de A e B, nas suas respectivas qualidades, mas numa relação quantitativa: A e B podem ser trocados na proporção xA = yB porque ambos contém uma quantidade de "algo comum". Se abstrairmos a natureza útil e concreta de A e B, eles mantém somente uma coisa em comum: são "produtos do trabalho". A e B são trocados em proporções determinadas pelas respectivas quantidades de trabalho cristalizadas neles. A quantidade de trabalho é medida pela sua duração. O conceito de tempo de trabalho socialmente necessário, desenvolvido no aprofundamento da análise, é uma abstração: não se pode calcular o que uma hora de trabalho socialmente necessário representa numa dada sociedade. A distinção entre trabalho concreto e abstrato permite a Marx compreender o mecanismo da troca e analisar uma forma particular de troca: o sistema salarial.

"Os melhores pontos do meu livro são: 1) o duplo caráter do trabalho, conforme ele é expresso em valor de uso ou valor de troca. (toda a compreensão dos fatos depende disso.) Isto é enfatizado imediatamente, no primeiro capítulo..." 2

O tempo de trabalho, de fato, determina toda a organização social da produção e da distribuição. Regula as proporções em que as forças produtivas são usadas para propósitos específicos em locais específicos. A lei do valor "se afirma ao determinar as proporções de trabalho social, não no sentido geral de que se aplicaria a todas as sociedades, mas somente no sentido exigido pela sociedade capitalista; em outras palavras, estabelece uma distribuição proporcional de todo trabalho social de acordo com as necessidades específicas da produção capitalista". 3

Esta é uma das razões por que o capital não é investido numa fábrica na Índia, mesmo que a produção dessa fábrica seja necessária para a sobrevivência da população. O capital sempre vai aonde pode se multiplicar com maior rapidez. A regulação pelo tempo de trabalho obriga a sociedade capitalista a desenvolver determinada produção somente onde o tempo de trabalho socialmente necessário para essa produção é no máximo igual ao tempo de trabalho médio.

Eis a lógica do capital: valor de troca determinado pelo tempo de trabalho médio.

D) A Contradição do Tempo de Trabalho

Mencionamos o papel central que o sobretrabalho tem na produção da mais-valia. Marx ressaltou a origem, a função e o limite do sobretrabalho: "... Somente quando um certo grau de produtividade foi alcançado - de maneira que uma parte do tempo de produção é suficiente para a produção imediata -, uma parte cada vez maior pode ser aplicada à produção de meios de produção. Isso requer que a sociedade seja capaz de esperar; que uma grande parte da riqueza já criada seja retirada tanto do consumo imediato quanto da produção para o consumo imediato, para empregar esta parte do trabalho que não é imediatamente produtivo (dentro do próprio processo material de produção)." 4

O trabalho assalariado é o meio de desenvolvimento das forças produtivas.

"A economia real consiste em reduzir ao mínimo o tempo de trabalho e os custos de produção; mas esta redução [é] idêntica ao desenvolvimento da força produtiva." 5

O trabalho assalariado possibilita a produção de mais-valia através da apropriação do sobretrabalho pelo capital. Neste sentido, a condição miserável do trabalhador é uma necessidade histórica. O proletário deve ser forçado a vender sua força de trabalho. É assim que as forças produtivas se desenvolvem e incrementam a parte de sobretrabalho na jornada de trabalho: o capital cria "uma grande quantidade de tempo disponível... (isto é, a possibilidade para o desenvolvimento das forças produtivas dos indivíduos e, portanto, da sociedade)." 6

A "existência antitética" 7 ou contraditória do sobretrabalho é bastante clara:

- ele cria a "riqueza das nações";

- ele leva à miséria os proletários que o fornecem.

O capital "é portanto, apesar de si mesmo, instrumental na criação de tempo social disponível, reduzindo o tempo de trabalho de toda a sociedade a um mínimo e, conseqüentemente, liberando tempo para o desenvolvimento de todos." 8

No comunismo, o excedente de tempo em relação ao tempo de trabalho necessário perderá o caráter de sobretrabalho que os limites históricos das forças produtivas lhe foram conferidos sob o capitalismo. O tempo disponível não será mais baseado na pobreza do trabalhador. Não haverá necessidade de utilizar miséria para criar riqueza. Quando a relação entre trabalho necessário e sobretrabalho for superada pela acréscimo das forças produtivas, o excedente de tempo além do trabalho necessário para a existência material perderá a forma de sobretrabalho.

"O tempo livre - que é tanto ócio quanto atividade - transforma naturalmente seu possuidor num sujeito diferente, que então entra no processo de produção direto como um sujeito diferente." 9

A economia de tempo de trabalho é uma absoluta necessidade para o desenvolvimento da humanidade. Ela fundamenta a possibilidade do capitalismo e, num estágio mais avançado, a do comunismo. O mesmo movimento desenvolve o capitalismo e torna o comunismo simultaneamente necessário e possível.

A lei do valor e a medição pelo tempo de trabalho médio estão envolvidos no mesmo processo. A lei do valor exprime o limite do capitalismo e tem um papel necessário. Enquanto as forças produtivas ainda não são suficientemente desenvolvidas e o trabalho imediato permanece o fator essencial da produção, a medição pelo tempo de trabalho médio é uma necessidade absoluta. Mas, com o desenvolvimento do capital, especialmente do capital fixo, "a criação da riqueza real passa a depender menos do tempo de trabalho e da quantidade de tempo empregado do que da potência dos agentes postos em movimento durante o tempo de trabalho, potência cuja 'poderosa eficácia', enquanto tal, perde toda relação com o tempo de trabalho imediato gasto na sua produção, dependendo mais do estado geral da ciência e da tecnologia, ou da aplicação desta ciência à produção." 10

A miséria do proletariado foi a condição para um crescimento considerável do capital fixo, no qual todo o conhecimento científico e técnico é "fixado". A automação, cujos efeitos agora estamos começando a ver, é porém um estágio desse desenvolvimento. O capital ainda continua funcionando através da medição do tempo de trabalho médio.

"O próprio capital é uma contradição em processo: pressiona para minimizar o tempo de trabalho, mas, por outro lado, usa o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária ao mesmo tempo que o aumenta na forma supérflua." 11

A bem conhecida contradição entre forças produtivas e relações de produção não pode ser compreendida se não observarmos a ligação entre as seguintes oposições:

a) contradição entre a função do tempo de trabalho médio como regulador das forças produtivas "subdesenvolvidas", e o crescimento das forças produtivas que tendem a destruir a necessidade de tal função.

b) contradição entre a necessidade de desenvolver ao máximo o sobretrabalho do trabalhador a fim de produzir o máximo de mais-valia possível, e o próprio crescimento do sobretrabalho, que torna sua supressão possível.

"Assim que o tempo de trabalho na forma imediata deixa de ser a principal fonte de riqueza, também deixa e deve deixar de ser sua medida, e, por conseqüência, o valor de troca [deve deixar de ser a medida] do valor de uso. O sobretrabalho da massa deixou de ser a condição para o desenvolvimento da riqueza geral, assim como o não-trabalho de alguns poucos deixou de ser a condição do desenvolvimento dos poderes gerais do intelecto humano." 12

A "libertação humana", profetizada pelos pensadores utópicos (do passado e do presente), é então possível: "Com isso, a produção baseada no valor de troca desmorona... O livre desenvolvimento das individualidades, e, portanto, não a redução do trabalho necessário com vistas a aumentar o sobretrabalho, mas a redução geral do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, que então corresponde ao desenvolvimento artístico, científico etc. dos indivíduos no tempo livre, e com os meios criados, por e para todos eles." 13

"Toda criança sabe que se uma nação deixa de trabalhar, não digo um ano, mas mesmo algumas semanas, ela morrerá. Toda criança sabe, também, que as massas de produtos que correspondem às diferentes necessidades exigem massas de trabalho social diferentes e quantitativamente determinadas. Que esta necessidade de distribuição do trabalho social em proporções definidas não pode ser abolida somente mudando a maneira de seu aparecimento, é evidente por si mesmo. Nenhuma lei natural pode ser abolida. O que pode mudar, em circunstâncias historicamente diferentes, é somente a forma em que estas leis se afirmam." 14

Marx contrapõe, à regulação pelo trabalho socialmente necessário, a regulação pelo tempo disponível. Evidentemente, estes não são dois métodos que se podem escolher ou descartar, mas dois processos históricos objetivos que envolvem todas as relações sociais. São conhecidas as páginas da Crítica do Programa de Gotha nas quais Marx explica que "na sociedade baseada na propriedade comum dos meios de produção, os produtores não trocam seus produtos; tampouco o trabalho empregado nos produtos aparece como valor destes produtos, como uma qualidade material que eles adquiriram, desde então, ao contrário do capitalismo, o trabalho individual já não existe numa modalidade indireta mas diretamente como parte componente do trabalho total." 15

"A cada um de acordo com suas necessidades", segundo Marx, não significa que "tudo" existirá em abundância; a noção de "abundância" absoluta é um absurdo, historicamente. Terá de haver alguma espécie de cálculo e escolha, não com base no valor de troca, mas no valor de uso, na utilidade social do produto considerado. (Deste modo, o problema dos "países subdesenvolvidos" será visto e tratado de outra maneira.) Marx foi muito claro, na Miséria da Filosofia: "Numa sociedade futura, em que o antagonismo de classe cessará, pois não haverá nenhuma classe, o uso não mais será determinado pelo tempo mínimo de produção; ao contrário, o tempo dedicado à produção de diferentes artigos será determinado pelo grau de sua utilidade social." 16

Assim, o texto sobre a passagem do "reino da necessidade" para o "reino da liberdade" 17 é elucidado. A liberdade é considerada como uma relação na qual o homem, dominando o processo de produção da vida material, será enfim capaz de adaptar suas aspirações ao nível alcançado pelo desenvolvimento das forças produtivas. 18 O crescimento da riqueza social e o desenvolvimento de cada individualidade coincidem.

"Pois a riqueza real é a potência produtiva de todos os indivíduos. Então, a medida da riqueza não é mais o tempo de trabalho, mas o tempo disponível." 19 Assim, Marx está completamente certo ao descrever o tempo como a dimensão da liberdade humana.

Então, fica claro que a dinâmica analisada por Marx exclui a possibilidade de qualquer via gradual para o comunismo, com a destruição progressiva da lei do valor. Ao contrário, a lei do valor continua se afirmando violentamente até a supressão do capitalismo: a lei do valor nunca cessa de se destruir - mas somente para reaparecer num nível mais alto. Vimos que esse movimento tende a abolir sua necessidade. Mas ele não cessa de existir e de regular o funcionamento do sistema. Uma revolução é, pois, necessária.

A doutrina da autogestão da sociedade pelos conselhos operários não entende a dinâmica do capitalismo. Ela mantém todas as categorias e características do capitalismo: o trabalho assalariado, a lei do valor, a troca. O socialismo que propõe nada mais é do que capitalismo gerido democraticamente pelos trabalhadores. Se fosse posto em prática haveria duas possibilidades: a) os conselhos operários tentariam fazer a empresa funcionar como não-capitalista, o que é impossível enquanto as relações de produção capitalistas ainda existirem. Neste caso, os conselhos operários seriam destruídos pela contra-revolução. As relações de produção não são relações homem-a-homem, mas a combinação de vários elementos do processo de trabalho. A relação "humana" entre dirigentes e dirigidos é apenas uma forma secundária da relação fundamental entre trabalho assalariado e capital; b) os conselhos operários funcionariam como empresas capitalistas. Neste caso, o sistema de conselhos não sobreviveria; se tornaria uma ilusão, uma das diversas formas de associação entre capital e trabalho. Os gestores "eleitos" logo se tornariam idênticos aos capitalistas tradicionais: a função do capitalista, diz Marx, tende a se separar da função de operário. A gestão operária resultaria em capitalismo; isto é, o capitalismo não seria destruído.

A burocracia bolchevique assume o controle da economia. A ultra-esquerda, ao contrário, quer que as massas façam isso. A ultra-esquerda permanece no campo do leninismo: mais uma vez, dá uma resposta diferente à mesma questão (a gestão da economia). Afirmamos outra questão (a destruição da economia, do capitalismo). O que nós queremos não é a gestão, por mais "democrática" que seja, do capital, mas sua total destruição.

E) O Limite Histórico da Ultra-esquerda

Examinando o problema da "organização" e do conteúdo do socialismo, afirmamos a existência de uma dinâmica revolucionária sob o capitalismo. Gerado pelo capitalismo, o movimento revolucionário assume novas formas em cada situação. O socialismo não é só a gestão da sociedade pelos operários, mas o fim do ciclo histórico do capital. O proletariado não apenas toma o mundo; ele finaliza o movimento do capitalismo e da troca. Eis o que distingue Marx dos pensadores utópicos e reformistas: o socialismo é produzido pela dinâmica objetiva que o capital criou e difunde por todo o planeta. Marx insiste no conteúdo do movimento. Lênin e a ultra-esquerda insistiram nas suas formas: forma de organização, forma de gestão da sociedade, mas esqueceram o conteúdo do movimento revolucionário. Também isso foi um produto histórico. Foi a situação do período que impediu as lutas revolucionárias de terem um conteúdo comunista.

O leninismo exprimiu a impossibilidade da revolução na sua época. O conselhismo exprimiu sua necessidade, mas sem ver exatamente no que sua possibilidade consistia. As idéias de Marx sobre o partido foram abandonadas. Foi o tempo das grandes organizações reformistas, naquela época, dos partidos comunistas (que logo recairiam numa forma de reformismo). O movimento revolucionário não foi suficientemente forte. Por toda parte, na Alemanha, na Itália, na França, na Grã Bretanha, o início dos anos trinta caracterizou-se pelo controle das massas por líderes "operários". Reagindo a esta situação, os ultra-esquerdistas foram tomados pela fobia de se tornarem novos burocratas. Em vez de compreenderem os partidos leninistas como um produto da derrota proletária, eles recusaram qualquer partido, e, como Lênin, deixaram a concepção marxista do partido ficar esquecida. Ignorando o conteúdo do socialismo, todos os movimentos sociais, exceto na Espanha por um curto período, tentaram administrar o capitalismo e não superá-lo. Em tais condições, a ultra-esquerda não podia fazer uma crítica profunda do leninismo. Ela somente podia assumir o ponto de vista oposto, opor outras formas ao leninismo, sem ver o conteúdo da revolução. Isso é compreensível, uma vez que o conteúdo não lhes aparecia claramente. (Devemos, contudo, lembrar que a ultra-esquerda forneceu uma notável crítica da alguns aspectos do capitalismo - como a do sindicalismo e dos partidos "operários").

Essa é a razão de a ultra-esquerda ter substituído o fetichismo leninista do partido e da consciência de classe pelo fetichismo dos conselhos operários. Se, hoje, fazemos a crítica do leninismo e do ultra-esquerdismo é porque o desenvolvimento do capitalismo tornou visível o conteúdo real do movimento revolucionário.

Mas seria equivocado tratar as idéias da ultra-esquerda (temor de criar um partido e a gestão operária)como mera ideologia. Quando essas idéias apareceram, por volta de 1920, expressavam uma luta revolucionária real, e mesmo seus "erros" tiveram um papel positivo e progressivo na luta contra a social-democracia e o leninismo. Seus limites expressavam a atividade de milhões de proletários revolucionários. Mas as coisas mudaram muito desde 1920. Uma nova minoria de revolucionários está em lento processo de formação, como foi revelado pelos acontecimentos de 1968, na França, e outras lutas em diversos países.

Num período revolucionário, as lutas se estendem sem problema. O movimento revolucionário se unifica. A coerência teórica é um objetivo permanente, uma vez que sempre acelera a coordenação dos esforços revolucionários. Os revolucionários nunca hesitaram em agir coletivamente para propagar sua crítica da sociedade atual.

Eles não tentam dizer aos operários o que fazer; mas não deixam de intervir, com o pretexto de que "os operários devem decidir por si mesmos". Pois, por um lado, os operários só decidem fazer o que a situação geral os obriga; e, por outro lado, o movimento revolucionário é uma totalidade orgânica na qual a teoria é um elemento inseparável e indispensável. Os comunistas expressam e defendem os interesses gerais do movimento. Em todas as situações, eles não hesitam em dizer claramente o que está acontecendo e em fazer propostas práticas. Eles fazem parte da luta do proletariado e contribuem para construir o "partido" da revolução comunista.

(julho de 1969)

Apêndice 1: Carta aberta à Conferência de Grupos Revolucionários, realizada na Inglaterra em Maio de 1973

Apêndice 1 do livro Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista.

(NOTA DOS TRADUTORES: Esta carta foi enviada aos grupos que participaram da conferência e algumas pessoas, na Inglaterra e outros lugares, como uma contribuição para a discussão, para ser reproduzida e criticada. Ela resume alguns pontos essenciais, que seus autores deliberadamente simplificaram. Conscientes do caráter abstrato deste texto, queremos que ele seja o ponto de partida para uma discussão maior. )

Carta aberta à Conferência de Grupos Revolucionários, realizada na Inglaterra em Maio de 1973

I

Deve-se retornar à análise do capital para compreender a importância das lutas atuais dos proletários, e também a natureza dos grupos revolucionários e nossos problemas. A ação revolucionária não é uma repetição do passado, nem é totalmente diferente do que foi. Não há necessidade de abandonar noções relevantes: devemos compreendê-las e desenvolvê-las.

II

Os conflitos entre lucros e salários são apenas um aspecto de um movimento mais geral. O capital é uma acumulação de valor, isto é, de trabalho abstrato cristalizado 1. O caráter subversivo do proletariado surge do movimento de valorização e desvalorização. A verdadeira teoria comunista, como foi expressa por Marx e depois esquecida pela maioria dos marxistas, inclusive muitos revolucionários verdadeiros, não separa a “economia” da “luta de classes”. O Capital de Marx destrói os campos especializados de conhecimento. Somente conseguiremos ver os potenciais comunistas no capitalismo se compreendermos a sociedade moderna como um todo.

III

É inútil perder tempo discutindo se as ações proletárias surgem das crises econômicas ou se a luta dos operários cria dificuldades econômicas. O proletariado é uma mercadoria que tende a destruir-se enquanto tal, porque o sistema o ataca e suas condições de vida tornam-se insuportáveis. O capital tenta reduzir os salários e expulsar parte da classe operária da produção: ambas as tendências são conseqüências da acumulação de valor. O proletariado é um valor que não pode mais existir enquanto tal.

IV

A origem da crise não está no esgotamento do mercado, tampouco no aumento dos salários, mas na queda da taxa de lucro, que em si mesma inclui a ação dos operários. Como soma de valor, o capital encontra uma crescente dificuldade de valorizar-se na taxa média. Superprodução e aumento de salários têm sua importância, mas são apenas um momento do processo.

V

A revolução transforma todos os elementos sociais (pessoas, coisas, relações, idéias, natureza etc.) numa comunidade. A base material para tal sociedade já existe, porém todos esses componentes estão ainda dominados pelo valor, seja na forma de capital ou de simples mercadorias. A força de trabalho é uma mercadoria. Ao invés de capacitar o homem para se apropriar do mundo em níveis materiais, intelectuais e afetivos, o trabalho é apenas um meio de incrementar valor 2. A sabotagem tem sido uma tentativa de livrar-se do valor como relação social. Deve-se ter isso em mente quando se consideram greves selvagens, rebeliões etc., mesmo quando essas ações não assumem e expressam uma perspectiva comunista.

VI

O comunismo não é apenas um estágio que será alcançado no futuro: ele é também a força motriz do movimento atual. Isso nos ajuda a compreender como as rebeliões de Watts, Detroit e Newark (1965-7) atacaram a mercadoria 3, embora não tenham ultrapassado a esfera da distribuição. Isso também nos ajuda a compreender porque os operários da UCS (Upper Clyde Shipyard) na Escócia foram levados a fracassar desde o princípio: não porque sua ação não tenha sido organizada de uma maneira democrática, mas nenhuma mudança decisiva pode ocorrer enquanto os operários permanecerem na esfera da unidade de produção e gestão. O proletariado continua sendo a força revolucionária dominante, mas sua ação ultrapassa o limite da fábrica. A revolução muda a sociedade como um todo.

VII

A crise não pode ser estudada abstraindo o comunismo e vice-versa. Isso não significa que todas as crises têm potencialidades comunistas. O crash de 1929 foi uma crise no interior da economia e sociedade existentes, e não uma crise da economia e da sociedade. Isso ocorreu numa época em que a força social ativa - a classe operária - já havia sido derrotada. Não é o caso de hoje. De agora em diante, a guerra civil é possível, mesmo que as lutas atuais não mostrem uma atividade comunista positiva. Um movimento comunista extremo e violento ainda não surgiu das situações limitadas que têm acontecido.

VIII

A forma do movimento proletário é sempre realizada pelo seu conteúdo, pelo que ele pode de fato fazer em uma dada situação. No passado, uma revolução tinha de desenvolver alguns dos fundamentos do comunismo que ainda não haviam sido totalmente criados pelo capital. Uma mediação econômica e política era necessária, uma organização separada 4. Os partidos socialistas perderam rapidamente seu impulso “revolucionário”. Organizações unitárias nasceram de uma luta contra o reformismo : a IWW, depois a AAU e AAU-E, na Alemanha 5. Tinham como objetivo a união geral de militantes radicais e rejeitavam a interferência de grupos políticos. Sua atitude foi certa e ilusória ao mesmo tempo: os limites impostos pela fábrica são tão perigosos quanto os impostos pela política. Quando atacaram a sociedade, assumiram uma forma diferente, como na insurreição do Ruhr (1920). A ação cotidiana por “reformas” ainda tinha um impacto revolucionário. Movimentos como a CIO foram tentativas de lutar por reivindicações operárias da maneira mais intransigente 6. Esta foi a última luta antes da vitória do capital, a segunda guerra mundial. Hoje em dia, a situação é diferente. O reformismo é planejado pelo capital. As mais importantes greves mostram que os operários se esforçam por algo mais do que as demandas oficiais. A organização não-oficial não é principalmente uma maneira de alcançar reivindicações específicas, mas um modo de criar novas relações para outra luta, que ainda não é possível. Organizações permanentes e formais (tanto política quanto unitária) tendem a funcionar como um fim em si mesmas. A organização revolucionária não pode mais existir enquanto tal, como um instrumento que será usado depois. Ela somente pode ser organização das tarefas.

IX

Esse fenômeno corresponde a uma crise dentro do movimento. Por um lado, a organização é crescentemente necessária; por outro, organizações permanentes e instituídas, que existem independentemente de sua função, são reacionárias. O resultado é a considerável fraqueza do movimento, que é em parte inevitável. Há cinqüenta anos, a necessária existência de grupos formais criou outros perigos. Não existe fórmula mágica. Nosso próprio esforço não tem sido totalmente adequado. Porém, a solução não está numa atitude exclusivamente orientada para a fábrica, mas antes na expressão dos mais profundos aspectos das lutas. Corremos o risco de propor meros “princípios”. A abstração é um sinal de isolamento social. Seja como for, todos os verdadeiros revolucionários estão agora atuando junto com os operários de uma forma ou outra, e muitos deles são operários. Um ponto de vista radical implica a sistemática atividade nessa direção, e não apenas “contatos”.

X

As oposições burocracia x base e maioria x minoria são reais, mas secundárias. O comunismo é o movimento da vasta maioria, e os operários devem controlar sua ação por si mesmos. Neste sentido, o comunismo é “democrático”. O que é errado é sustentar a democracia como princípio. A única posição revolucionária consiste em avançar primeiro o conteúdo do movimento, e depois suas formas. Chefes e líderes sindicais tiram vantagem das ações da minoria e da maioria quando lhes convém. As lutas operárias muito freqüentemente começam pela ação de uma minoria. O comunismo não é o domínio de uma minoria ou da maioria. Tampouco a democracia funciona como um processo normal, sem ser organizada ou mesmo proposta; ela se torna uma instituição que age de um modo conservador, como todas as outras instituições. É basicamente errado enfatizar o momento e o mecanismo da tomada de decisões. Esta separação é típica do capital 7. Uma iniciativa radical inclui decisões - suas próprias decisões - sem qualquer tomada de decisões. Os trabalhadores devem decidir por si mesmos: mas o que é uma decisão? Ela sempre depende do que aconteceu. Toda vez que uma decisão revolucionária é alcançada democraticamente, ela já foi preparada previamente. Quem levanta a questão determina a resposta; quem organiza o voto já possui a decisão. Isto não é uma abstração, este problema se apresenta em toda luta. O revolucionário não propõe uma forma diferente de organização, mas uma solução diferente daquela do capital e dos sindicatos.

XI

Os conselhos operários foram uma forma de luta proletária cujo conteúdo comunista não aparece plenamente de um modo positivo. Mesmo na Alemanha, o movimento foi incapaz de alterar a estrutura social. O “comunismo de conselhos”, como oposto ao “comunismo de partido”, enfatizou a forma em detrimento do conteúdo. Pannekoek, em Os Conselhos Operários, define o comunismo como um sistema democrático de contabilidade de valores. O problema com Castoriadis e o Solidarity não é que eles estejam errados sobre as dinâmicas do capitalismo, mas que eles escolheram ignorá-las. No início de 1926, a KAI (Internacional Comunista dos Operários) descreveu o capitalismo como desenvolvimento de um tipo de pirâmide social sem distinções de classe, que é uma visão semelhante a de Castoriadis. Entretanto, a análise do capital como uma acumulação de valor explica como a concorrência cria o monopólio e como a democracia cria a burocracia. O capital se torna burocrático como um resultado de suas leis invariantes. Enquanto princípios, democracia e burocracia são igualmente errados. Ambos implicam a separação entre decisão e ação. A decisão se torna um momento aparentemente “especial” e privilegiado, mas ela é de fato pré-determinada. Numa época em que o proletariado era incapaz de atuar enquanto classe, o comunismo de conselhos ainda era positivo. A contradição fundamental não aparecia. Daí a procura por outra solução, num nível superficial. Isso agora é cada vez mais reacionário. O comunismo deverá derrotar a autogestão e sua ideologia pseudo-operária.

XVII

Combater a rejeição de Marx por Castoriadis é só um passo. A evolução de Socialisme ou Barbarie (1949-65) foi um processo lógico. Em seus primeiros textos, Castoriadis encara o valor como mero instrumento de medida, como um conceito útil, não como a realidade do capital. O comunismo de conselhos jamais concebeu o capitalismo como relação social, mas como sistema de gestão. Em Marx and Keynes 8, Mattick interpreta a análise do valor como uma crítica da natureza superficial da economia clássica: ele não vê a realidade do valor como um mecanismo social.

XIII

Existem e ocorrerão muitas lutas nas quais os elementos comunistas permanecerão muito fracos. Uma visão excessivamente otimista nos levaria a acreditar que estamos à beira da revolução, e isso nos permitiria evitar a questão de nossa própria intervenção. Mas não se pode afirmar que o comunismo não é ativo em casos em que ele não age positivamente. O que os operários radicais não fazem é tão importante quanto o que eles fazem. Nada pode ser eficiente sem uma clara perspectiva comunista. A pesquisa mais minuciosa sobre as greves selvagens ou sobre as taxas de lucro não nos leva a compreender para onde estamos indo.

XIV

Alguns grupos são uma expressão mais “direta” do proletariado. Outros podem ser mais “dogmáticos” quando tentam criticar todo o movimento histórico. Suas origens e experiências são muito diferentes. Os revolucionários são capazes de compreender e criticar uns aos outros. A comunicação é vital. Aqueles que estão apenas interessados na teoria, bem como aqueles que estão apenas interessados em organizar a atividade alheia, estão fora do movimento comunista.

Le mouvement communiste

Abril, 1973

Apêndice 2: Notas sobre Trotsky, Pannekoek, Bordiga

Apêndice 2 do livro Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista.

Notas sobre Trotsky, Pannekoek, Bordiga

Pode ser interessante examinar esses três homens, não enquanto indivíduos, mas como pontos de vista, porque na opinião de muitas pessoas que tentam compreender algo hoje em dia, eles representam três diferentes situações e análises.

I

Se voltarmos à querela de Trotsky com Lênin, em 1903-4 e nos anos seguintes, no período "menchevique" de sua vida, devemos admitir que ele corretamente viu o erro na concepção (de Kautsky & Lênin) de que a "consciência de classe" é introduzida no movimento operário pelo "partido". Isso foi explicitado em Nossas Tarefas Políticas, ainda que consideravelmente obscurecido por muitas outras idéias. Mas Trotsky refuta a concepção de Lênin de um ponto de vista democrático: ele não vê o comunismo como abolição da mercadoria e criação de um novo mundo, mas como domínio dos operários sobre a sociedade. Portanto, ele critica Lênin por substituir o proletariado pelo partido. Mas a teoria de Lênin deve ser refutada por outro ângulo: Lênin não viu o que Marx havia tentado mostrar. Transformado numa mercadoria e tendo todos os aspectos de sua vida reduzidos a mercadorias, o proletariado, quando o capital o força à revolta (por exemplo, depois de uma crise), não pode evitar a destruição da economia e todas as suas conseqüências sobre o trabalho, as relações pessoais, a vida afetiva, o uso do espaço e da natureza, a representação etc. Lênin, como os militantes da Segunda Internacional, não viu que o programa comunista era imanente ao proletariado. Essas pessoas ignoraram a dinâmica do capital, e o que o comunismo realmente é. Todas as contribuições para a discussão da crise - de Luxemburgo, Hilferding etc, a maioria das quais tinha uma concepção puramente econômica – focavam o problema do ponto de vista do capital: porque ele não podia funcionar. E não do ponto de vista do proletariado: como a revolta dos operários cria novas relações sociais. Isso não significa dizer que o comunismo surge apenas da ação dos proletários. Pelo contrário, eles só atacam o capital porque o capital os ataca devido a seus problemas internos - a queda da taxa de lucro etc. Mas isso não basta para entender as crises econômicas; é necessário compreender também o que elas implicam para o proletariado.

Porém, isso não foi compreendido naquela época, devido a estabilidade e prosperidade geral, que levou os revolucionários a cometerem uma série de erros. Um deles foi a incompreensão de que o movimento operário naquela época só podia ser reformista, e também que o movimento social-democrata poderia apenas ser gradualista (com poucas exceções). Em 1914, o colapso da Segunda Internacional lhes mostrou o que os partidos social-democratas realmente pretendiam.

A concepção de Trotsky, sobre a revolução permanente na Rússia, só pode ser entendida nesse contexto. Ele pensava que, depois da revolução democrática (que só poderia ser feita pelos operários e camponeses, pois a burguesia era muito fraca, e Lênin concordava com isso), os operários não podiam deixar de avançar e de tomar o poder, imediatamente - com o apoio dos camponeses pobres - para implantar o socialismo. Foi aí que Lênin não concordou. Agora, é óbvio que o comunismo - como Marx e a teoria comunista o definem - era impossível naquele estágio na Rússia, devido ao enorme setor pré-capitalista. Trotsky não se preocupava com isso, para ele o socialismo equivalia ao poder dos operários. Isto é o que tenho a dizer sobre sua concepção democrática da revolução. Entretanto, o comunismo é uma transformação da vida social, e não apenas sua gestão pelas massas.

Apesar ou, melhor, por causa dessa concepção, Trotsky desempenhou um papel mais importante na revolução de 1905 (porque estava muito mais próximo dos operários) do que Lênin, cuja posição centralista e rígida na cisão do partido social-democrata, em 1903, o havia alienado de muitos proletários atuantes. Lênin desconfiava dos movimentos espontâneos. É possível que os eventos de 1905 o tenham ajudado a modificar sua posição e a se tornar mais eficiente no período de 1906 à 1914.

Durante a guerra, o internacionalismo de Trotsky, assim como o de Rosa Luxemburgo, não era tão radical quanto a posição expressa por Lênin em seu slogan: transformar a guerra imperialista em guerra civil.

Depois que se juntou aos bolcheviques, Trotsky não compreendia muito bem o que estava acontecendo. Antes, ele havia identificado o socialismo com o poder dos operários; agora, identificava o poder dos operários com o poder do partido. Logo, ele concluiu que a Rússia estava construindo o socialismo. Em Comunismo e Terrorismo, ele afirmou que o dever dos operários era obedecer ao Estado (operário) e que o socialismo significava disciplina e alta produtividade do trabalho. Lênin agiu da mesma forma, mas ele pelo menos tinha alguma noção de comunismo. Ele mais ou menos compreendeu que a Rússia não era e só poderia ser socialista com a vitória do proletariado na Europa.

Devemos ser muito cuidadosos nesta questão. Trotsky realmente acreditava que o capitalismo poderia ser evitado na Rússia, mesmo sem uma revolução na Europa. É verdade que ele não foi tão longe a ponto de acreditar que a Rússia era completamente socialista. Este é o motivo pelo qual ele inventou um estágio intermediário, nem capitalista nem socialista, e uma fantástica teoria do bonapartismo.

Trotsky participou ativamente na supressão de toda oposição que tivesse algum conteúdo comunista. Sua própria oposição era oportunista (aliou-se com Zinoviev, em 1926) e temia ameaçar o Estado. Ele organizou sua própria derrota. Quantas pessoas sabem hoje que ele se absteve de toda atividade política durante um ano e meio, entre 1925-1926? Não há necessidade de insistir nesse assunto.

A nível internacional, ele foi incapaz de compreender os esforços das minorias comunistas e apoiou a Terceira Internacional em todos os seus erros (atividade nos sindicatos e parlamentos, partidos de "massa", slogan de governo operário etc). Depois de ser expulso da Rússia, ele foi totalmente incapaz de estabelecer qualquer espécie de contato útil com os grupos revolucionários. Ele se recusou a discutir a validade dos notórios "quatro primeiros congressos da Internacional Comunista." Foi sectário e oportunista, tinha uma visão burocrática da revolução. Na França, por exemplo, ele apoiou pessoas que não tinham ligações com proletários nem aptidões revolucionárias, mas eram intelectuais de esquerda. Uma lista de todas as suas asneiras políticas seria assombrosa. Em busca de uma massa de seguidores, ele exortou seus adeptos a se filiarem aos partidos socialistas. Ele fundou uma Internacional que tinha programa mas não proletários. Estava sempre procurando novos truques para ir às massas, mas sempre fracassou. De fato, Trotsky não tinha programa. Deve ser reconhecido como um ativo militante, cheio de atividade e habilidade, mas carente de base teórica comunista. Ele foi excelente no ascenso do movimento insurrecional, em 1905, mas equivocou-se completamente no declínio. Então, ele poderia se tornar o pior dos burocratas se estivesse no poder; ou um causador de problemas, se não tivesse poder algum. É discutível que ele sempre teve uma teoria própria, excetuada a teoria da revolução permanente - e ninguém sabe exatamente o papel de Parvus na criação dessa teoria.

Trotsky tornou-se uma figura importante, como um símbolo da revolução russa. Depois da derrota do movimento revolucionário, ele permaneceu importante apenas por causa da fraqueza da minoria comunista.

II

Pannekoek (1873-1960) não é muito conhecido no ocidente. Há poucos anos somente um punhado de militantes e especialistas universitários haviam escutado falar dele. Suas idéias e seu passado estão retornando, porque o período atual está recriando as condições de seu tempo - mas com importantes diferenças que nos forçam a corrigir suas concepções.

Pannekoek era holandês, mas a maior parte de sua atividade ocorreu na Alemanha. Ele foi um dos poucos socialistas que manteve viva a tradição revolucionária anterior a 1914. Mas ele só assumiu posições radicais durante e após a guerra. Seu texto de 1920, Revolução Mundial e Tática Comunista, é uma das melhores obras desse período. Pannekoek viu que o fracasso da Segunda Internacional não era devido a uma falha de sua estratégia, mas que a própria estratégia se enraizava na função e na forma da Segunda Internacional, que se adaptara a um estágio preciso do capitalismo no qual os operários reivindicavam reformas econômicas e políticas. Para fazer a revolução, o proletariado teve que criar órgãos de um novo tipo, que ultrapassavam a velha dicotomia partido/sindicato. Neste ponto, ele não pôde evitar uma ruptura com a Internacional Comunista. Primeiro, porque os russos jamais compreenderam o que a velha Internacional tinha sido, e acreditavam ser possível organizar os operários de cima, sem ver a conexão entre a "consciência socialista" (segundo Kautsky, introduzida nas massas) e a posição contra-revolucionária de Kautsky; segundo, porque o Estado russo estimulava os partidos de massa na Europa, capazes de pressionar seus governos para negociar com a Rússia. Pannekoek expressou o elemento comunista real na Alemanha. Rapidamente, porém, ele foi derrotado e vários partidos comunistas de massa apareceram no ocidente. Então, a esquerda comunista foi reduzida a pequenos grupos, divididos em diferentes frações.

No início dos anos 30, Pannekoek e outros tentaram definir o comunismo. Dez anos antes, no início dos anos 20, já tinham denunciado a Rússia como capitalista. Agora, voltaram à análise de Marx sobre o valor. Eles afirmavam que o capitalismo é produção para a acumulação de valor, enquanto o comunismo é produção de valor de uso, para a satisfação das necessidades das pessoas. Mas algum planejamento é necessário: sem a mediação do dinheiro, a sociedade terá de organizar um rigoroso sistema de contabilidade, para se manter informada sobre a quantidade de tempo de trabalho contida em cada bem produzido. Uma contabilidade precisa cuidará para que nada seja desperdiçado. Pannekoek e seus amigos estavam certos em voltar ao valor e suas aplicações. Mas se equivocavam ao procurar um sistema de contabilidade racional baseado no tempo de trabalho. De fato, o que eles propõem é o domínio do valor (porque o valor nada mais é do que a quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir um bem) sem a intervenção do dinheiro. Deve-se acrescentar que isso foi atacado por Marx em 1857, no início dos Grundrisse. Mas a esquerda comunista alemã (e holandesa) pelo menos enfatizou a essência da teoria comunista.

Na guerra civil alemã, de 1919 a 1923, os proletários mais ativos criaram novas formas de organização, principalmente o que eles chamaram "uniões operárias" 1 e às vezes "conselhos". No entanto, a maioria dos conselhos operários era reformista. Pannekoek desenvolveu a idéia de que essas formas eram importantes, de fato vitais para o movimento, enquanto opostas à tradicional forma partidária. Foi neste ponto que o comunismo de conselhos atacou o comunismo de partido. Pannekoek desenvolveria isso plenamente. Até o fim da segunda guerra mundial, ele publicou Os Conselhos Operários, elaborando uma ideologia puramente conselhista, na qual a revolução se torna um processo democrático, decidido e controlado pelos operários durante todo o tempo. O socialismo é reduzido à gestão operária; os revolucionários devem apenas se corresponder, divulgar a teoria, fazer circular a informação e descrever o que os proletários estão fazendo. Mas não devem se organizar como grupo político permanente, tentar definir uma estratégia, ou agir conseqüentemente, evitando assim se tornarem os novos líderes do proletariado e mais tarde a nova classe dominante. Tentei mostrar o quanto isso é errado no capítulo "Leninismo e a Extrema Esquerda", publicado em 1969 como panfleto.

Da análise da Rússia, enquanto capitalista de Estado, Pannekoek voltou-se à análise daqueles que, no países ocidentais, agem como representantes dos operários no capitalismo, sobretudo os sindicatos.

Pannekoek estava familiarizado com as formas diretas de resistência do proletariado contra o capital, e compreendeu o triunfo da contra-revolução. Mas não entendeu o contexto geral do movimento comunista: sua base (transformação do operário numa mercadoria), sua luta (ação centralizada contra o Estado e o movimento operário existente), seu objetivo (criação de novas relações sociais, nas quais não há economia enquanto tal). Ele assumiu um importante papel na reforma do movimento revolucionário. Devemos ver os limites de sua contribuição, e então integrá-la numa reformulação geral da teoria comunista.

III

Bordiga (1889-1970) viveu numa situação diferente. Como Pannekoek, que havia lutado contra o reformismo antes da guerra e abandonou o partido socialista holandês para criar um novo, Bordiga pertenceu à esquerda de seu partido. Mas não foi tão longe quanto Pannekoek. Durante a primeira guerra mundial, o partido italiano tinha uma imagem radical, e não havia possibilidade de cisão. O partido inclusive se opôs à guerra, ainda que de uma forma mais ou menos passiva.

Quando o partido comunista italiano foi fundado, em 1921, rompeu com a direita e o centro do partido socialista. Este fato desagradou a Internacional Comunista. Bordiga dirigiu o partido. Ele se recusou participar nas eleições, não como questão de princípio, mas de tática. A atividade parlamentar poderia às vezes ser usada, mas nunca quando a burguesia pode utilizá-la para distrair os operários da luta de classes. Mais tarde, Bordiga escreveu que não era contra o uso do parlamento como uma tribuna quando isso fosse possível. Por exemplo, no início do fascismo, fazia sentido tentar usá-lo como uma tribuna. Mas em 1919, no meio de um movimento revolucionário, quando a insurreição e sua preparação estavam na ordem do dia, tomar parte nas eleições significava reforçar as mentiras burguesas e as concepções equivocadas sobre a possibilidade de uma mudança através do parlamento. Esse foi um tema importante para Bordiga, cujo grupo no partido socialista havia sido chamado de "fração abstencionista". A Internacional Comunista não concordou com isso. Considerando um problema de tática e não de estratégia, Bordiga decidiu obedecer à I.C., porque pensava que a disciplina era necessária em tal movimento, mas manteve sua posição.

As táticas de frente única foram o pomo da discórdia. Pareceu a Bordiga que o simples fato de convidar os partidos socialistas para uma ação comum confundiria as massas e camuflaria a oposição inconciliável desses partidos contra-revolucionários ao comunismo. E também ajudaria alguns partidos comunistas, que não haviam realmente rompido com o reformismo, a desenvolver tendências oportunistas.

Bordiga se opôs ao slogan de governo operário, que só criou confusão na teoria e na prática. Para ele, a ditadura do proletariado era uma parte necessária do programa revolucionário. Hoje, podemos ver que ele estava certo nessas duas questões. Entretanto, diferente de Pannekoek, recusou-se a explicar essas posições em termos da degeneração do partido e Estado Russos. Ele sentiu que a I.C. estava equivocada, porém acreditava que ela ainda fosse comunista.

Diferentemente da Internacional Comunista, Bordiga adotou uma clara posição sobre o fascismo. Ele não apenas considerou o fascismo uma forma de dominação burguesa, como a democracia; mas também acreditou que não havia que escolher entre elas. Esta questão tem sido debatida freqüentemente. A posição da esquerda italiana é geralmente distorcida. Os historiadores costumam considerar Bordiga como responsável pela subida de Mussolini ao poder. Ele é até mesmo acusado de não se preocupar com o sofrimento do povo sob o fascismo. Porém, na visão de Bordiga, não é verdade que o fascismo é pior do que a democracia, ou que a democracia cria melhores condições para a luta da classe proletária. Mesmo se a democracia fosse considerada como um mal menor do que o fascismo, seria estúpido e inútil apoiar a democracia para evitar o fascismo: a experiência italiana (e, depois, a alemã) mostrou que a democracia não havia sido apenas impotente perante o fascismo, mas que havia chamado o fascismo em seu socorro. Com medo do proletariado, a democracia realmente engendra o fascismo. A única alternativa ao fascismo era, portanto, a ditadura do proletariado.

Outro argumento foi defendido mais tarde pela esquerda - pelos trotskistas, por exemplo - para apoiar a política antifascista. O capital necessita do fascismo: ele não pode ser democrático. Portanto, se lutamos pela democracia, nós estamos na verdade lutando pelo socialismo. Foi assim que a maioria das pessoas da esquerda (de fato, quase todas elas) justificou sua atitude durante a segunda guerra mundial. Mas se a democracia cria o fascismo, o fascismo cria a democracia. A história tem demonstrado que o que Bordiga afirmou em teoria se realiza na prática: o capitalismo substitui um pelo outro; democracia e fascismo sucedem-se um ao outro. Ambas as formas têm se misturado e interpenetrado, desde 1945.

É claro que a Internacional Comunista não podia tolerar a oposição de Bordiga, e, entre 1923 e 1926, ele perdeu o controle do Partido Comunista Italiano 2. Apesar de não concordar totalmente com Trotsky, ele o apoiou contra Stálin. No Comitê Executivo da Internacional Comunista, em 1926, ele atacou os líderes russos: esta foi provavelmente a última vez que alguém atacou publicamente a I.C., de dentro e num nível tão alto. Ainda aqui, é importante notar que Bordiga não analisou a Rússia como capitalista e a I.C. como degenerada. Ele só rompeu realmente com o stalinismo alguns anos depois.

Bordiga esteve preso de 1926 a 1930. Durante os anos 30, ele permaneceu afastado da intensa política dos emigrados. Mas sua influência foi grande e seus companheiros foram muito ativos na produção teórica.

Os anos 30 foram dominados pelo antifascismo e pelas frentes populares, que conduziram as preparações para uma nova guerra mundial. A minúscula esquerda italiana emigrante argumentava que a próxima guerra só poderia ser imperialista. A luta contra o fascismo através do apoio à democracia foi vista como uma preparação material e ideológica para essa guerra.

Depois do início da guerra, havia pouca oportunidade para a ação comunista. As esquerdas italiana e alemã adotaram uma posição internacionalista. Enquanto isso, o trotskismo escolheu apoiar os aliados contra o eixo. Naquela época, Bordiga ainda se recusava a definir a Rússia como capitalista, mas ele nunca defendeu - como o fez Trotsky - apoiar qualquer lado com que a União Soviética se aliasse. Ele jamais concordou com a defesa do "Estado Operário". É bom lembrar que, quando a Rússia, junto com a Alemanha, invadiu e dividiu a Polônia em 1939, Trotsky disse que isso era positivo, porque alteraria as relações sociais polonesas de um modo socialista!

Em 1943, a Itália mudou de lado e a República foi criada, dando oportunidades para ação. A esquerda italiana criou um partido. Eles sentiam que o fim da guerra levaria a lutas de classe similares em natureza àquelas do fim da primeira guerra. Bordiga realmente acreditava nisso? Ele aparentemente compreendeu que a situação era muito diferente. A classe operária estava nessa época totalmente sob controle do capital, que havia conseguido manobrá-la sob a bandeira da democracia. Quanto aos perdedores (Alemanha e Japão), foram ocupados e portanto controlados pelos vencedores. Mas Bordiga não se opôs de fato às opiniões da parte otimista de seu grupo, e manteve essa atitude até sua morte. Ele tendia a se manter afastado da atividade (e do ativismo) de seu "partido", e estava mais interessado na compreensão e explanação teórica. Portanto, ele ajudou a criar e perpetuar ilusões com as quais discordava. Seu partido perdeu a maioria de seus membros em poucos anos. No fim de 1940, estava reduzido a um pequeno grupo, como antes da guerra.

A maior parte da obra de Bordiga foi teórica. Uma parte considerável tratava da Rússia. Ele mostrou que a Rússia era capitalista e que seu capitalismo não era diferente em natureza do ocidental. A esquerda alemã (ou extrema esquerda) estava equivocada nessa questão. Para Bordiga, a coisa importante não era a burocracia, mas as leis econômicas essenciais que a burocracia devia obedecer. Essas leis foram as mesmas descritas em O Capital: acumulação de valor, troca de mercadorias, declínio da taxa de lucro etc. Na verdade, a economia russa não sofreu devido à superprodução, mas somente por causa de seu atraso. A extrema esquerda acreditava que a Rússia havia alterado as leis básicas descritas por Marx. Ela insistia no controle da economia pela burocracia, à qual opunha o slogan da gestão operária. Bordiga disse que não havia necessidade de um novo programa; a gestão operária é um problema secundário; os operários somente serão capazes de gerir a produção se as relações mercantis forem abolidas. É claro que esse debate ultrapassou o quadro da análise da Rússia.

Essa concepção tornou-se clara, no final dos anos 50. Bordiga escreveu alguns estudos sobre os textos mais importantes de Marx. Em 1960, ele afirmou que toda a obra de Marx era uma descrição do comunismo. Este é, indubitavelmente, o comentário mais profundo feito sobre Marx. Assim como Pannekoek havia voltado à análise do valor por volta de 1930, Bordiga voltou a ela trinta anos depois. Mas o que Bordiga desenvolveu foi uma concepção geral do processo e dinâmica da troca, de sua origem à sua morte no comunismo.

Entretanto, Bordiga engavetava sua teoria do movimento revolucionário, que incluía uma compreensão errada da dinâmica interna do proletariado. Ele pensou que os operários primeiramente se uniriam num nível econômico e alterariam a natureza dos sindicatos; eles então alcançariam o nível político, graças à intervenção da vanguarda revolucionária. É fácil ver aqui a influência de Lênin. O pequeno partido de Bordiga participou de sindicatos (controlados pelo partido stalinista) na França e Itália, sem resultado algum. Ainda que mais ou menos desaprovasse isso, ele não assumiu uma posição pública contra tal atividade desastrosa.

Bordiga manteve vivo o núcleo da teoria comunista. Mas não pôde se livrar das ilusões de Lênin, ou seja, as da Segunda Internacional. Portanto, sua ação e suas idéias tinham de ser contraditórias. Mas hoje não é difícil compreender aquilo que foi - e ainda é - válido em seu trabalho.

IV

Existem muitas lendas sobre os que tentaram resistir e manter viva a tradição revolucionária durante a longa contra-revolução que vivenciamos desde o início dos anos 20. Como a teoria é parte necessária e indispensável da subversão (todo movimento social quer compreender o que está fazendo), e já que a tradição marxista é a mais precisa e, de fato, a única válida, seria útil conhecer as tendências representadas por Trotsky, Pannekoek e Bordiga.

A primeira coisa a saber é o que eles realmente representam. Trotsky liderou uma facção no Estado Russo, e só se tornou oposicionista porque foi expulso do círculo interno dos líderes russos. Ele sempre se considerou um cidadão da União Soviética, cujos interesses eram mais importantes para ele do que os do proletariado. Na Rússia, ele foi contra qualquer oposição que tivesse um real conteúdo proletário, quaisquer que fossem as suas deficiências - como a Oposição Operária (1920-1921), o Grupo Operário (1921-1922) e até mesmo os centralistas democratas. Fora da Rússia, ele nunca tentou ver o que os comunistas de esquerda europeus (na Itália, Alemanha e outros países) realmente foram. Morreu sem ter aprendido nada. É difícil encontrar em sua obra alguma coisa que possa ser útil, hoje em dia. Muitas pessoas foram atraídas por seu prestígio e ainda o são. Mas quem procura algo verdadeiramente radical e tenta formular questões fundamentais deve ir além dele. Trotsky foi um excelente revolucionário, numa parte de sua vida. Mas pertence ao passado.Pannekoek e Bordiga são essencialmente diferentes. Eles são produtos dos melhores elementos da onda revolucionária na Europa, depois da primeira guerra mundial. Seguramente, devem existir militantes similares em outras partes do mundo, no mínimo nos países altamente desenvolvidos - no Japão por exemplo. Talvez seja instrutivo examinar isso.

Pannekoek entendeu e expressou a resistência do proletariado à contra-revolução, num nível imediato. Viu os sindicatos como um monopólio do capital variável, similar aos monopólios que concentram o capital constante. Descreveu a revolução como apropriação da vida pelas massas, contra o produtivismo, a hierarquia e a visão nacionalista do "socialismo" stalinista e social-democrata (compartilhada pelo trotskismo, e agora pelo maoísmo). Mas não apreendeu a natureza do capital, ou a natureza da mudança que o comunismo acarretaria. Em sua forma extrema, desenvolvida por Pannekoek no fim de sua vida, o comunismo de conselhos se torna um sistema de organização no qual os conselhos assumem o mesmo papel que o "partido" desempenha na visão leninista. Mas seria um erro grave identificar Pannekoek com seu pior período. Do mesmo modo, não se pode aceitar a teoria da gestão operária, especialmente numa época em que o capital procura novas maneiras de integrar os proletários, oferecendo-lhes a participação em sua gestão.

Este é precisamente o motivo pelo qual Bordiga é importante: porque ele considerou toda a obra de Marx como uma tentativa de descrever o comunismo. O comunismo existe potencialmente no proletariado. O proletariado é a negação desta sociedade. Ele irá eventualmente se revoltar contra a produção de mercadorias, nem que seja apenas para sobreviver, porque a produção de mercadorias o destrói, até mesmo fisicamente. A revolução não é uma questão de consciência, tampouco um problema de gestão. Isso faz Bordiga ser muito diferente da Segunda Internacional, de Lênin, e da Internacional Comunista oficial. Mas ele nunca tentou traçar uma linha entre o presente e o passado. 3 Agora, nós podemos fazê-lo.

Janeiro, 1973

Apêndice 3: Carta sobre o uso da violência

Apêndice 3 do livro Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista.

Carta Sobre o Uso da Violência

02 de Maio de 1973

Queridos companheiros,

A abordagem "marxista" usual é claramente não-revolucionária (quero dizer: pseudo-marxista). A maioria dos militantes da extrema esquerda diz apoiar completamente a necessidade de uma ação armada e uma guerra civil no futuro. Para eles isso é um mero princípio.

Deve-se não apenas dizer: Se você quer a paz prepare-se para revolução. Mas também: Se você quer a revolução, prepare-se para a guerra – isto é, a guerra civil.

Ë tão fácil delirar que ninguém consegue ser cuidadoso tratando deste assunto. Por outro lado, a atitude da maioria dos grupos políticos que se recusam a assumir seriamente o problema deve ser denunciada.

Sinto que na maioria das vezes os apelos revolucionários se referem à violência sob um ponto de vista puramente político, no sentido em que Marx atacou a política enquanto tal: por exemplo, no seu artigo de 1844 sobre o rei da Prússia e a reforma social. O objetivo da política é mudar o sistema de governo, e não as bases da sociedade; mudar a gestão do sistema, não o sistema em si. Se examinarmos os grupos de esquerda, sejam trotskistas, maoístas ou mesmo anarquistas, veremos que o quadro que pintam de uma sociedade futura não é muito diferente da realidade atual. Quem faz realmente avançar o programa comunista? Qual deles fala realmente sobre a abolição da produção mercantil, da supressão da teoria e da prática econômicas enquanto campos separados? O que eles querem é um capitalismo democraticamente controlado, no qual os trabalhadores seriam aparentemente a nova classe dominante... por meio de seus representantes - eles, os grupos de esquerda, é claro. Raramente, um desses grupos revolucionários entende a revolução como a emergência de novas relações, cujas bases materiais já existem. Aqueles que apóiam tais visões geralmente as interpretam no sentido de que tal mudança é possível agora e deve começar já. Isto é, na prática, um rechaço total da revolução que pode ser rotulado de contra-cultura e ser encontrado em qualquer lugar.

Talvez soe um pouco confuso, mas é importante compreender que o uso da violência - na revolução e também antes - depende do programa social da revolução. Basicamente, o conteúdo do movimento é o mesmo, mas a maneira de conduzi-lo será diferente. No tempo de Marx, o proletariado ainda tinha de desenvolver as forças produtivas; hoje em dia, ele terá apenas de transformá-las - comunizá-las, digamos assim. No tempo de Marx, como em 1920, ainda existia uma importante parcela pequeno-burguesa da população, mesmo em países como a Alemanha. O partido era apenas um corpo separado, uma organização formal. Sua tarefa era: primeiro derrotar o Estado e seu exército, e só então começar a transformar a sociedade. Hoje, a comunização da sociedade pode começar logo e é, na verdade, parte da ação puramente militar. Podemos e devemos fazer com que a burguesia e o Estado, ou seja, os órgãos da economia capitalista se tornem completamente inúteis, destruindo a economia e implantando o comunismo. Do nosso ponto de vista, a ação militar emprega agora armas sociais que não existiam há 50 anos atrás - ou que existiam num grau muito menor. Por outro lado, do ponto de vista do capital, o Estado se tornou muito mais eficiente. Talvez fosse interessante conhecer War Without End (Vintage Books, 1972), de M. Klare. Embora focalize principalmente as guerras em "áreas subdesenvolvidas", este livro fornece informações úteis sobre a estratégia preparatória para a guerra civil dos estados capitalistas do "mundo desenvolvido" (é claro que isso inclui a Rússia e a China: a maneira como a China reagiu à insurreição do Ceilão foi típica). O Estado sabe o que os esquerdistas ignoram, isto é, que a comunização é possível e é um perigo real para sua existência. Ele tentará isolar os revolucionários com a ajuda das organizações oficiais (sindicatos, partidos "comunistas", socialistas e trabalhistas, e a maioria dos grupos esquerdistas). Provavelmente, sua estratégia consistirá em isolar as áreas revolucionárias. E suas táticas, para evitar que evoluam para o comunismo, incluirão a destruição sistemática de suas condições materiais: indústria, poder, transporte etc. Se necessário, com os mesmos métodos que utilizou na segunda guerra mundial (que foi imperialista, exatamente como a primeira). Mas, antes de alcançar esse estágio, tentará esmagar o movimento revolucionário usando tropas de elite. Considerada sob um enfoque puramente material, a superioridade do capital é notável: nossa única esperança está numa subversão geral e coerente, que combata o Estado em todos os lugares.

Acredito que não se devam fazer tais generalizações. Todavia, muita coisa pode ser feita, neste momento. Se observarmos os Tupamaros ou Baader-Meinhof , parece que optaram pela luta armada para fornecer uma espécie de impulso à sociedade e também porque não queriam utilizar os métodos tradicionais. Este segundo motivo não é um "erro": apenas, não podiam fazer diferente. Estavam fartos e desgostosos deste mundo. Não os condeno por esse elemento "irracional". Mas devemos admitir que tal atitude está próxima da loucura. Nada tenho contra a loucura: o que nós chamamos de "louco" é apenas um indivíduo produzido pela sociedade. Esta sociedade também se livra dos elementos subversivos tornando-os loucos.

Mas eles começaram a luta armada pretendendo colocar o proletariado em movimento. Eles esperavam acordá-lo. Isso foi pura ilusão, típica da política. A mente politizada sempre tenta agir sobre as outras, para organizá-las ou forçá-las a fazer algo, enquanto se mantém fora do movimento social. Nossa tarefa também é política, mas somente quando lida com a destruição do poder político. A tarefa principal dos comunistas não é juntar-se a outros. Eles se juntam com outros para executar as tarefas decorrentes de suas próprias necessidades: pessoais e sociais, imediatas e teóricas.

Isto é, infelizmente, muito mal expressado. Quero ressaltar que nosso objetivo principal não é agir sobre as consciências das pessoas para que elas mudem. Isto é uma ilusão com a eficiência da propaganda, seja ela feita por textos ou por ações. Nós não "convencemos" ninguém. Podemos apenas expressar o que está acontecendo. Não podemos criar um movimento na sociedade. Podemos apenas atuar num movimento ao qual já pertençamos.

Tratando da questão militar, o mesmo princípio é válido. Claro, é necessário explicar o programa militar da revolução - por meio de textos, panfletos etc. Na prática, existem muitas coisas para fazer. Mas elas também têm em vista algo que já está sendo feito de uma maneira ou de outra, que esteja mal entendido ou no qual existe uma contradição ativa, por menor que seja. Darei um exemplo. Se alguma pessoa tem sido particularmente nociva para os operários (um capitalista, um militar), isto não significa que se deva necessariamente atacar essa pessoa, como se ela fosse um símbolo. Tal ato pode ser útil ou não, segundo o contexto. É ingênuo crer que o proletariado compreenderá o significado desse ato e mudará sua atitude. Seria o caso, se o proletariado já estivesse engajado numa ação violenta. De outra forma, tal ataque fortalecerá o Estado.

Por outro lado, se uma minoria organiza uma ação contra o exército, contra um aspecto decisivo de sua função e seu papel contra-revolucionário, isto pode ter um impacto, ainda que nenhuma força social pareça estar atuando contra o exército em "nosso" país neste momento. Tal atividade ajuda a mostrar - mesmo para poucas pessoas - que os revolucionários já estão em guerra contra o exército. Mas isso exige que tenhamos habilidade para explicar o significado de nossos atos, o que requer no mínimo alguma capacidade de expressão.

Uma das forças do capital é que o povo - mesmo o proletariado - nem imagina o que o Estado é capaz de fazer numa guerra civil. Talvez se surpreendam, depois. É muito útil frisar agora os aspectos importantes da futura guerra civil. Supostamente, deveríamos contatar elementos radicais (e mesmo "liberais") do próprio exército. Mas tais ações parecem estar totalmente fora da realidade do movimento social. Além disso, já há muitos operários radicais examinando a questão militar.

Não digo que a Angry Brigade, Baader e outros estejam "errados". Digo que foram vítimas de uma espécie de delírio, no qual a lógica da violência e do isolamento social gera mais violência e isolamento social. Expressei apenas visões parciais. Entretanto, nada de bom pode ser feito se não conectarmos nossa atividade agora com o que já sabemos sobre a revolução no futuro. Rejeito a autodestruição. Qualquer tolerância neste assunto é irresponsável e criminosa.

Você deve ter ouvido falar da agitação que se desenvolveu na França em torno da questão do serviço militar obrigatório, nas escolas e universidades. Mas dificilmente você poderia imaginar a ideologia dos grupos trotskistas e maoístas (o partido "comunista" é nacionalista desde 1934). Há poucos dias, li um texto maoísta que pregava o controle popular do exército! Os esquerdistas se recusam a dizer: "Abaixo o serviço militar!", porque acreditam que o exército tal como existe é um pouco mais democrático e popular do que um exército de voluntários. Alguns, pretensamente mais radicais, ousaram dizer: "Abaixo o exército!". Mas ninguém disse uma palavra sobre a guerra civil. Por este motivo, fizemos um panfleto altamente dogmático: no mínimo para estabelecer o princípio de que a questão militar é parte necessária da revolução. Mas é espantoso ver que mesmo revolucionários genuínos adotam uma atitude tão simplória nestes assuntos.

Por favor, encarem essa carta apenas como uma carta, e não como um "texto" propriamente dito.

Fraternalmente,

Jean Barrot